CAPÍTULO VINTE E SEIS
Acordo e me vejo de volta na cela. Rapidamente, checo meu corpo pra ver se tô vestida, e tô.
"Ana, você tá acordada?" Theo pergunta, parecendo exausto.
"Sim, tô, Theo, você tá bem?" eu digo, indo em direção a ele, lá no fundo da cela. "Theo!" Eu grito assim que vejo o estado em que ele tá. Ele tá pior do que antes.
O ombro dele tem uma ferida aberta, onde eu imagino que um desordeiro tava tentando arrancar um pedaço. A cara dele tá cheia de marcas de garras. No pescoço, ele também tem uma mordida de vampiro, e parece que ele tá suando. Coloco a mão na testa dele pra ver a temperatura, e tá alta. A prata no corpo dele tá demorando pra sair, então tá deixando ele doente. As feridas que ele tem também não tão ajudando a acelerar as coisas.
Rapidinho, rasgo um pedaço da minha camisa e amarro no ombro dele pra tentar estancar o sangramento o máximo que consigo.
"Theo, você não tá nada bem. A gente não pode esperar você se recuperar antes de tentar escapar. Você tá muito machucado e ficando doente. Vai precisar de um monte de cuidados pra te curar. Precisamos bolar um novo plano."
"Não consigo pensar em nada agora, mas tenho certeza que alguma coisa vai surgir", ele diz rouco. Parece que ele tá com muita dor. Queria tanto ter um jeito de ajudar ele a sarar.
Eu fico pensando em ideias de como a gente pode escapar, quando me vem uma ideia de como ajudar o Theo a sarar mais rápido.
"Theo, e se você tomar meu sangue? Ouvi dizer que tomar o sangue da sua companheira pode acelerar a cura."
"Eu não preciso do seu sangue pra sarar. Eu vou ficar bem."
"Você precisa."
"Eu não posso tomar seu sangue. Você mal sobreviveu ao ataque do vampiro. Você precisa de todo o sangue do seu corpo pra sarar", ele diz, e eu toco no meu ombro, onde tá a mordida do vampiro. Consigo sentir as marcas dos dentes dele no meu pescoço. Tive sorte do Theo ter tirado o vampiro de cima de mim antes que ele conseguisse tirar muito sangue meu.
"Eu não preciso de muito sangue no meu sistema agora. Você precisa mais do que eu." Eu digo e libero minhas garras. Corto meu pulso e coloco a mão na boca do Theo. "Aqui."
"Eu não posso tomar seu sangue." Ele diz, afastando a cabeça da minha mão.
"Você precisa, então toma", eu digo, enfiando minha mão na boca dele. Ele tenta tirar minha mão, mas como tá doente... Ele tá fraco demais pra mover minha mão com força.
Ele não tem presas como um vampiro, mas sinto os caninos dele afundando na minha pele quando ele tira sangue de mim. Faço uma careta quando sinto os dentes dele afundando mais na minha carne. Começo a entrar em pânico quando sinto que ele tá tirando muito sangue de mim. Por que parece que ele é um vampiro tirando sangue de mim, em vez de um lobisomem? Tento tirar minha mão da boca dele, mas ele me impede e empurra mais perto da boca dele. Tiro minha mão da boca dele com força, porque começo a sentir tontura com todo o sangue que ele tá tirando de mim.
"Preciso de mais", Theo diz, com os olhos grudados na minha mão.
"Theo", eu digo, colocando a mão no rosto dele. Ele sente minha mão na pele dele, e os olhos dele finalmente saem da minha mão. No minuto em que os olhos dele encontram os meus... Eles se enchem de remorso.
"Ana, sinto muito. Não consigo acreditar que perdi o controle. Tô tão envergonhado de mim mesmo agora. Eu não sou um vampiro que precisa de sangue pra sobreviver. Não sei o que me deu. Desculpa."
"Tudo bem. Você não precisa pedir desculpa."
"Obrigado por me perdoar."
"De nada, e como você tá se sentindo? Melhorou alguma coisa?" Eu pergunto, esperando que tenha dado certo.
"Não dá pra saber imediatamente, mas seu sangue deve me ajudar a sarar mais rápido. Tomara que em algumas horas a prata saia do meu sistema."
"Beleza, espero que funcione", eu digo, encostando na parede, perto do Theo. Sinto vontade de fechar um pouco os olhos, então os fecho. Toda a briga de antes realmente detonou meu corpo.
Abro os olhos quando ouço ondas quebrando. Por que de repente parece que a gente tá perto do oceano? Esfrego os olhos, enquanto os abro pra descobrir o que tá rolando.
"Olá, pombinhos", Ekaterina diz, saindo de um portal de água.
"Ekaterina", eu digo, sorrindo. Me sinto tão feliz em ver ela. Não acredito que ela nos encontrou. Eu não achava que ela ia conseguir, e tava preocupada que mesmo se ela conseguisse... Ela não pudesse ajudar por causa da quantidade de humanos guardando esse lugar.
"Vejo que você dominou seus feitiços de rastreamento", Theo diz.
"Sim, eu dominei. Sinto muito por ter demorado tanto pra encontrar vocês", Ekaterina diz.
"Tanto faz, desde que você esteja aqui pra ajudar agora", eu digo.
"É, e deixa eu ver suas feridas", ela diz, indo na minha direção.
"Trata o Theo primeiro. Ele tá muito machucado", eu digo, direcionando ela pro Theo.
"Quanta prata você sente no seu corpo?", Ekaterina diz, examinando as feridas do Theo.
"Não muita, mas com as minhas feridas, tá demorando pra prata sair do meu corpo."
"Eu imaginei. Vou tentar curar todas as suas feridas externas. Não consigo remover a prata do seu sistema, mas se você for curado por fora... Deve ajudar a acelerar a saída da prata do seu corpo."
"Ok", Theo diz, e Ekaterina faz o de sempre. Ela usa água pra curar as feridas do Theo e as minhas.
"Agora que vocês dois estão curados, acho que podemos ir", Ekaterina diz, assim que termina de curar minhas feridas.
"Não podemos. Tem uns 100 lobos aqui. Não podemos simplesmente deixá-los", eu digo antes do Theo falar.
"Eu não consigo curar 100 lobos nem manter um portal aberto tempo suficiente pra todo mundo passar por ele. Vamos ter que ir sem eles."
"Não podemos; eles são o meu povo", Theo diz.
"O que a gente faz então?", Ekaterina diz.
"Assim que toda a prata sair do meu sistema, eu vou conseguir derrubar os humanos, mas pra isso funcionar... Vou precisar que você faça uma coisa por mim."
"O quê?", Ekaterina pergunta.
"Termine de criar aquele feitiço de escudo de prata pra lobisomens que eu pedi pra você criar anos atrás."
"Não, eu não posso. Aquele feitiço quase fez a minha rainha me encontrar."
"Eu sei, mas sem aquele feitiço, não vamos conseguir salvar todos os lobisomens daqui. Por favor, termine de criá-lo, e se você fizer isso, prometo que vou te ajudar a encontrar sua rainha e fazer ela parar de te procurar."
"Você vai mesmo me ajudar a fazer isso?", Ekaterina diz, chocada.
"Eu preciso salvar o meu povo aqui, então vou fazer o que for preciso", Theo diz.
Eu não consigo evitar e admiro ele, enquanto ele tenta fazer de tudo pra salvar o povo dele das mãos desses humanos malvados.
"Vou tentar ter o feitiço pronto em três dias. Até lá, toda a prata do seu corpo também deve ter sumido."
"Sim, deve."
"Beleza, tchau", Ekaterina diz, criando um portal.
"Tchau, e traga boas notícias em três dias."
"Tomara", ela diz, entrando no portal.
"Como você tá se sentindo?" Eu pergunto pro Theo assim que a Ekaterina vai embora.
"Tô bem", ele diz, tirando minha mão que tocou na cabeça dele pra ver a temperatura.
"Que bom", eu digo, esfregando as mãos nos braços pra fazer o frio que tô sentindo ir embora.
As roupas que os humanos usaram pra mim não me protegem muito bem do frio. Meus olhos arregalam quando sinto os braços do Theo me envolvendo. Theo e eu ainda não definimos nosso relacionamento um com o outro. Por isso ainda me surpreende, até agora, quando ele age assim. O calor do corpo dele me esquenta, e sinto meu corpo relaxar nos braços dele. Podia ficar nos braços dele o dia todo.