Capítulo 12 ~ As Cartas
POV da Gulaab
Acordei meio dormindo quando senti um movimento na cama. Vi ele virando a cabeça para o outro lado. Me senti sozinha de novo. Vim pra cá pra me sentir um pouco familiar, mas a atenção dele tava nas sobrinhas.
Forcei os cílios pra fechar de novo e tentei dormir. Não sabia por que tava me sentindo apavorada nesse lugar. Estava sentindo como se alguém fosse vir e tentar me matar, como se alguém me enforcasse até a morte.
Instantaneamente virei o rosto pro outro lado. Tinha cortinas e me senti um pouco calma agora. Nunca senti isso no meu império. Não sabia por que tava acontecendo.
Eles estavam dormindo em paz e eu me peguei acordada. Olhei pra cima, depois pro meu lado e isso tirou muito do meu sono.
De repente, lembrei que o Sultão tava trabalhando em umas cartas. Não sabia por quê, mas meu instinto tava me dizendo que tinha algo importante pra mim.
Sem pensar duas vezes, desci devagar do chão da cama. Virei pra ver se ele notava. Mas, felizmente, ele tava dormindo pesado. Fui em direção à mesma mesa em que ele tava trabalhando de manhã.
Tinha um pouco de claridade na câmara e fui devagar, sem fazer barulho, até aquela mesa. Sentei no sofá perto da mesa e, de olho na cama, comecei a procurar aquelas cartas. Lembro de ter escondido aquelas cartas em algum lugar embaixo da mesa. Peguei uma lamparina numa mesinha perto e procurei por baixo.
Não achei nada. Não sabia como ele tinha escondido, onde ele tinha escondido.
De repente, minha mão tocou em algo como um gancho ou um botão embaixo da mesa. Me abaixei e minha respiração parou por um momento. Tinha uma espécie de porta embaixo da mesa e não perdi tempo em abri-la. Enfiei a mão e senti um tecido macio e papéis. Eram cartas.
Tirei o máximo que pude de uma vez. Coloquei na mesa e comecei a abri-las rapidamente. Minha atenção tava fixa na cama, precisamente no movimento da cama.
Abri as cartas rapidamente e a primeira era amarela. Tava escrita toda na língua deles e não consegui ler nada. Deixei de lado e fui pra as outras. Também pareciam iguais e inúteis. Tava procurando uma carta, se tivesse alguma. Faltavam só três e peguei logo a outra.
Abri e minha respiração parou. Era pra mesma pessoa cujo nome ouvi da boca dele quando tava no hammam. Sabia que ele tava planejando algo contra meu império porque ouvi ele falando o nome do meu continente várias vezes.
A carta era pra Vishaka e tentei ler.
***
Pra Vishaka e Murat,
Com o auge do serviço que vocês têm pro sultanato Darmiyan, designamos a vocês uma tarefa muito importante pra ser concluída nos próximos três meses. Vocês estão ordenados a visitar um dos melhores lugares da Terra pra aprender Harmonia, independência, Nobreza, Devoção. Precisam aprender todas essas qualidades, que vão ajudar o Sultanato a alcançar novos patamares. Comecem a jornada da nova vida nos próximos seis dias.
Sultanato Darmiyan
Sultão Rafiq Sulaiman
***
Li a carta de novo, de novo e de novo, pra entender o significado. Definitivamente não era o que tava escrito. Ele tinha dado uma tarefa pra ela terminar em três meses. Ele mencionou um lugar na carta, mas não consegui achar o nome. A jornada dela começaria nos próximos seis dias.
Não achei nada novo e confiável, mas tava certa de que ele tava planejando alguma coisa. Ele não parecia o tipo de pessoa que ia parar assim.
De repente, meus olhos pararam nas quatro palavras. Harmonia, Independência, Nobreza e Devoção. Era Hind. Era meu continente.
Meu Deus!!!
Me mexi no lugar, porque não consegui acreditar. Isso quer dizer que aquela garota ia pro Hind em seis dias e tinha uma missão pra terminar em três meses.
Li a carta de novo e, de repente, senti um movimento na cama.
Apavorada, morrendo de medo. Coloquei todas as cartas de volta no lugar e levantei.
"Begum"
Fui pro espaço, fiquei parada.
Vi ele abrindo as cortinas e vindo na minha direção.
"O que tá fazendo?" Perguntou, franzindo a testa.
Não consegui evitar virar um pouco pra trás e, quando tive um pouco de confiança de que não tinha mais cartas, falei.
"Hum... Hum... A água, tava com sede." Falei, tocando no meu pescoço de um jeito estranho, e fui pra jarra de água.
Enchi o copo e bebi.
Sinceramente, tava chocada, apavorada, com medo e não sabia como e o quanto aquela Vishaka era perigosa pro Hind. Mas, se o Sultão tava planejando mandar ela sozinha pro Hind, ela devia ter alguma capacidade e poder. Queria saber. Queria ver ela. E, o mais importante, precisava impedir.
"Begum, o que tá pensando? Tudo bem?" Perguntou ele e não soube o que dizer.
Não tinha mais forças pra dormir do lado dele de novo. Não sabia como reagir. Desde a manhã tava me sentindo bem animada, mas agora aprendi a realidade de novo. Ele era meu inimigo, queria matar meu Irmão, queria ser o Rei do Hind e, além disso, nunca ia me apaixonar por ele em nenhuma situação.
"Nada." Sorri falso.
Voltei pra cama e me deitei do lado dos anjinhos. Fechei os olhos na hora, embora o sono não estivesse em lugar nenhum.
Minha noite toda passou assim. Tava me mexendo na cama nervosa. Os pensamentos do meu irmão sendo morto me apavoravam.
Finalmente, o Sol nasceu e o Sultão acordou. Foi pro Hammamm e eu também sentei. Queria encontrar a Nagma. Ela era a única que sabia de tudo nesse Império e que podia me dar informações.
Depois de um tempo, vi o Sultão voltando do Hammam e fazendo suas orações. Fui pro banheiro correndo e tomei banho. Saí de lá e, de repente, meus olhos pararam na irmã dele na nossa câmara.
"Bhabhijaan... Me desculpa. Elas vieram pra cá ontem à noite. Espero mesmo que não tenham incomodado vocês."
Falou ela gentilmente e respondi, com um sorriso no rosto.
"Não, Jiji... Elas são muito fofas. Adorei passar um tempo com elas."
Falei.
"Que bom... Muito bom. Kainat, Hayat, vamos pra nossa câmara." Falou pra os dois anjinhos que ainda estavam pulando nos braços do Maamujaan.
"Bhaijaan... Pode deixar elas irem? Elas precisam tomar banho e fazer as orações."
Ele riu, olhando pra elas, e de repente falou.
"Ok, agora vocês duas, vão com a Ammijaan. Encontro vocês à noite. Tenho um trabalho." Falou baixinho pra elas e beijou as duas.
Elas deram um beijo de volta e vieram correndo pra mim.
"Maamijaan... Obrigada por nos alimentar ontem à noite." Falaram as duas no mesmo tom e sorri na hora.
"De nada." Beijei as duas nas bochechas e elas literalmente deram risadinhas encantadoras quando alguém faz isso. E, depois, elas deram de volta.
"Ok... Bhabhijaan. Obrigada por cuidar das minhas filhas." A irmã dele falou.
"Jiji, elas são como nossas filhas também." Falei.
Meu olhar, sem querer, desviou pro Sultão, que tava sorrindo demoníaco, ouvindo o que eu falava.
Desviei o olhar de volta pra irmã dele.
Elas se despediram e saíram da câmara. Sinceramente, senti um pouco de alívio, porque precisava fazer um trabalho de verdade hoje. Me vi e o Sultão sozinhos agora.
Olhei pra ele, que tava com uma cesta de frutas na mão e os olhos dele estavam fixos de novo, acabando com a cesta sem piedade. Bem, a única coisa que aprendi sobre ele até agora foi que ele come como um Touro. Tipo, a atenção dele tava sempre em terminar toda a cesta.
"Begum"
Chamou, me fazendo tremer de repente.
"Sim"
Falei.
"Gosta de crianças?" Perguntou, mordendo a maçã, e eu abaixei o olhar quando meus olhos pararam nos lábios dele.
"Sim, acabei de descobrir isso conhecendo Kainat e Hayat." Falei.
"Então, quer ter seus próprios filhos?" Perguntou, sem nem olhar pra mim.
Franzi a testa, porque ele tinha acabado de perguntar. De onde surgiu essa pergunta?
"Sim... Não, nunca posso ter filhos com você. Eca." Falei.
Ele riu, ouvindo, e de repente perguntou.
"Por quê? O que tem de errado comigo?" Perguntou.
"Você vai ser pai em breve. Por que diabos quer mais filhos?" Perguntei.
"Hahaha" Ele riu e parou de comer. Levantou da cama e veio na minha direção.
"Mas, não perguntei isso. Perguntei por que não quer ter filhos comigo?" Perguntou.
Sinceramente, não consegui achar a melhor resposta pra isso, mas meu ponto de negação tava só em volta da esposa dele, que já tava grávida. Não sabia por que tava um pouco insegura agora, percebendo que ele ia ser pai em breve e que ele ama a primeira esposa mais do que tudo.
"Bem, você é meu inimigo." Formulei minha resposta.
"Agora, isso faz sentido." Falou, ficando mais perto de mim.
Me afastei um pouco e respondi.
"Pode manter um pouco de distância de mim?" Perguntei.
Ele andou pra trás um pouco também e falou.
"Ah, por que não?"
Então, ele saiu da câmara e foi embora.
Na hora, chamei.
"Nagma..."
Esperei uns segundos e vi ela vindo correndo na minha direção.
"Choti Begum"
Falou, bufando.
"Nagma, você tem um trabalho pra fazer." Falei pra ela.
"Sim, Begum Sahiba. Diga." Falou.
"Vem, senta aqui." Pedi pra ela sentar na cama.
Ela sentou nervosa e eu falei pra ela.
"Na verdade, Nagma, você sabe, seu Sultão ontem à noite tava elogiando uma garota na minha frente um monte. Mas, não era a Zeenat Begum."
"O que quer dizer?" Perguntou.
"O que quero dizer é, pareço feia?" Perguntei, fazendo uma cara educada e inocente.
"Não, Begum Sahiba. A senhora é tão linda e bonita." Falou.
"E, ele tava elogiando a beleza de uma garota chamada Vishakha. Sabe quem é ela? Quero dizer, também quero ver como ela é." Falei.
"Hahahaha" Ela riu alto.
"Vishakha... Hahahaha" Ela riu de novo.
"Begum Sahiba, ela é uma garota venenosa." Falou, chegando perto do meu ouvido.
"O quê?" Perguntei, franzindo a testa, porque não consegui acreditar.
"Me promete que não vai contar pra ninguém." Pediu e eu concordei, ganhando a confiança dela.
"Não, nunca." Falei.
"Sim, ela é venenosa. Ela bebe venenos de diferentes tipos. Tem um amigo dela, o Murat, que trouxe diferentes tipos de venenos de lugares diferentes." Falou, mostrando os olhos grandes.
"Begum Sahiba... O Sultão também sabe disso e não acho que ele seja tão burro a ponto de se apaixonar por ela." Falou.
Tudo fez sentido na hora pra mim. Ele tava planejando mandar aquela garota pro Hind pra matar meu irmão. E precisava correr, porque só faltavam uns dias pra ela ir.
Senti arrepios, não sabia o que fazer. Me senti impotente.
Mas, tudo o que consegui murmurar foi "Ok"
Ela sorriu, olhando pra mim, e depois mudei um pouco de assunto, porque algo surgiu na minha mente.
De repente, um pensamento veio na minha mente e ordenei a Nagma.
"Nagma... Quero escrever uma carta pra uma das minhas amigas. Pode trazer uma pra mim?" Perguntei.
"Mas, Begum Sahiba, sabe que o Sultão não vai deixar a senhora enviar cartas pra fora do Império." Falou.
"Tudo bem, mas quero tentar pelo menos." Falei pra ela.