Capítulo 109 Os Pacificadores
A enfermaria tava com pouca luz e tava tranquila quando eu acordei. Demorou uns segundinhos pra meus olhos se acostumarem
antes de eu finalmente sacar onde eu tava e o que tinha rolado. Minha mente tava meio embaçada, mas nem tanto quanto tava
quando Edward me deu meu remédio. "Nina", Enzo falou baixinho, apertando minha mão. Eu olhei pra ele, um sorriso dando uma tremidinha nos meus lábios, mas quando eu
abri a boca pra falar, eu logo saquei que minha voz tava rouca demais pra sair alguma coisa. "Tudo bem", ele falou. "Não precisa falar. Tiffany tá aqui e vai cuidar de você."
Eu balancei a cabeça fraquinha antes de olhar pra cima e ver Tiffany chegando por trás do Enzo. As sobrancelhas dela tavam
franzidas de preocupação. "E aí", ela falou baixinho. "Desculpa por isso ter rolado com você. Eu prometo que vamos achar o Edward e botar ele pra responder… Enzo tava me contando tudo agora pouco."
Eu olhei pro Enzo de novo, minhas sobrancelhas franzidas agora também, pensando se ele tinha contado pra ela
sobre lobisomens. Sacando a parada, Enzo concordou. "Tiffany sabe sobre lobisomens. Ela sabe faz tempo,
aparentemente."
"Eu te conto tudo quando você estiver melhor. Por enquanto, descansa, tá bom? Seu corpo tá sarando muito rápido, então
você vai estar tinindo rapidinho."
Eu não tinha muita certeza do que a Tiffany tava falando; eu sabia que agora eu tinha uma loba, mas ela ainda não tinha surgido
completamente, e eu não tinha certeza se ela ia surgir depois de todo o veneno que o Edward me deu. Mas a Tiffany tava
certa — agora não era hora pra perguntas. Eu tinha que descansar…
Mais tarde, quando o sol começou a nascer, eu finalmente me senti forte o suficiente pra sentar. Tiffany me deu uma camiseta
e uma calça de moletom pra usar, depois checou meus machucados, aliviada ao ver que até os talhos na minha barriga
tavam sarando rápido. Logo eu tava conseguindo ficar de pé e andar um pouco com a ajuda da Tiffany e do
Enzo.
Finalmente, quando eu consegui falar, Tiffany me contou a história de como ela sabia sobre lobisomens.
"Quando eu tinha a sua idade, na faculdade, a gente tinha um clube de hóquei aqui", ela falou, segurando meu cotovelo enquanto a gente
andava pra lá e pra cá na enfermaria vazia. "O clube era formado por mim, e também por vários outros. Esses outros eram sua mãe, Nina, e o Pai de Enzo. Edward, e também o Pai de Ronan, também faziam parte do clube, e também nossa atual Dean — Cynthia — e a mãe do James."
Eu fiquei meio chocada de saber que quase todos os nossos pais faziam parte desse clube de hóquei, mas eu escolhi
não perguntar sobre isso agora pra Tiffany poder continuar contando a história.
"Só que… O clube não era bem um clube de hóquei. Começou como um, mas com o tempo virou
outra coisa quando teve um surto de ‘raiva’ no campus."
"Não era raiva, era?", eu perguntei, lembrando que a Tiffany tinha mencionado isso antes quando ela
me mostrou a foto do clube.
A Tiffany balançou a cabeça. "Não. Tinha alguns lobisomens — enviados pelos líderes da facção Crescente — que tavam por aí no campus transformando as pessoas em bandidos. A Dean da época
cobriu tudo dizendo que era um surto de raiva, mas a gente sabia que não era — porque a gente já sabia
sobre lobisomens, já que vários membros do nosso clube eram lobisomens também."
"Quem eram os lobisomens que os Crescentes mandaram pra transformar as pessoas?", Enzo entrou na conversa. "E por quê?"
"Eu não sei quem eram." Tiffany fez uma pausa enquanto a gente virava no fim da sala e começava a
voltar pro outro lado. A essa altura, eu já tava boa o suficiente pra andar sozinha, e consegui largar os braços deles — mas eu ainda escolhi segurar o braço do Enzo enquanto a gente andava, só
porque eu precisava sentir o calor dele. "Os Crescentes queriam tomar conta de Mountainview", ela
continuou. "Sabe, na época, os Crescentes e os Fullmoons tavam em guerra pra ver qual facção ia controlar a cidade. Já que ela fica bem na divisa do reino dos lobisomens…"
"
…É o lugar perfeito pra controlar tanto os lobisomens quanto os humanos", Enzo interrompeu.
A Tiffany concordou. "Então, enquanto os Crescentes e os Fullmoons tavam brigando e se matando, nós sete
começamos a nos conhecer enquanto criávamos laços pelo nosso amor por hóquei. Alguns de nós começaram a
sacar que a guerra não fazia sentido, e então o clube de hóquei acabou virando um refúgio seguro pra
jovens Crescentes e Fullmoons que não queriam brigar. A gente começou a se chamar secretamente de
Pacificadores, e aproveitava toda chance que tinha pra trazer mais gente pro nosso clube."
"Humanos também?", eu perguntei.
"Mhm. Cynthia, a mãe do James, e eu não éramos as únicas humanas — bem, a Cynthia é híbrida, mas não tem loba nem habilidades. Tinha muito mais gente querendo defender os lobisomens, que acreditavam que os lobisomens não eram monstros."
Teve uma pausa longa. Depois de um tempo, a gente parou de andar pra lá e pra cá e sentou na mesa grande no fundo
da sala. A Tiffany suspirou, passando a mão pelo rosto cansado, e tomou um gole do café antes de
continuar.
"Foi ótimo — por um tempo. A gente fazia reuniões regulares, fazia competições amigáveis de hóquei
entre as duas facções, e com o tempo começamos a planejar vários protestos contra os Crescentes e os Fullmoons mais velhos pra tentar convencer eles a pararem de brigar e viver em harmonia. Mas aí…
Tudo mudou. O chefe dos Crescentes e o chefe dos Fullmoon da época morreram de repente durante
a mesma batalha, deixando o Pai de Ronan e o Pai de Enzo como os únicos herdeiros das facções. A gente tentou
parar eles, mas o poder subiu à cabeça deles rapidinho. Eles eram muito jovens e cheios de fogo pra ter
tanto poder, e as brigas só pioraram. Com o tempo, o clube de hóquei começou a se separar já que os
membros de cada facção sentiam lealdade pelos dois garotos que não eram só os líderes deles, mas
também os velhos amigos deles. Logo, os únicos que sobraram foram eu, a Mãe de Nina, Edward, a Dean, e a mãe do James.
A mãe do James logo começou a ter medo dos lobisomens agora que a gente tava em poucos, então ela fugiu."
"Então só sobraram quatro de vocês depois disso", eu falei.
Mais uma vez, Tiffany concordou solenemente. "Logo depois disso, no entanto, a Mãe de Nina foi descoberta tendo um caso de amor com ninguém menos que o Pai de Ronan. Mas a parada é que o Pai de Enzo era apaixonado por ela, e era faz anos. Eu ainda não sei direito o que aconteceu, mas Nina — sua mãe foi embora de repente. Nenhum de nós nunca mais teve notícias dela. Eu fiquei especialmente devastada, porque sua mãe
e eu sempre fomos próximas. Quando eu soube que você tava na lista pra ser minha estagiária, eu
imediatamente te escolhi."
Eu fiquei olhando pra Tiffany com os olhos arregalados. "Por que você não me contou antes?", eu perguntei.
Ela olhou pras mãos e balançou a cabeça. "Eu não sei. Tive medo, acho. Eu não sabia o quanto sua mãe tinha te contado sobre o passado dela, e eu não queria te assustar."
Enzo, que tava quieto o tempo todo, finalmente se manifestou. "E o Edward?", ele perguntou. "Qual foi o papel
que ele teve nisso tudo?"
A Tiffany deu de ombros. "Ele ficou com a Cynthia e comigo. Por todos esses anos, ele fez a gente acreditar que ainda era um
Pacificador. Cynthia virou a nova Dean, jurando fazer do campus uma zona neutra. Eu virei a médica da escola, pra eu sempre estar aqui se tivesse outra guerra. Pra eu proteger os
estudantes. E o Edward…"
"Era pra impedir os humanos de descobrirem demais", Enzo falou. "Pra proteger eles."
"Sim." Tiffany olhou pra cima então, e eu vi que os olhos dela tavam cheios de lágrimas. "O Edward sempre foi meio distante, frio. Mas… Eu amava ele. Eu nunca parei de amar ele. Acho que eu deixei isso embaçar meu julgamento."
"Tudo bem", eu sussurrei. Eu alcancei a mesa e apertei a mão da Tiffany. Ela apertou de volta.
Depois de outro silêncio, a Tiffany enxugou uma lágrima da bochecha com o dorso da mão e ficou de pé.
"Vamos", ela falou. "Vamos dar outra olhada nos seus machucados. Aposto que eles já estão quase sarados agora."