Capítulo 9: Beth Conhece Chelsea
Quando ela chega em casa, Beth checa a secretária eletrônica pra ver se tem recados… na real, se tinha algum recado da Trish… o que não tinha. Aí ela resolve ligar pra ela.
Depois de uns toques, uma voz atende: “McGinley Realty, aqui é Patricia Hawthorne, em que posso ajudar?”
“Trish, oi, é a Beth.”
“Oi, Beth. Tudo bem?”
“Não, na real não.” Beth continua: “Tô ligando só pra saber se você descobriu alguma coisa sobre essa casa.”
“Ah, me desculpa. Devia ter te ligado antes.”
“De boa. E aí, o que você descobriu?”
“Beth, a gente tá meio que na correria aqui. Mas prometo, quando as coisas acalmarem, eu começo a ver a história da sua casa, tá?”
“Beleza.” Beth pergunta: “Tem ideia de quanto tempo falta pras coisas darem uma aliviada?”
Dá uma pausa antes da Trish responder: “As coisas devem se normalizar nas próximas três ou quatro semanas.”
“Três ou quatro semanas? Trish, por favor, não pode ser antes?”
A Trish pausa de novo antes de responder: “Vou fazer o que posso, mas não posso prometer nada. Se eu descobrir alguma coisa antes, eu te ligo.”
“Valeu, agradeço. Por favor, assim que descobrir alguma coisa, me liga.”
“Vou ligar.” A Trish recebe outra ligação. “Tem alguém ligando na outra linha, Beth, preciso ir. A gente se fala. Tchau.”
“Tchau.” Beth escuta a linha vazia antes de desligar o telefone.
Um pouco depois, Beth tá na varanda dos fundos, fazendo um equilíbrio no cóccix… com as pernas cruzadas e os joelhos perto do peito… usando os braços pra segurar as pernas no lugar enquanto encosta o queixo na ponta dos joelhos. Beth não ficava nessa posição desde criança. Todos os medos e inseguranças da juventude da Beth estão inundando a mente dela, levando ela de volta àquela criança de novo… com medo de uma casa grande e assustadora. O medo dela dessa vez, no entanto, não é de estar numa casa escura, mas sim do medo da escuridão criada pela própria casa. Tem coisa ruim naquela casa… e não é só a imaginação de uma garotinha… é de verdade.
Beth fica balançando pra frente e pra trás, caindo fundo num estado auto-induzido, tipo coma, ficando cada vez menos consciente do que está em volta enquanto os medos a engolem. Na mente dela, é noite e ela tá andando sozinha na casa da avó dela, perdida num labirinto de corredores e escadas escuras, tentando desesperadamente achar alguém… qualquer um… mas não acha. Ela corre por ali gritando, mas ninguém responde.
Beth é puxada de repente desse estado hipnótico… sentindo uma presença horrível… e acorda com uma visão medonha. Uma garota, mais ou menos da idade da Anna, usando roupas rasgadas e encharcadas, coberta por uma mistura grotesca de lama e sangue. Várias feridas abertas no corpo dela estão cheias de larvas. E tem um cheiro podre muito forte nela, fazendo a Beth sentir muita náusea.
A garota olha na direção da Beth… não pra Beth… mas, aparentemente, através dela. Beth pula pra cima, se afastando. A garota sobe na varanda e para na frente da Beth, deixando só uns dois palmos entre elas.
Tremendo, com a voz falhando, Beth pergunta: “Você tá bem? Precisa de ajuda?”
A garota só fica parada lá, imóvel, tipo uma estátua gótica. Beth tenta de novo. “O que aconteceu? Posso ligar pra alguém pra você?”
De novo, nenhuma resposta. Beth respira fundo antes de perguntar a inevitável: “Mary?”
Os olhos da garota agora focam na Beth em vez daquele olhar distante. Ela balança a cabeça.
“Então, quem é você?”
“Chelsea.”
“Chelsea quem?”
Ela começa a desligar de novo, então Beth tenta outra pergunta. “Chelsea, de onde você veio?”
A Chelsea refoca e responde: “O lago.”
“O lago? Que lago, Chelsea? Teve algum acidente? Tem mais gente lá?”
Sem receber resposta, uma Beth frustrada levanta a voz: “Chelsea, tem mais alguém? Você precisa de ajuda?”
A Chelsea começa a olhar em volta. “Você viu meu irmão? Não consigo achar ele. Mamãe e Papai vão ficar muito bravos, era pra mim estar cuidando dele. Você viu ele?”
A Beth começa a chorar baixinho enquanto responde: “Não. Não, Chelsea, não vi seu irmão.”
A Chelsea continua olhando em volta. “Ele só tem quatro anos. Não sei onde ele tá. Você viu ele? Não consigo achar ele. Era pra mim estar cuidando dele.”
A Beth continua chorando… um pouco mais forte do que antes. “Não, eu não vi ele.”
“Não sei onde ele tá.” Ela grita: “Tommy! Tommy! Onde você tá, Tommy? Volta! Volta!”
A Beth se junta a ela: “Tommy! Tommy! Onde você tá, Tommy, caramba!”
A Chelsea para e olha pra Beth. “Não fala palavrão. Não é certo falar palavrão… Vou indo agora.”
“Não, espera, por favor, desculpa. Não vai ainda. E o Tommy?”
“Eu acho ele sozinha: obrigada. Preciso ir agora.” A Chelsea começa a ir embora.
“Chelsea”, a Beth grita pra ela, “se o Tommy aparecer, onde você vai estar?”
Ela fica quieta por um momento antes de responder: “Vou estar de volta no lago.”
“O lago?”
“O lago.” A Chelsea vai pra beira das árvores atrás da propriedade delas, vira pra Beth e diz: “Diz pra Anna não acreditar em tudo que a Mary fala pra ela.”
Ela vira e entra na mata.