Capítulo21 ~ Sultão ainda é virgem?
Ponto de vista da Gulaab
Ela tava chorando pra caramba.
"Haider!"
Minhas sobrancelhas afinaram tudo quando eu vi ela chorando daquele jeito. Eu não tava entendendo nada e aí eu percebi o Sultan olhando pra mim. Ele me chamou, tipo, com um sinal com os olhos. Eu cheguei mais perto dele e ele me entregou o bebê dela.
Essa devia ser a primeira vez que eu tava segurando um recém-nascido no colo. Ele era tão pequeno, frágil, com a pele fininha e rosa. Ele tava fazendo uma cara estranha, quase chorando, talvez por ouvir a mãe dele chorando.
Eu não tava conseguindo processar o que tava acontecendo na minha frente, mas nada parecia normal. O Sultan abraçou ela e ela desabou. Eu abaixei o olhar na hora, porque eu tava vendo meu marido abraçando outra mulher. Apesar de a gente não ter nada de marido e mulher, sabe? Mas eu tava me sentindo meio mal de ver ele abraçando ela.
Ela começou a chorar mais ainda e aí falou uma coisa que me deixou em choque.
"Rafiq, se o Haider estivesse aqui hoje, ele ia estar tão feliz de ver o filho dele."
Quem diabos é Haider e como assim ela tá chamando a criança de filho dele?
Meus olhos quase saíram da órbita quando eu ouvi aquilo e eu olhei pro Sultan, que tava abraçando ela e fazendo carinho no ombro dela.
"Você precisa se acalmar, Zeenat. Ele tá aqui, com você, com você. Ele ia ficar muito mal de te ver assim. Você precisa ser forte. Você virou mãe agora." Ele falou baixinho.
Ela enxugou as lágrimas e olhou pra mim.
Eu fui pra frente pra entregar a criança pra ela, porque ela tava se recompondo. Ela olhou pro bebê de novo e tentou parar de chorar. Ela abraçou o bebê e o Sultan fez carinho na cabeça dela.
Eu não sei, mas eu tava sentindo que o Haider não era tipo irmão dela, ou algo assim. Mas ele era alguém a quem a criança pertencia. Isso quer dizer que o bebê não era do Sultan.
Eu não sei, mas tudo parecia muito confuso pra entender. Eu não sabia o que dizer.
De repente, eu ouvi alguém chegando.
Eu dei uns passos pra trás e ajeitei meu véu, porque eu vi a velha de preto quase chegando correndo.
"Meu neto!" Ela gritou entrando na sala e eu gelei. Ela tava com aquele vestido preto dela de sempre e eu comecei a sentir medo de novo.
Eu olhei pro Sultan, que só ficou de pé olhando pra ela e veio do meu lado. A velha sentou do lado da Zeenat Begum e pegou o bebê no colo. O rosto dela se iluminou quando ela viu o bebê e ela falou.
"É um menino mesmo." Ela quase riu e continuou.
"Ele é a cara do Haider."
Quem diabos é esse Haider de novo?
Ela se levantou, pegando o bebê na mão, e começou a murmurar alguma coisa.
Eu não sei por que, mas eu tava sentindo medo, porque eu vi a língua preta dela de novo. Eu cheguei mais perto do Sultan e, morrendo de medo, será que ela trouxe alguma coisa, tipo, uma linha preta magicamente?
Eu peguei a mão do Sultan na hora, com medo, e ele olhou pra mim. Meu rosto ficou pálido, provavelmente, mas como ela podia fazer qualquer coisa aparecer assim? Agora, eu tava tendo certeza de que ela sabia de magia negra e que ela era alguma coisa.
O Sultan entendeu meu medo e eu senti ele colocando a mão na minha cintura, nas minhas costas. Eu respirei fundo, me acalmando, porque ele me abraçou em silêncio. Eu cheguei mais perto dele sem que ninguém percebesse.
Eu olhei pra ela e ela beijou o bebê. De repente, ela levantou o olhar e, com aqueles olhos perigosos, olhou pra mim. Minha mão apertou a mão do Sultan, porque ela tava me olhando fixamente. O Sultan segurou minha mão de volta e olhou pra mim com delicadeza.
Calma, Gulaab, calma... Ele vai te proteger.
Eu tentei acalmar as batidas do meu coração, porque ela se levantou da cama e entregou o bebê de volta pra Zeenat Begum.
Ela olhou pra mim de novo e andou uns passos na minha direção.
"O amor tá nascendo em algum lugar... Eu consigo sentir." Ela falou com uma voz extremamente assustadora e eu quase tremi.
Não, de jeito nenhum, eu não amo ninguém. Eu não amo seu enteado, de jeito nenhum.
Eu dei um passo pra trás quando ela chegou mais perto. Eu abaixei o olhar e aí o Sultan falou alguma coisa.
"Begum Sahiba... Cumprimente a Badi Ammijan."
Eu levantei o olhar de novo e me controlei pra tocar os pés dela. Só eu sei o medo que eu tava naquele momento.
"Espero que você não tenha esquecido sua promessa." Ela falou olhando pro Sultan e ele respondeu.
"Não, eu lembro da minha promessa. Eu vou fazer o que você quer a partir da semana que vem." Ele falou olhando nos olhos dela.
"Qual a necessidade disso, Ammijaan?" Eu olhei pra Zeenat Begum, porque ela tentou falar.
"Khamoshhhh!!!"
"Cala a boca!!!" A velha gritou com toda a força dos pulmões, virando pra Zeenat de repente e eu morri de medo.
"É melhor ficar quieta. A gente não esqueceu o que você fez com meu filho." Ela continuou e eu olhei pra Zeenat Begum, que ficou em silêncio de repente.
Ela se virou pro Sultan com aqueles olhos assustadores e falou.
"Estou esperando a semana que vem."
O Sultan concordou com a cabeça e ela olhou pra linha preta que ela fez, que apareceu com a mágica dela. Ela foi até o bebê nos braços da Zeenat Begum e amarrou a linha preta na mão direita dele.
Eu olhei pra Zeenat Begum, que também parecia com medo, e aí ela deu uma ordem pra alguém.
"Shehnaz, cuide bem do meu neto e da minha nora."
"Sim, Badi Begum Jaan." Ela falou e desejou pra ela.
A velha olhou pra mim de novo e foi embora. Eu tava mais que chocada. Que diabos acabou de acontecer? Eu olhei pro Sultan, que sentou do lado da Zeenat Begum e começou a dizer umas palavras de apoio.
Eu não tava conseguindo ouvir o que eles estavam falando. Meu foco todo tava em poucas coisas.
De quem é essa criança?
Quem era o Haider?
Qual era a relação entre a Zeenat Begum e o meu Sultan?
Eu não sei por que, mas eu tava sentindo uma leve mudança em mim sobre o Sultan, sentindo que ele não era o pai do bebê. Eu tava sentindo uma leve felicidade, talvez, por perceber que ele ainda não era pai. Mas, ainda assim, tudo tava muito confuso e eu só balancei a cabeça pra voltar pra realidade.
Eu cheguei mais perto da Zeenat Begum e falei.
"Parabéns por virar mãe, Zeenat Begum."
Ela olhou pra mim e sorriu fracamente.
"Obrigada, Choti Begum, mas você também virou mãe. O bebê vai te chamar de Choti Ammi também." Ela falou sorrindo.
Eu não sei por que a palavra 'Ammi' criou um monte de borboletas no meu estômago e eu sorri.
"Eu acho que você devia descansar, Zeenat. Eu vou te visitar em breve." Ele falou.
A Zeenat Begum concordou com a cabeça e ele se levantou da cama.
"Cuide bem da Zeenat Begum. Fiquem de olhos e ouvidos sempre." Ele deu uma ordem pros acompanhantes e aí olhou pra mim.
Ele foi embora e eu resolvi ficar lá.
Eu olhei pro médico, que apareceu e começou a ajudar a Zeenat Begum a amamentar o bebê dela.
Eu fiquei em silêncio olhando o bebê mamando leite pela primeira vez. Eu olhei pra Zeenat Begum, porque as lágrimas dela caíram dos olhos, em silêncio, olhando pro bebê dela. Eu consegui sentir ela. Eu não sei por que, mas parece a melhor sensação do mundo pra mim.
Eu sentei do lado dela em silêncio olhando e aí fiz uma pergunta.
"Como você está se sentindo?" Eu perguntei.
"Completa." Ela falou enxugando as lágrimas e olhou pra mim.
"Eu me sinto completa, Gulaab. Sabe, eu tava esperando esse dia há tanto tempo. Eu perdi todas as esperanças de viver a vida quando o Haider morreu."
"Haider?" Eu perguntei, tentando não machucar ela.
"Sim, meu marido, minha vida, meu amor. Ele morreu numa guerra. Foi uma guerra muito mortal contra o império enorme da vizinhança. A gente ganhou a guerra, mas ele foi o custo disso. O Rafiq tava liderando a guerra e, pra salvá-lo, ele pegou a flecha no coração. Ele sempre amou tanto o Sultan. Ele sempre quis que ele crescesse cada vez mais. Ele era o braço direito dele. Ele era só dois dias mais novo que ele, mas sempre considerou ele o mais novo. Ele era irmão do Rafiq, filho da Jannat Begum Jaan." ela falou fazendo carinho na cabeça do filho.
"Irmão?" Eu perguntei, sem conseguir digerir o que ela falou.
"Sim, eu era a esposa dele, mas agora do Rafiq." Ela falou levantando o olhar pra mim.
Eu não sei por que, mas dói sempre que eu penso que ela é a primeira esposa do meu marido.
"Então, o Sultan é o pai dele-"
"Não." Ela me interrompeu antes que eu pudesse perguntar.
"O Rafiq se casou comigo só pra me proteger dos inimigos. A Ammijaan acha que eu sou a má sorte do Haider. Ele se casou comigo só pra me proteger. Não tem nada disso entre a gente." Ela falou.
"Então, vocês dois não são tipo marido e mulher?" Eu perguntei, eu não sei como e de onde vieram aquelas perguntas idiotas na minha cabeça.
"Não, eu sou só amiga dele e esposa no nome. Ele ainda pensa em mim como cunhada e amiga de infância." Ela falou.
"Sabe, você tem sorte de ele ter se casado com você. Ele é uma pessoa muito leal e eu nem acho que ele alguma vez ousou olhar pra alguma mulher desse jeito." Ela falou.
Mas, eu não conseguia digerir. Como ele podia ser uma pessoa leal e a Zeenat Begum não era a pessoa pra quem ele era leal?
"Então, ele não te ama?" Eu perguntei.
"Ele me ama, mas tem outra pessoa a quem você deve estar se referindo." Ela falou.
"Quem?" Eu perguntei.
"Minha irmã gêmea." Ela falou e o chão sumiu debaixo dos meus pés.
Que diabos tá acontecendo?
"Onde ela tá? Então?" Eu perguntei, tentando me controlar e digerindo essa informação nova.
"Ela não está mais aqui." Ela falou olhando pra mim e meu coração começou a doer ainda mais.
"Então, ele é apaixonado pela sua irmã?" Eu perguntei.
"Sim. Eles se amavam desde criança. Todo mundo sabia que eles eram dois corações, mas batendo juntos. Tudo aconteceu há quase seis anos. O Rafiq decidiu se casar com ela, mas ele teve que ir pra guerra. Alguém conspirou contra eles e ela recebeu uma mensagem com uma caixa de veneno dizendo que o Rafiq perdeu na guerra e ele foi morto."
Meus olhos saíram da órbita e eu senti uma dor forte ouvindo tudo aquilo. Como alguém pode fazer isso?
"O que aconteceu depois?" Eu perguntei devagar.
"Ela comeu aquele veneno. O Rafiq ficou impossível depois daquilo. Ele perdeu o controle de si mesmo. No momento em que ele ficou sabendo dela. Foi como se ele quisesse matar todo mundo. Aquela guerra virou um campo de batalha sangrento. Ele matou quase todo mundo. Aquela guerra é considerada a guerra mais mortal vencida por um único Rei."
Eu não sabia que o Sultan era tão perigoso assim. Sem dúvida, por isso eu tive que casar em vez de deixar ele lutar com o Bhai Saheb.
"Mas agora" Ela continuou.
"Mas agora, ele se tornou tão calmo, como se ela tivesse levado a paz, o amor e a felicidade dele junto com ela. Não tem um dia que ele não sinta falta dela."
"É, eu sei disso." Eu confirmei olhando pra baixo.
"Mas agora, todos nós temos uma esperança." Ela falou sorrindo.
"Esperança?" Eu perguntei.
"Sim, você é nossa esperança. Sabe, ele não tava pronto pra se casar com ninguém, mas pra vencer o Hind. Ele pensou em te pedir em casamento. Ele tava pensando que seu pai ia negar e ele ia ter a verdadeira razão pra guerra e ele ia vencer fácil. Mas, você é a mais corajosa que existe, eu acho. Quer dizer, eu não consigo acreditar como uma mulher pode concordar em se casar com uma pessoa que ela nem conhece." Ela falou.
"Porque eu não podia deixar ele matar meu irmão." Eu falei.
"Eu sei, mas confia em mim, tudo o que aconteceu foi para o bem. E sabe, o Sultan deve estar se sentindo sozinho e ele pode precisar de você com ele." Ela sorriu e eu senti uma leve cor nos meus rostos.