Capítulo 17: Mendigo
Até a morte, esposa.
'Pensei que você finalmente tinha aprendido a lição. Aí chego em casa e descubro meus homens mortos. VOCÊ MATOU meus putos, me fez parecer fraco', Lucca berra.
Meu rosto tá todo crostoso e inchado por causa da surra que ele me deu.
Correntes amarradas na minha cintura, pés e mãos, me prendendo a uma cadeira de metal nesse armazém vazio.
Cuspo o sangue da minha boca, enquanto meu único olho bom vê o corpo da Kylie jogado no chão, indefeso.
'Deixa ela ir, Lucca, ela não tem nada a ver com isso', digo pra ele.
'Ela te ajudou, ela te escondeu de mim, caralho. E pra completar, descubro que você tá se engraçando com meu inimigo jurado, sua família que te virou as costas. A mesma família que agora tem minha filha.'
Ele agarra meu cabelo e eu encaro a cara de raiva dele. Queria que ele fosse feio, queria que ele cheirasse mal e que o hálito fosse podre, mas não é verdade.
Ele tá limpinho, as calças formais bege e os sapatos de couro não combinam com esse armazém, mas a personalidade dele combina.
A Kylie geme, e enquanto eu encaro meu monstro, sei que ela não merece o que vão fazer com ela.
A Kylie ia querer que eu lutasse, não desistisse.
Ela ia querer que eu enfrentasse ele.
Eu não sou inútil.
Aquelas palavras me endurecem, e o segundo gemido de dor dela, bem, aquilo me dá raiva a ponto de cuspir na cara dele.
'Ela não te fez nada, assim como eu. Nós somos as vítimas, você é o monstro.'
Ele ri, soltando minha cabeça, e é aquela risada que me traz as palavras pra ele,
'Se você mantiver ela aqui, a Família vai lutar, você vai declarar guerra, os Satan Snipers vão lutar e eu nunca vou parar de te caçar. Enquanto eu viver, você nunca mais vai ver minha filha, você nunca mais vai tocar nela. E com a minha morte, você vai selar isso em sangue.'
A cara dele se fecha, e aquele sorriso frio que antes me gelava o sangue agora foca só em mim.
Os dedos do Lucca que antes tocavam meu rosto e me deixavam aos pés dele implorando, agora roçam minha bochecha,
'Até a morte, esposa.'
Ele VAI EMBORA.
'Façam com a garota o que quiserem, mas deixem minha esposa em paz, tenho grandes planos pra ela.'
A porta bate e, com ela, o destino da Kylie.
'Não façam isso, por favor', imploro pros homens enquanto eles começam a arrastá-la pelo chão.
'Você, mais do que ninguém, devia saber que a gente não tem escolha', Marone, o braço direito do Lucca, diz pra mim quando entra no meu campo de visão.
Meus olhos se fecham, não só por causa da dor, mas pelo desespero de sequer perguntar.
Ele tá certo, eu sei muito bem.
Entrar para a Organização sob o Lucca é só por escravidão, morte ou proteção. Eu aprendi há muito tempo que meu marido não tem honra.
Marone, como a maioria deles, tem família. Famílias podem morrer.
'Mi dispiace, dolce ragazza.' Sinto muito, garota doce.
Marone toca meu queixo como se toca uma criança.
Pela primeira vez em anos, desde que perdi minha filha, uma lágrima escorre pela minha bochecha enquanto eu ouço a Kylie gritar.
'Lo uccidero per questo, poi ti uccidero tutti.' Eu vou matar ele por isso, depois eu vou matar todos vocês.
'Eu sei, Amariya', Marone sussurra enquanto nos deixa a sós com esses homens.
Eu ouço, mas não preciso ver pra saber o que eles estão fazendo com ela atrás de mim.
Sinto muito, Kylie.