Capítulo 60
POV da Onika...
Eu tava encarando a figura pálida do Agustin deitada na cama do hospital, com um soro ligado no pulso, os olhos fechados, uma pequena carranca na testa. Mesmo com os olhos fechados, ele parecia perturbado. Respirei fundo pra me lembrar que agora ele tá bem. Tô sentada do lado da cama dele faz umas cinco horas, e ele não mexeu um músculo.
Ele tá com uma cara tão sem vida agora... meu coração doeu só de pensar. Acho que foi por isso que o Jacob não me levou com ele, ele já sabia como ia ser. Graças a Deus o Jacob chegou lá na hora, se não fosse por ele... Nem quero pensar.
Nunca quis tanto uma coisa como quero que ele abra aqueles olhos cor de avelã e olhe pra mim. Levei a mão até a bochecha dele, traçando um roxo enorme do lado da bochecha com meu dedo, bem de leve. Ele não se mexeu, não gemeu de dor, nada.
Sei que eu devia ter contado a verdade pro Agustin, errei em achar que podia esconder isso dele pra sempre. No começo eu botava a culpa nele por tudo que aconteceu, talvez ele tenha culpa... talvez não, não sei mais de nada, mas sei de uma coisa, nada mais vai ser igual.
Com meu filho(a) indo embora, nada mais vai ficar bom entre mim e o Agustin, por mais que eu queira seguir em frente, uma parte de mim sempre vai culpar o Agustin pelo que rolou.
Sei que ele não sabia que eu tava grávida naquela época, senão talvez ele não tivesse feito o que fez, mas toda vez que penso no meu bebê, só consigo pensar em como eu passei dias sem comer, apanhando quase até desmaiar, deitada no chão frio, e comigo, era meu bebê que tava morrendo junto, todo dia, aos poucos, não era só eu, o bebê tava sempre lá dentro de mim, sofrendo comigo, e eu não consegui proteger ela,
Falhei com ela e o Agustin também, e não tem como se arrepender disso, só pode ter uma culpa imensurável... que nunca vai ser o suficiente.
Não consigo explicar como foi saber que você teve um aborto no mesmo dia em que descobriu que tava grávida, prefiro morrer mil vezes a testemunhar uma coisa dessas de novo, foi só naquele momentinho que eu soube que tinha um bebê dentro de mim... e aí ela se foi, sumiu na minha frente. E eu não pude fazer nada. Às vezes sinto que sou amaldiçoada e... o Agustin é a maldição.
Toda vez que lembro daquele dia, sinto calafrios de angústia e dor percorrendo a espinha, nunca consegui tirar da cabeça a imagem do meu bebê morto, não importa quanto tempo passe, nunca vou conseguir seguir em frente, uma parte da minha alma sempre vai estar presa naquele momento horrível. Nunca mais vou poder libertá-la, nunca. Nada do que o Agustin fizer vai mudar isso. Nada que eu fizer vai mudar isso.
Mas isso não significa que eu quero ver o Agustin morto. Já perdi a conta de quantas vezes rezei pra Deus castigar o Agustin da pior forma possível, às vezes cheguei a querer vê-lo morto, mas nunca pensei que seria tão doloroso vê-lo inconsciente na minha frente, talvez fosse mais fácil se ele ainda fosse aquele babaca insensível, e não alguém sofrendo assim, sofrendo pelo que fez, sofrendo pela perda do meu bebê, do nosso bebê.
Fui tirada daquele turbilhão de pensamentos quando senti a mão de alguém no meu ombro, me virei pra ver o Jacob me encarando, os olhos dele encontrando os meus e suavizando um pouco.
Ele me estendeu um copo de suco, antes que eu pudesse abrir a boca pra reclamar, ele estreitou os olhos em sinal de aviso.
"Ele tá bem, Onika, ficar encarando sem parar não vai fazer ele acordar mais cedo, ele tá sob efeito de remédios."
Suspirei derrotada e peguei o copo dele. Ele trouxe outra cadeira e sentou do meu lado. "Pode ir se arrumar, vou ficar aqui com o Agustin, se tiver alguma novidade eu te ligo na hora."
"Não! Não, tudo bem, eu tô bem... Eu-eu--" Não consegui terminar, sentindo vergonha de mim mesma por ainda me importar.
"Não quer deixá-lo aqui assim, mesmo depois de tudo que ele te fez porque ainda sente algo por ele?" Ele completou por mim, mas não tinha nenhum tom de deboche na voz dele, era como se ele só estivesse constatando fatos.
Desviei o olhar, não conseguindo aguentar o olhar intenso dele, talvez eu seja patética mesmo. Senti o Jacob apertando minha mão de leve. Juntando coragem, olhei de volta nos olhos dele, procurando qualquer sinal de decepção, ou nojo, mas não tinha nada, se é que tinha alguma coisa, os olhos dele ainda transmitiam o calor que eu sempre procurei.
"Tudo bem, eu já sabia." Ele confessou. Eu só fiquei olhando pra ele confusa.
"Lembra quando eu te perguntei se você ainda amava o Agustin?" Balancei a cabeça, pedindo pra ele continuar, porque eu lembro muito bem que eu disse claramente que não.
"Você disse que não, mas eu conseguia ver a luta nos seus olhos, você disse que não, mas cada músculo do seu rosto tava dizendo o contrário, não tinha certeza se era amor ou não, mas sabia que você ainda sentia algo por ele." Ele disse com uma voz baixa, a voz dele diminuindo um pouco, como se estivesse doendo admitir. Enquanto eu tava completamente chocada, de boca aberta, a ficha caiu de repente,
"o que você tava pensando em me sugerir pra agir como a esposa dele pra conseguir a assinatura dele nos papéis do divórcio--" Olhei pra ele com desconfiança.
"--Ai meu Deus! Como eu pude ser tão burra, como não percebi isso antes?!" Estreitei os olhos pra ele perigosamente.
"Jesus, não! O que você pensa de mim! Não foi pra você voltar com seu marido abusivo." Ele me olhou incrédulo e magoado antes de continuar,
"O dia que eu percebi que o Agustin não era nem um pouco digno de beijar a terra que você pisa foi o dia que eu só quis mantê-lo longe de você, ele teve chances e mais chances, e toda vez ele provou que é incompetente.
Mas eu não queria dar em cima de você sabendo que você ainda não tava pronta pra deixar o passado pra trás, teria sido fácil se eu tivesse feito uma jogada naquela época, mas eu não queria te ter te enganando quando você tava na sua pior fase, se me perguntar, ainda não dou a mínima pra você ainda sentir algo pelo Agustin, ainda consigo passar a vida toda com você sem reclamar uma vez, com amor ou sem amor, só você estando do meu lado já me faz me sentir completo. Mas não é sobre mim, é?
Você precisava perceber a verdade, viver na negação não ia te fazer bem e você tava teimosa demais pra admitir qualquer coisa... eu não sabia mais como fazer você perceber. Mesmo agora que você percebeu a verdade, não vou pedir pra você voltar com ele, como eu posso? E pra falar a verdade, nem quero, principalmente depois de saber o tamanho da perda que você sofreu nas mãos dele.
Mas é claro que a decisão é sua, mas se você nem sabe onde você está, como espera tomar uma decisão, só pense bem antes de tomar qualquer decisão... e saiba que sempre estarei aqui por você, não importa o que você decidir."
Olhei pra ele completamente pasma, não sei se dou um tapa nele por ter me enganado ou se beijo ele por ser tudo que eu sempre pedi.
Decidi contra os dois.
"Preciso de um tempo pra clarear a mente..." Antes que eu pudesse continuar, ouvi um gemido de dor e virei a cabeça na direção do Agustin.
O Agustin abriu os olhos devagar, e eles foram direto pra mim, uma expressão indecifrável no rosto dele.
Senti o Jacob levantando da cadeira, "Vou ficar lá fora, me chama se precisar de alguma coisa." O Jacob disse e saiu do quarto, nos dando um espaço pra conversar.
"Ahh--" O Agustin tentou dizer alguma coisa sem sentido, na hora estendi um copo d'água pra ele.
Nossos olhos ficaram grudados por uns segundos, não sabia por onde começar, por onde começar. Consegui ver várias emoções passando pelos olhos do Agustin, me prendendo totalmente, não ousei desviar o olhar.
Foi ele quem quebrou o silêncio ensurdecedor, "Consegue me contar o que aconteceu naquele dia." A voz dele tava totalmente rouca. Ele manteve o rosto impassível, mas os olhos eram uma contradição completa.
Apertei as mãos pra conter minhas emoções, desviei o olhar antes de falar, não querendo desmoronar com a pura dor que veria nas órbitas dele.
"Você tava numa reunião em LA com o Jacob naquele dia, eu tava morrendo de fome fazia dois dias--e--e na noite anterior, você me bateu como um homem possuído..." Dei uma pausa pra me recompor.
"De repente senti uma dor insuportável na parte inferior do abdômen, no começo pensei que fosse porque eu tava com fome, mas a dor só aumentou, nunca tinha sentido nada parecido, achei que ia passar em um tempo mas aí comecei a sangrar--em-em--entre as minhas pernas, aí a ficha caiu, eu não tava menstruada fazia três meses, pensei que fosse por causa do estresse mas--" Respirei fundo e continuei, como se, se eu parasse aqui eu fosse desmoronar
"Liguei pro John pra me ajudar, pra sair de perto de você, não contei os detalhes pra ele. Era como se eu não quisesse aceitar isso. Ele fez tudo pra eu sair da sua mansão e me alugou um táxi, tive que ir pro hospital primeiro, o sangramento e a dor só intensificaram, foi horrível..." A respiração forte dele me forçou a olhar pra ele.
Meu coração pulou várias batidas, enquanto eu absorvia a expressão atormentada dele, tenho certeza que era igual a minha, quando fiquei sabendo do bebê.
"No hospital descobri que eu tava grávida e tive um aborto espontâneo, o bebê já tinha ido embora. Mesmo sabendo que isso ia acontecer, eu não conseguia acreditar. Não queria acreditar. Ouvir isso me destruiu completamente. Falhei em proteger meu filho(a). Eu nem sabia que tinha um filho crescendo dentro de mim, se soubesse, teria protegido a criança com tudo que eu tenho."
"Aí meus olhos foram pra aliança de casamento que eu tava usando e naquele momento eu senti uma raiva tão profunda por você que voltei pra sua mansão, arriscando tudo, arriscando ser pega só pra--"
"Devolver a aliança de casamento" ele completou minha frase.
A resposta dele foi seguida por um silêncio completo por vários segundos, respirei fundo decidindo algo, chegou a hora de fazer isso.
"Eu te perdoo," eu disse, falando sério. Não consigo mais ficar remoendo o passado, então sim, eu perdoo ele pelo bem da minha própria sanidade, se não pela dele. Cada momento que passo odiando ele só tira mais um pedaço da minha paz, e quero que tudo isso acabe. Não aguento mais, tô cansada de tentar ser forte.
Olhei pro Agustin esperando que ele ficasse aliviado, agora que eu finalmente tinha perdoado ele. Tinha um sorriso triste e doloroso nos lábios dele, como se cada mexida nos lábios estivesse custando algo pra ele, me dando uma sensação sinistra. Vi os olhos dele escurecerem com algo incompreensível, o que ele disse em seguida me chocou completamente.
"Você me perdoa?" Ele perguntou, a voz dele completamente sem emoção, mas os olhos dele me encarando intensamente, segurando meu olhar.
Dei uma pequena balançada com a cabeça, sem ter certeza pra onde isso ia.
"Quer que eu prove que te perdoei?" Perguntei, totalmente sem saber o que tava acontecendo, isso não era o que eu esperava.
"Sim." Ele disse monotonamente.
"Como?" Perguntei, completamente surpresa com a mudança inesperada nos acontecimentos.
"Entre com uma ação judicial contra mim, tô pronto pra confessar meus crimes, Todos. E. Cada. Um. Deles" ele disse, soletrando cada palavra com clareza.
Minha queixo caiu de descrença, pra qualquer mosca entrar.
"Prove, Onika" Ele disse de novo, com os olhos desafiando dessa vez.
Eu fiquei totalmente sem palavras.