###Capítulo 54 ~ Begum deixa o Sultanato
Visão da Gulaab
Meus dedos tremiam pra segurar a carta. Li de novo pra entender direito.
Rafiq Bhaijaan,
É pra te avisar que preparei o exército, como você pediu. Tô esperando sua ordem pra fazer ele partir pro Hind.
Ibrahim Sultão
Não podia acreditar. Caí de joelhos e as lágrimas começaram a escorrer.
Meu coração em pedaços, enquanto o momento que passamos juntos veio na minha visão.
"Begum, o que aconteceu?"
Nagma perguntou e eu gritei.
"Não consigo acreditar. Ele tava planejando tudo pelas minhas costas",
Isso quer dizer que me fizeram de idiota o tempo todo. Ele me usou. Me traiu. Não consigo acreditar.
Mas, e se ele já mandou o exército pro Hind?
MEU DEUS!
O pensamento me abalou por dentro. Precisava fazer alguma coisa. E se ele atacar meu Bhai Saheb? Tinha que fazer alguma coisa.
Minhas mãos começaram a tremer e o coração disparou com os pensamentos mais sinistros vindo na minha cabeça.
De jeito nenhum podia ver meu irmão perder a guerra. Realmente precisava fazer alguma coisa.
Levantei rápido, já que não tinha tempo pra chorar. Ele pode atacar o Hind logo depois de chegar ou talvez já foi pra lá pra planejar.
As lágrimas não paravam e eu olhei pra Nagma, chocada na minha frente.
"Begum, você tem que fazer alguma coisa então",
As lágrimas dela rolaram pelas minhas bochechas quando olhei pra ela.
"Não sei o que fazer",
Eu chorei e coloquei as duas mãos na cabeça.
Tinha que pensar, pensar e pensar.
"Carta",
"Nagma, vou escrever pro meu irmão",
Avisei e ela quase saiu correndo.
"Não, espera! Vai levar quase um mês pra chegar... Tenho que fazer alguma coisa pra ele acreditar",
E se o Sultan já foi pro Hind? E se ele mentiu pra mim sobre o Hamid?
Não sabia, mas agora meu cérebro não conseguia pensar em nada direito. Era como se eu não pudesse mais confiar nele.
"Tenho que ir",
A minha voz tremendo mas decidida.
"O quê??? Não, não, não... O Sultan vai te matar",
Eu olhei pra Nagma.
"Não tô nem aí... Tenho que proteger meu irmão. Ele não pode lutar... Tenho que fazer alguma coisa",
Eu quase explodi.
"Nagma, você tem que arranjar um mapa, dois conjuntos de roupa de guerreiro, um cavalo e mantimentos pra uns dias. Vou ir e salvar meu irmão",
Finalizei.
As imagens dos momentos que passamos juntos vinham na minha visão junto com as lágrimas. Não podia acreditar que ele tava planejando tudo pelas minhas costas e me deixou no escuro.
Meu Deus!
Meus dedos tremiam e minha garganta seca, enquanto eu andava pra lá e pra cá pra ter uma ideia de como proteger meu irmão. Não achei que conversar com ele ia fazer alguma diferença, mesmo que meu amor não conseguisse.
As lágrimas rolando sem parar.
"Begum, devia repensar isso. O Sultan não vai gostar-"
"Não tô nem aí pro Sultan",
Eu fuzilei ela.
Claramente, eu não me importava com ele quando ele não se importava comigo.
Sentei na cama esperando a Nagma aparecer de novo, já que ela saiu de lá por minha ordem.
Tinha que fazer isso. Tinha que proteger meu protetor. Mesmo antes dele, ele foi quem me salvou de tudo isso. Foi ele que lutou contra o mundo só por mim. Ele tinha feito as coisas que trouxeram maldições pra ele. Ele sempre seria meu primeiro amor, minha escolha e a pessoa pra cuidar. Meu irmão.
Sinceramente, não conseguia pensar em nada além de fugir de lá e manter meu irmão seguro. Não me importava quem eu era, não me importava quantos quilômetros eu tinha que cruzar. Não me importava como as coisas iam ser depois disso. Não me importava as consequências que isso ia trazer pra uma mulher pensando em viajar quase sozinha pro lugar mais distante que ela conhece.
Tinha duas escolhas naquele momento e tava claro pra mim. Uma era ter outro ataque de pânico e cometer alguma coisa brutal contra mim mesma, pra eu não testemunhar nenhum derramamento de sangue. E a segunda era ficar de pé contra o inimigo. Ficar de pé contra ele mais uma vez.
Eu sabia que amava ele. Pensar em qualquer coisa acontecendo com ele também me deixava fraca, mas já chega. Ele não me deixou nenhuma escolha.
"Begum, tudo pronto"
Saí dos meus pensamentos rebeldes quando a Nagma chamou.
Eu balancei a cabeça.
"Acho que devia pelo menos encontrar a Zeenat Begum antes de ir",
Ela tava parecendo destruída, olhando pra mim. Lágrimas escorrendo pelos olhos e voz rouca.
"Claro",
Eu garanti, andando um pouco pra abraçá-la.
"Begum, devia conversar com o Sultan",
"Com certeza teria, mas, sinto muito, não sei as intenções dele. E se o exército dele já partiu? Igual da última vez, ele avisou a vishakha só uns dias antes da partida. Isso quer dizer que ele executa o plano em poucos dias. Preciso mesmo me apressar",
A minha voz parecia decidida, mas só eu sabia o quanto tava com medo por causa da minha relação com meu irmão, por causa da minha relação com meu marido. Era como se minha derrota fosse certa em qualquer situação.
Sendo princesa, tem as vantagens.
Soltando o abraço, dei tchau e votos de boa sorte. Podia ter levado ela comigo, mas não podia colocar a vida de ninguém em risco nisso. Nenhum homem ia gostar que a esposa dele saísse de casa na ausência dele. Mas, não tinha outra opção.
De repente, meu olhar parou na Zeenat begum entrando correndo no meu quarto.
"Gulaab, você não pode fazer isso",
A voz dela tremendo e assustada também. Ela andou até mim e segurou minha mão.
"Quer dizer... Ele vai ser impossível",
"Ele é impossível", eu corrigi.
"Mas, isso é político", ela chamou minha atenção.
"Nosso casamento também foi político. Casei com ele pra pará-lo. Casei com ele pra ficar de olho nele. Essa foi minha primeira motivação",
Eu corrigi.
Ela sugou os lábios e algumas lágrimas caíram dos olhos.
"Você não ama ele?"
Meu coração em pedaços.
"Amo, amo mais do que qualquer um, mas não à custa do meu Império. Amo ele, mas não cegamente",
"Não sei... Não sei como te impedir, mas só vai deixar as coisas confusas. O que ele vai sentir sabendo que você deixou o império na ausência dele?"
"Também não sei, Zeenat Begum, mas se ele tá determinado a ser um Sultan, então não tenho medo de ser uma princesa orgulhosa",
Eu declarei.
Ela bufou e balançou a cabeça.
"Não sei, mas nunca tive essa coragem. Se não puder te ajudar, também não vou te impedir. Não importa se ele vai me perguntar primeiro sobre você",
Ela disse com a voz trêmula.
Eu abracei ela na hora e ela pediu.
"Por favor, me manda uma carta assim que chegar e não esquece de levar um monte de soldados com você. Tô insistindo, o Sultanato de Darmiyan não é tão injusto que vai mandar a Begum sozinha pra cidade natal dela",
"Tudo bem",
Eu aceitei.
Depois de encontrar ela, não perdi tempo em ir pra porta principal.
Trocar de roupa por uma de guerreira, subir no cavalo, eu fui.
Sinceramente, não pensei em nada. Meu cérebro só processava como tava meu irmão. Queria ver ele muito e com urgência.
Puxando as rédeas do cavalo com entusiasmo, iniciei minha jornada. Estava com pouco tempo, já que precisava chegar antes do exército, se tivesse um.
Tinha alguns soldados que a Zeenat begum mandou comigo. O destino que escolhi cruzar assim que possível parece muito distante.
Corremos até o amanhecer e até a meia-noite, já que hoje a noite tava clara com a lua cheia e as estrelas.
Finalmente, paramos depois da meia-noite, já que os cavalos e os soldados pareciam cansados. Mas, meus olhos não queriam fechar nem por um momento. Se pudesse, teria chegado lá em um dia só. Mas, sendo humana, eu tinha minhas limitações e elas estavam me servindo muito bem.
Chorei pela minha incapacidade de correr mais rápido. Tinha visto meu irmão montando a cavalo. Talvez o cavalo dele fosse mais forte que o meu.
Não sabia por quê, mas não conseguia pensar em nada direito agora. Tudo que eu queria era voar e chegar no Hind pra contar tudo pro meu irmão. Ia avisá-lo sobre os planos malignos dele e então. E então?
A pergunta fez meu coração disparar pro próximo nível. E se meu irmão também concordar com uma guerra? Não, não, não, não, isso não podia acontecer.
Senti como se alguém tivesse perfurado meu coração em pedaços.
Um rastro de lágrimas rolando pelos meus olhos, enquanto sentei no chão contra a árvore, enterrando minha cabeça nos joelhos.
Não percebi quando peguei no sono no meio da corrente de pensamentos assustadores. Era como se meu maior medo estivesse prestes a se realizar.
Devagar, os flashes da guerra com milhares de soldados no escuro correndo uns pros outros começaram a borrar minha visão. Senti arrepios, enquanto varria meus olhos pra lá e pra cá. A areia no deserto voou pro céu na velocidade de elefantes e cavalos correndo uns pros outros. O barulho de espadas e aço se chocando estremeceu meus ouvidos até o âmago. O leve cheiro de sangue no ar acelerou minhas batidas cardíacas. E então, de repente, uma espada passou pelo pescoço do meu irmão.
Acordei num pulo e olhei ao redor. Percebendo que era o pior pesadelo, coloquei a mão no peito pra acalmar minhas batidas cardíacas descontroladas. Ainda tava escuro, mas o sol tava pronto pra brilhar de novo. As lágrimas voaram dos meus olhos, já que não queria perder meu irmão. Não conseguia ver isso.
Meus dedos começaram a tremer e meus pés ficaram dormentes. Meu cérebro tava com uma dor insuportável e chorou.
"Gulaab, você não tem tempo pra isso. Tem que ser forte. Respire, respire, respire..."
Me lembrei e dei algumas respiradas longas pra segurar meu ataque que tava vindo. Tentei me acalmar. Foi difícil pra caramba, mas venci no final.
Sorri, enquanto controlei dessa vez. A respiração funcionou.
Estávamos andando pela beira do rio, já que o rio chega no Hind. Fui lá pra me refrescar. Só eu sabia como ia ser difícil.
Depois de me refrescar, ficamos firmes pra correr de novo. Indo pro meu destino, tivemos frutas e os mantimentos que trouxemos com a gente.
Finalmente, a jornada principal foi cruzada e eu tava a um dia do Império. Meu corpo encolheu com a falta de comida e a viagem contínua e agitada.
As últimas quatro semanas passaram como um trovão pra mim. Foi por onde passei uma dor e um dilema imensos. Mas minha determinação pra salvar meu irmão nunca perdeu a força. Não sabia, mas eu amo ele, mas não podia trair meu irmão por causa dele.
Não foi como uma competição entre eles, nem quis justificar meu amor pra ele. Eu amava ele, sabia disso e isso foi suficiente. Não tive coragem de trair meu Império só pra provar meu amor. Se esse meu passo foi o fim do meu casamento, da relação com o Sultan, então fiquei feliz. Porque eu era uma porra de princesa e as vantagens disso continham os sacrifícios. Por que só os homens iam derramar sangue pela honra e orgulho deles? Eu era igualmente capaz de domar a fera.
Eu amava ele, amo, mas não à custa do meu povo, do meu lugar, do meu Império. De onde eu nasci, fui criada e pertencia. Ele tinha que perder isso, porque eu era contra ele.
Vamo ver o último capítulo...
Senti arrepios enquanto a noite passou e começamos nossa jornada de novo. Estava cansada demais pra sequer sentar direito no meu cavalo. Me esconder na floresta à noite pra estar segura de qualquer outro problema foi meu último recurso nas últimas quatro semanas. Mas, agora podia descansar.
Cheguei nas paredes gigantescas do Palácio. Os soldados na porta puxaram as espadas ao nos ver, mas revelei meu rosto, com o qual me cobria, e desci do cavalo. Eles me reconheceram na hora e um deles correu pra avisar meu Irmão, talvez. Vieram até mim e nos ajudaram a entrar.
Não tava acontecendo guerra, nem nenhum tipo de problema lá.
"Tá tudo bem em Mahabaleshgarh?"
Eu perguntei pros Soldados que estavam perto de mim.
A minha voz tava cansada, exausta, quase não conseguia falar.
"Princesa, claro, tá tudo bem por aqui",
Ele garantiu e meu olhar caiu no meu irmão correndo pra mim, quando entrei no Império.
"Gulaab",
A voz dele tava atenciosa, tensa e o rosto chocado. Ele segurou minhas bochechas com carinho e quase gritou.
"O que aconteceu com você?"
Senti que ia desmaiar a qualquer momento.
Vi Bhabhi Saheb correndo um pouco pra mim. Meu olhar caiu na barriga dela de grávida.
Eu me virei pra olhar pro meu irmão, quando eu disse.
"Preciso te contar uma coisa",
A minha voz quase sumiu, então tudo ficou preto na minha frente.