Capítulo 9 ~ O Rei não é nada sem a Rainha
Sultan POV
Ela pegou na minha mão e meu coração, que já tava a mil, piorou. Não entendia porque não conseguia controlar a atração por ela. Meu objetivo era só marcar ela pra ninguém questionar nossa relação, mas aqueles dois beijos nas costas dela foram algo que saiu sem eu querer.
Me virei pra olhar pra ela e ela encarou minha cara.
"Você tá corado?" Ela perguntou com a sobrancelha franzida e com a cara de paisagem.
"Não," respondi.
Tava me esforçando pra não mostrar que era difícil pra caramba pra mim, já que nunca tinha pensado em nenhuma mulher, nunca tinha visto e tocado em nenhuma mulher além dela.
Eu costumava ser bem aberto com ela, mas não podia fazer nada com ela. Não podia desonrar meu amor.
"Sim, e por que faz isso agora?" Ela perguntou chegando mais perto.
"Como assim?" perguntei, sem entender o que ela queria dizer.
"Se você quisesse, podia ter feito isso de noite também... por que agora?... por que quando eu tô consciente?" Ela falou, franzindo a testa e continuou.
"Isso significa que você sabe que eu não lembro de nada da noite passada... O que rolou entre a gente?" Ela perguntou, me encarando.
Levantei o olhar e encontrei os olhos dela. Mesmo que eu fique mole na frente de mulher, isso não significa que ela pode me questionar assim.
"Rolou muita coisa entre a gente... Quanto eu conto?" falei, passando a mão na bochecha dela. Tinha percebido ontem que o rosto dela mudava, ficava tão fofo toda vez que eu tocava nas bochechas dela. Os olhos dela amoleciam e eu sentia que ela era afetada pelo meu toque.
Os olhos dela fixaram nos meus e eu simplesmente não consegui me segurar, cheguei mais perto. As franjas cacheadas dela estavam molhadas, ela tinha acabado de sair do Hammam. Me aproximei do ouvido dela, prendendo o cabelo dela atrás e murmurei.
"A marca nas suas costas tá demais e suas pernas... meu Deus!" Menti, só pra deixar ela um pouco insegura, pra ela não fazer mais perguntas, e foi exatamente como eu pensei. Ela ficou irritada e me empurrou com raiva.
"Sai daqui," ela disse, brava.
Sorri um pouco e falei:
"Agora não, Begum..."
Ela se virou e eu me senti um pouco aliviado.
"Escuta," falei, chamando a atenção dela.
Ela olhou pra mim e eu vi lágrimas nos olhos dela.
"Tem um colar pra você, combinando com essa roupa, naquela caixa de madeira... Use hoje," apontei pra uma caixa de madeira e ela desviou o olhar pra ela.
"Tá me dando ordens?" Ela perguntou furiosa.
"Não, begum... Seu sultão tá implorando," falei de um jeito dramático e ela revirou os olhos.
"Adoro gente que implora pra mim," ela falou, com sarcasmo, indo em direção à caixa de madeira.
"E eu adorei o jeito que você implorou ontem à noite," falei, olhando pra ela, sem pensar em ir embora agora.
Ela ficou calada e tentou não olhar pra mim.
Ela ficou parada segurando a caixa e começou a murmurar alguma coisa.
Eu tava observando ela de perto e ela finalmente gritou:
"Por favor, sai, preciso me arrumar!"
Sorri, com sarcasmo, e respondi:
"Implora um pouco com mais educação."
Ela colocou a caixa no sofá e respirou fundo, veio até mim e ficou na minha frente, me encarando.
"O Rei que você acha que é nesse Xadrez, lembra que a Rainha é a mais importante... Eu não preciso de você... Você precisa de mim... Então se comporte," ela falou e revirou os olhos. Senti uma coisa estranha por dentro quando ela terminou. Consegui ver o ódio que ela sentia por mim. Gostei disso, mas antes que ela pudesse sair da minha vista, ela parou e olhou pra mim de novo.
"E você é um cara bem barato se me tocou sem minha permissão."
Os olhos dela estavam cheios de raiva e a única coisa que consegui responder foi "A gente vê isso depois, se arruma primeiro, senão eu te levo do jeito que você tá."
Sinceramente, não gostei de nenhuma palavra que ela disse. As palavras dela estavam pingando raiva, negatividade, ódio e fúria por mim. E pensando um pouco, percebi por que diabos eu tava pensando tanto nisso?
Saí do vestiário e fui pro quarto. Tinha um sofá enorme e eu vi umas cartas importantes em cima da mesa. Movi o sofá e sentei confortavelmente nele. Li todas as cartas e tinha uma carta que precisava da minha atenção pessoal. Abri e li de novo.
***
Para Vishaka e Murat,
Com o ápice do serviço que vocês têm ao Sultanato Darmiyan, designamos a vocês uma tarefa muito importante para ser concluída nos próximos três meses. Vocês estão ordenados a visitar um dos melhores lugares da terra para aprender Harmonia, independência, Nobreza, Devoção. Vocês precisam aprender todas as qualidades e isso ajudará o Sultanato a alcançar novos patamares. Comecem a jornada de suas novas vidas nos próximos seis dias.
Sultanato Darmiyan
Sultão Rafiq Sulaiman
***
Li a carta e sorri. Abaixei a mão pra tocar na parte de baixo da mesa. Deslizei a porta escondida fixada na superfície inferior da mesa e tirei a caixinha de madeira artesanal. Peguei o Carimbo Real e primeiro carimbei essa carta específica. Depois, carimbei rapidamente outras cartas importantes. Guardei todas as cartas na gaveta escondida da mesa e, quando empurrei a gaveta de volta, ouvi o barulho da tornozeleira.
Percebi que ela estava parada na minha frente e meu olhar se fixou nela. Observei ela de cima a baixo, sem querer dessa vez, e minha mão moveu conscientemente a caixa do carimbo de madeira de volta ao lugar. Ela tava usando um colar e tava lindo nela. A cor azul-esverdeada pavão tava demais nela. O comprimento dela um pouco maior que a altura dela. Zeenat ordenou que o Alfaiate costurasse roupas, como as pessoas usam, mesmo antes de ela vir pra cá.
Quando meus olhos encontraram os dela, percebi que ela tava fixando o olhar na minha mão. Tossi um pouco e o rosto dela mudou um pouco, como se ela tivesse sido pega de surpresa.
"A gente vai?" perguntei, levantando e pegando meu sobretudo no sofá.
Coloquei os dois braços nele e ela balançou a cabeça, notando cada movimento meu.
Nós dois caminhamos juntos e, quando ela saiu do quarto, cobriu o rosto com o véu.
Notei o movimento dela e falei:
"Não precisa cobrir o rosto... Ninguém é superior a você aqui, Zeenat também não faz isso."
Ela colocou o véu na cabeça dela, direitinho, e olhou nos meus olhos por alguns segundos.
Passamos pelo nosso quarto e depois chegamos ao jardim enorme.
"Esse é o jardim comum pra todas as mulheres aqui," falei enquanto caminhávamos pela trilha do jardim. Notei um monte de risadas e gargalhadas, já que tinha muitas mulheres andando pelo jardim.
"Tem outro só pros casais reais," falei pra ela e ela só levantou o olhar pra mim. Consegui ver o nervosismo no rosto dela e vi o rubor no rosto dela quando mencionei 'Casais Reais'.
"A gente também tem muitos jardins no meu Império... e meu irmão tem um jardim de Rosas separado. Tem todas as variedades de rosas," ela falou enquanto andávamos e, ouvindo a palavra rosas, alguma coisa se mexeu no meu estômago.
"Legal," falei.
Depois de atravessar o jardim, chegamos a uma série de quartos de todas as nossas personalidades principais. A área era enorme e tinha jardins e galerias pra gente passar.
"Que quartos são esses?" ela perguntou, olhando pra eles.
"São os quartos de todas as nossas pessoas importantes, chefe do exército, braço direito, braço esquerdo, chefe de cozinha real, médico e muitas outras pessoas," falei, sem olhar pra ela.
"Ah," ela falou.
Então caminhamos em silêncio e devo dizer que ela tinha a curiosidade de saber tudo. O olhar dela tava ocupado registrando todos os corredores, galerias e quartos. E eu sabia bem qual era o propósito por trás disso tudo.
Então chegamos ao 'Lago da Morte' do nosso sultanato.
Tinha um lago enorme que separava os dois impérios. Era enorme e a coisa pela qual ele era famoso eram os crocodilos. Olhei pros três crocodilos perigosos nadando na superfície da água. O lago todo tava coberto com uma cerca de tela de ferro e eu olhei pra pessoa do meu lado. O rosto dela ficou pálido e ela tava olhando pra mim.
Sorri um pouco e falei:
"Se você ousar me irritar de novo, vou mandar alguém te jogar lá dentro," falei e o rosto dela ficou pior.
Sorri um pouco e caminhei em direção à ponte pra atravessar o lago enorme. A ponte era tão antiga que eu não sabia. Era feita de madeira forte e tinha uma grade de tela de ferro e cordas também. A única coisa que dava medo era o barulho que ela fazia toda vez que alguém passava por ela.
Fiz sinal pra ela vir comigo e nós dois pisamos na ponte. Ela fez um barulho estridente e eu senti ela pegando na minha mão com medo. A ponte sempre parece que vai quebrar a qualquer momento, mas nunca aconteceu.
Nós dois caminhamos e eu consegui sentir o suor na palma da mão dela e o medo que ela sentia enquanto caminhávamos por ela. Sorri quando senti o medo dela.
"Quem mora aqui?" ela perguntou instantaneamente e a voz dela tava rouca.
Descemos da ponte e respondi:
"Minha mãe," respondi.
"Sua madrasta?" Ela perguntou.
"Como você sabe disso?" perguntei, instantaneamente.
"Nagma fala muito," ela respondeu e entendi na hora.
Caminhamos por mais algumas galerias, jardins e chegamos ao quarto mais bonito dessa parte do Império.
"Responda com sabedoria o que ela perguntar," falei pra ela e ela não respondeu nada.
Entramos no quarto dela e a encontramos sentada no sofá enorme, que tava preso no teto e balançava. Ela tava sentada nele e conversando com algumas mulheres com o sotaque dela malvado. Ela só ouviu o barulho da tornozeleira da minha Begum quando virou o olhar pra gente e falou:
"Meu Deus... olha, o Sultão veio com sua nova Begum."
Sorri fraco e desejei pra ela.
"Assalamualaikum Ammi-jaan"
"Walaikum-a-salam Rafiq"
Peguei na mão dela e beijei. Consegui ver o sorriso falso que ela carregava. Então, o olhar dela se voltou pra pessoa parada do meu lado. Ela se abaixou pra tocar nos pés dela e ela instantaneamente deu alguns passos pra trás.
"Que merda de educação é essa?" ela gritou.
"Eles se cumprimentam assim," falei.
"Eu pensei que ela ia aprender nossos costumes," ela falou, observando ela de cima a baixo.
"Não precisa disso," eu protestei.
"Então, você aceitou ela como sua esposa?" Ela perguntou, olhando pra mim. Os olhos dela estavam cheios de kohl escuro e eu consegui ver a língua preta dela quando ela falou.
Ela era conhecida como a pessoa que faz magia negra e ela tava por trás da maioria das tragédias do nosso Império.
"Sim," falei e percebi os olhos dela ficando maiores quando o olhar dela se fixou no pescoço dela.
"Eu não esperava que você desse a alguém o privilégio de ser sua esposa, depois dela," ela falou, quase tocando no pescoço dela.
Ela ficou com medo e consegui sentir isso só de olhar pra cara dela.
"Não toque nela," falei baixinho e consegui ver a raiva nos olhos dela. Bom, esse era o motivo de fazer as marcas de amor no pescoço dela. Ela era a que tava esperando minha morte e ali eu falei pra ela que minha jornada tinha acabado de começar.
Os olhos dela ficaram vermelhos de sangue e ela murmurou na língua dela, eu não sabia como ela fazia isso e por que ela fazia isso.
De repente, ela falou.
"Luz por apenas alguns dias e depois a escuridão... A história vai se repetir."