Capítulo 2 ~ Noite de núpcias
Ponto de vista da Gulaab
Eu tava parada, tipo, congelada, quando ele entrou na Tenda. Ele amarrou as cortinas depois que o pessoal foi embora. Meus olhos não desgrudavam de cada movimento dele. Ele foi em direção à cama, tirou o casaco vinho e jogou no sofá. Depois se jogou na cama.
A mão dele tava encostada na cabeça, enquanto ele perguntou em voz alta, me fazendo tremer de medo.
"E aí... Qual é o seu nome, hã?" Ele falou com uma voz malvada.
Ele sabia meu nome, e tudo o que ele tava fazendo era me deixar desconfortável.
Eu me mantive calma e não respondi nada.
"Parece que... a filha do Rei é surda", ele disse, e eu não aguentei.
"Gulaab... Meu nome é Gulaab", eu disse, com uma voz brava.
Ele me olhou com os olhos arregalados e depois baixou o olhar.
"Credo... que nome nojento", ele disse baixinho, mas ainda dava pra ouvir.
Eu tava tentando esconder meu medo o máximo que conseguia. Não tinha ninguém em quem eu pudesse confiar. Eu não sabia o que ia acontecer comigo. E se ele tentasse alguma coisa? E se ele não fosse uma boa pessoa? Eu sabia que ele não era bom, porque ele tinha a ideia de matar meu irmão e virar rei do nosso continente, e eu tinha que manter ele longe do meu continente.
Eu nunca tinha feito nada de bom na minha vida e, de repente, eu tinha uma chance de lutar pelo bem-estar do meu irmão. Não era que eu não confiasse nas habilidades de luta e no poder do meu irmão, mas tinha algo que me dava medo. Eu tinha medo de uma profecia que foi feita pelo nosso sacerdote principal.
"Então", eu estremeci ao ouvir a voz dele.
Ele se levantou da cama e começou a andar na minha direção.
"Então, minha nova begum... Por que você disse 'sim' pra esse casamento?" Ele perguntou, parado na minha frente. Ele tava perto de mim, e eu abaixei o olhar. Eu tava horrorizada. Não ia demorar pra ele me furar a garganta. Eu não era nada pra ele.
Quando ele chegou mais perto, eu não aguentei e dei um passo pra trás. Eu não sabia o que responder.
"Eu tô perguntando alguma coisa... Begum." Sempre que ele falava a palavra 'begum', minha respiração parava.
Ele chegou mais perto e pigarreou.
"Deixa pra lá... Essa pergunta é errada. Me diz, você gosta de mim ou é louca de amor por ele?" Ele perguntou, parado na minha frente, e eu não aguentei e olhei direto nos olhos dele.
"Eu não gosto de você", eu disse, porque não consegui me segurar.
As palavras dele me encheram de raiva.
"Então, tanta vontade assim de casar. Deve ser por causa de uma necessidade física", ele disse, e isso só aumentou minha raiva.
"Cuidado com a sua língua", eu gritei de volta.
"E se eu não quiser?" Ele perguntou, chegando mais perto, mas dessa vez eu não recuei.
Ele se inclinou, e eu me afastei um pouco. Por dentro, eu tava morrendo de medo. Eu não sabia o que ia acontecer.
"Eu posso te dar pros corvos depois de te cortar em pedaços, e ninguém vai ficar sabendo", a respiração dele bateu na minha bochecha, e eu fiquei muito desconfortável. Sem querer, eu afastei ele, e eu não devia ter feito isso.
Eu vi o ego dele ser ferido, e em pouco tempo ele segurou minhas duas mãos e me jogou na cama.
Eu gritei.
"Me larga!"
Ele prendeu minhas duas mãos sobre a minha cabeça, e eu morri de medo. Ele tava deitado em cima de mim, e eu me senti meio exposta. Ele se inclinou e disse uma coisa que me assustou demais.
"Você salvou seu império só dessa vez, mas não vai tirar meu sonho de mim. Eu vou te matar um dia e me tornar o maior rei de todos os tempos."
Eu fechei os olhos, eu não sabia como ia viver com ele.
Ele segurou minhas duas mãos com as mãos dele, e depois eu senti a outra mão dele na minha corrente. Eu fiquei aterrorizada.
"Nãaao"
"Me deixa... Por favor!"
Eu implorei, e lágrimas se acumularam no canto dos meus olhos. Eu tentei protestar, mas ele tava muito pesado pra eu me mexer.
"Por favor..." Eu implorei de novo. "Me larga!"
Ele abriu minha corrente, virando minha cabeça um pouco, e tirou ela.
Lágrimas saíram dos meus olhos, e eu estremeci.
Os dedos dele tocaram meu pescoço.
"Me deixa, por favor!" Eu pedi.
"Que marca é essa?" Ele perguntou, olhando pro meu pescoço.
Eu olhei pra ele com uma expressão de terror.
"Alguém te atacou?" Ele perguntou com um olhar surpreso.
A pegada dele afrouxou na minha mão, e eu afastei ele, me levantei da cama.
Eu tava me sentindo meio tonta, e no momento em que tentei ficar de pé, caí no chão.
"Não se preocupa! Eu não curto essas paradas", ele disse, deitado confortavelmente na cama.
Eu chorei um pouco, me sentindo horrorizada, e tentei me recompor. Toque de homem era algo que me aterrorizava muito.
"Sua família te torturava?" Ele perguntou, de boas.
Eu não respondi nada e tentei me levantar.
Eu olhei pra todo lado, tentando entender o que eu deveria fazer.
"Você ouviu nossa conversa. Certo?" Ele perguntou.
Eu olhei pra ele, sentado na beira da cama. Ele pegou um pedaço de carne na mão e mordeu.
Eu abaixei o olhar na hora, porque algo no meu estômago embrulhou. Eu não conseguia acreditar que ele tava tão perto de mim. Ele era um homem, e de uma religião diferente. Eu nunca tinha pensado nisso nem no pior dos meus pesadelos.
"Sabe, eu não gosto de silêncio"
Eu sentei na beira da cama, do lado oposto a ele, porque eu tava cansada. Meu estômago tava fazendo uns barulhos estranhos de fome. Eu tava com medo, no meio da noite, no meio de um chão enorme e silencioso, com um homem desconhecido, e numa tenda ainda por cima.
"Eu quero dormir em outro lugar", eu disse com uma voz baixa.
"Sério?" Ele perguntou, mordendo outro pedaço de carne. A mão dele ficou laranja com o óleo e as especiarias, e eu consegui ver um monstro nele.
"Quem disse que você pode dormir?" Ele falou, mastigando a comida.
Eu estremeci um pouco.
"Como assim?" Eu perguntei.
"Hoje é a sua noite de núpcias, e acho que tem um lance de fazer o marido feliz", ele disse sem olhar pra mim.
"Não ouse chegar perto de mim de novo", eu avisei com uma voz brava.
Ele se virou e me olhou.
"Sério mesmo?"
Eu esperei pela resposta dele, mas ele continuou comendo. Eu me levantei, andei e depois sentei de novo. Ele tava focado em acabar com toda a cesta de comida.
Eu fiquei esperando, me sentindo cansada, com fome, exausta e sei lá mais o quê. Ele tava me irritando de propósito e testando minha paciência.
"Escuta!" Eu tentei falar, mas eu não conseguia me ouvir.
Eu falei com uma voz lenta. Eu tava cansada, me mexi um pouco e encostei minhas costas no travesseiro. Meus cílios estavam pesados demais pra manter abertos. Eu tentei piscar, mas não consegui, porque o sono me pegou.
Eu não sei quando eu dormi daquele jeito, sentada.
Eu abri os olhos quando senti uma dor insuportável no pescoço, e eu tava com frio. Eu forcei os olhos pra abrirem e olhei pra todo lado. A tenda ficou escura, porque a maioria das lâmpadas tava apagada. Tinha só uma luzinha na tenda, e depois meu olhar caiu na outra ponta da cama.
Ele tava dormindo virado pro outro lado, tranquilo. Eu me encolhi um pouco e me levantei da cama na hora. O corpo dele tava coberto com o edredom, e eu não sabia o que fazer.
Eu não podia fugir, porque foi minha escolha casar. Eu não podia voltar atrás, porque eu tava numa missão, de alguma forma, e também não sabia como voltar. Eu não sabia o que fazer. Eu fui pra fora, colocando o véu na cabeça. No momento em que eu dei um passo pra fora da tenda, uma brisa fria bateu no meu corpo, e eu estremeci.
Lágrimas se acumularam nos meus olhos, porque eu tava me sentindo sozinha.
Eu voltei pra dentro da tenda de novo. Eu tava me sentindo impotente. Eu não sabia onde dormir. O tempo tava frio, e eu tava me sentindo impotente e exausta.
Eu fui pra cama de novo. Ele tava dormindo pesado, e eu sentei na beira da cama sem fazer barulho. Eu deitei no canto da cama e me cobri com a parte que sobrou do edredom.
Eu tava olhando pra ele, com medo. Quando não aconteceu nada, eu me senti um pouco mais confortável, e não sei quando meus olhos se fecharam e eu dormi de novo.
Eu acordei com um pulo quando senti alguém tocando na minha mão. Eu olhei pro lado e vi ele segurando minha mão. Eu puxei a mão com um solavanco, e ele me olhou.
"Begum... Você acordou. Hahaha" Ele riu, e eu me sentei ajeitando meu véu.
"Sua família te machucava?" Ele perguntou, e eu me levantei da cama. Eu não sabia por que ele tava interessado nas minhas marcas. Eu não queria falar com ele. Ele era um monstro do mal que tava planejando matar meu irmão.
"Fica longe de mim", eu disse e dei uma andada.
Ele se levantou da cama, e eu tava olhando pra ele. Ele era alto, com ombros largos. Ele tava usando uma kurta preta. O cabelo dele era médio, e ele tinha uma barba rala. Se ele não fosse meu inimigo, eu ia adorar as feições dele.
Ele foi pra fora da tenda, e depois eu respirei aliviada. Era de manhãzinha, e o sol ainda não tinha nascido. Eu não sabia o que fazer e quem pedir, eu queria me arrumar.
Eu fui pra cá e pra lá, e depois uma atendente apareceu.
"Choti Begum... Acordada?" Ela disse e chamou minha atenção.
Eu fui até ela e perguntei.
"Eu quero me arrumar."
"Sim, claro... Vem comigo. Eu levo você pro Hammam. A gente fez um hammam pequeno aqui, mas o Sultão tem um hammam enorme no Palácio. A gente tá andando com o rio pra poder pegar e usar a água sempre que possível. Além disso, o rio é bem longo, e esse é o caminho pra lembrar a rota."
Ela falava muito, e eu fui seguindo ela em silêncio.
Eu coloquei meu véu e perguntei pra ela baixinho.
"Qual é o seu nome?"
Ela virou e parou.
"Meu nome?... Meu nome é Nagma", ela disse, animada.
"Nagma... Que nome lindo", eu elogiei.
"Obrigada, Choti Begum... Por aqui, por favor!" Ela disse, me mostrando uma direção. O caminho era rochoso, e umas florestas enormes cercavam o lugar. O lugar era bem estranho. Tinha um monte de tendas onde eles dormiram.
Ela parou na frente de uma tenda branca e falou.
"Choti Begum... Entra e se arruma."
Eu balancei a cabeça, e ela me deixou sozinha.
Meu coração tava batendo rápido, porque eu tava no meio de um monte de gente estranha, e eu não conhecia ninguém.
Eu olhei pra algumas atendentes que estavam do lado de fora da tenda. Elas estavam olhando pra mim enquanto eu ia em direção à entrada.
Eu não sei por que elas estavam me olhando daquele jeito. Eu ignorei e afastei as cortinas pra entrar.
Eu entrei e andei um pouco. Tinha umas lâmpadas a óleo e um cheiro de óleo de banho e flores. E depois meu olhar caiu num homem seminu que tava virado pro outro lado. Ele tava fazendo alguma coisa, e a única coisa que ele tava usando era um pano enrolado e preso na cintura.
Eu fiquei horrorizada e corri pra sair, mas antes que eu pudesse, eu ouvi.
"Begum..."