Capítulo 172 Os Novos Pacificadores
Naquela noite, eu quase não dormi. Mesmo que o campus tivesse sido salvo, ainda tinha tanta coisa para
preocupar — principalmente o meu pai. Se o Rei Alfa retirasse a ajuda dele, isso só significava uma coisa:
ele achou que eu fugi completamente, e ele não sabia sobre a Nina. Se ele não sabia sobre a Nina, então
quer dizer que a Selena impediu o meu pai de contar pra ele de uma forma ou de outra. Eu não podia ter certeza
do que, exatamente, ela fez até eu voltar. E eu teria que voltar porque, apesar de tudo, eu ainda
amava o meu pai. Eu não podia simplesmente abandoná-lo lá se a Selena fizesse algo horrível com ele. Eu só não sabia como eu ia contar essa notícia pra Nina. Eu sabia que ia destruir ela se eu contasse
que eu teria que ir embora, e existia a possibilidade de eu não voltar... E não importava o quanto ela chorasse ou implorasse, eu não podia deixar ela vir comigo. Era muito perigoso. Então, enquanto ela dormia pacificamente do meu lado naquela noite, eu fiquei acordado até o meu corpo finalmente ceder
e cair no sono — porque eu não sabia como eu ia quebrar o coração da Nina daquele jeito…
Na manhã seguinte, Nina, nossa nova alcateia que a Nina tinha chamado de ‘Novos Pacificadores’, e eu fomos
todos para a sala de conferência para a reunião. Quando entramos, Lewis, alguns dos outros Fullmoons, e a dean Cynthia já estavam sentados na mesa.
“Bem, se não são os Novos Pacificadores”, o Lewis disse, quase com superioridade. Eu sabia que ele ia ficar
puto por eu ter decidido abandonar a alcateia do meu pai, mas eu não ligava. Pra mim, meus amigos eram mais minha
alcateia do que os Fullmoons jamais foram. Meu pai podia até ficar chateado no começo, mas eu sabia que ele ia
entender no fundo.
“Entrem”, a Cynthia disse, levantando e apontando para os assentos abertos ao redor da mesa. “Talvez não tenha
assentos pra todo mundo. Desculpa por isso.”
A Nina, Matt, Lori e Jessica, e eu sentamos na mesa enquanto o resto do time de hóquei ficou por perto.
“Tudo bem…” a Cynthia sentou de volta na cadeira dela e ficou encarando as mãos dela por alguns momentos,
processando, antes de olhar para cima e se dirigir a todos nós. “Nossa prioridade, antes de mais nada, é esse
campus”, ela disse. “Depois disso, a cidade. Agora, o Lewis e alguns dos outros Fullmoons fizeram uma busca
ontem e encontraram alguns moradores enfiados nas suas casas. Eles foram informados que precisam ficar em
suas casas até segunda ordem, mas os suprimentos estão a caminho. Nós precisamos de alguns
voluntários para ajudar a limpar os escombros do campus e da cidade, no entanto. Alguém se habilita?”
O Matt e todo o time de hóquei levantaram as mãos instantaneamente, quase em uníssono, assim como a Lori e a Jessica.
Enquanto isso, para minha surpresa, nenhum dos Fullmoons se voluntariou. Eu lancei um olhar de descrença para o Lewis,
mas ele só me encarou com um olhar fulminante.
“Ótimo”, a Cynthia continuou. “Nós vamos começar uma equipe de limpeza assim que essa reunião acabar. Vocês podem
usar os veículos de manutenção que pertencem à escola, e alguns moradores ofereceram suas caminhonetes para
usar para transportar os escombros. Agora… Em relação à escola, eu gostaria de colocar as coisas de volta ao normal o mais
rápido possível. As aulas serão retomadas em uma semana; eu sei que isso parece muito cedo, mas o mais importante é
para os alunos sentirem uma sensação de normalidade em meio a todo esse caos. Algo para mantê-los
ocupados e motivados. Fora da aula, nós vamos fazer reuniões noturnas e círculos de aconselhamento para
qualquer um que precisar. Os Fullmoons ofereceram para continuar patrulhando todo o perímetro da
cidade até o Richard retornar, então segurança não deve ser uma preocupação, mas… ”
“Nós temos alguns frascos extras do antídoto”, a Nina interveio. O rosto dela ficou vermelho quando todos se viraram para
olhar pra ela. “…Só no caso.”
A Cynthia assentiu. “Perfeito. Você tem alguma ideia se a Tiffany deixou instruções sobre como fazer mais, ou…?”
A Nina balançou a cabeça. “Eu não sei. Tenho certeza que ela deixou em algum lugar. Eu posso procurar.”
Eu podia dizer que falar sobre a Tiffany deixou a Nina chateada. Deixou todos nós chateados — até o Lewis e os
outros Fullmoons. Eu estendi a mão por baixo da mesa e peguei a mão dela na minha, apertando-a suavemente para
oferecer um pouco de conforto.
A Cynthia pigarreou. “Nina, você conhecia a Tiffany bem, e você é uma de nossas melhores estudantes de medicina
no campus. Você e o James. Eu gostaria que vocês dois assumissem a tarefa de tentar descobrir como a Tiffany fez
aquele antídoto para que possamos fazer mais se precisarmos.”
Na menção do James, uma nó na minha garganta se formou. A mão da Nina se tensionou na minha, e o resto da minha alcateia
ficou sombria.
“O quê?” a Cynthia perguntou, com os olhos procurando em nossos rostos. “O que foi?”
“É… James”, a Jessica interrompeu. “Ele é…”
Os olhos da Cynthia se arregalaram. “Ele está morto também?”
A Jessica balançou a cabeça. “Não. Mas ele meio que enlouqueceu. Ele atirou na Nina e depois ele—” Nesse
ponto, a voz dela engasgou. A Lori falou por ela.
“Ele tentou matar a Jessica ontem”, a Lori disse. “Ele roubou meu carro e fugiu depois disso.”
“O quê?” a Cynthia perguntou incrédula. “Por quê? Ele era um menino tão doce.”
“Não mais”, a Nina interrompeu de repente.
A sala ficou em silêncio. A Cynthia encarou as mãos dela por longos momentos antes de finalmente respirar fundo e concordar. “Ok então”, ela disse. “Bem, Nina… Se você acha que pode cuidar do
antídoto sozinha, nós somos gratos. Mas se for demais para você, tudo bem também.”
A Nina não falou por um longo tempo. Ela ficou encarando o colo dela, aparentemente ponderando. Eu dei à mão dela
outro aperto suave de encorajamento, e ela finalmente olhou para cima e conseguiu um sorriso fraco. “Eu vou
tentar o meu melhor”, ela disse em voz baixa.
“Ótimo. Ok… Eu acho que é tudo que precisamos discutir agora”, a Cynthia disse, levantando. Eu franzi a testa,
assim como a Nina; essa foi uma reunião incrivelmente curta para algo que envolvia um projeto tão grande. Até o Lewis levantou e começou a andar em direção à porta.
“É só isso?” a Nina perguntou de repente. “E as cidades vizinhas? Os Crescents se espalharam —
segundo eu ouvi, todas as cidades em um raio de oitenta quilômetros—”
A Cynthia apenas balançou a cabeça. “Eu receio que não possamos nos preocupar com isso”, ela disse. “Nós precisamos focar em nossa
escola e nossa cidade primeiro.”
“Essas outras cidades podem se virar sozinhas”, o Lewis, que estava quieto esse tempo todo, disse de repente.
Enquanto ele falava, ele encarou a Nina e a mim de forma bastante severa; bem diferente do Beta que eu sempre
conheci. Era quase como se o poder de não ter meu pai por perto estivesse subindo à cabeça dele. “Se
vocês lidaram com isso por conta própria, então eles também podem.”
A Nina e eu ficamos de queixo caído, assim como o resto da equipe.
“Você não pode estar falando sério!” eu disse, levantando e não me importando de estar levantando a voz. “Aquelas outras pessoas
não sabem o que as atingiu! Elas provavelmente não têm ideia do que está acontecendo, sem defesas—”
“Mountainview é nossa única preocupação.” O Lewis foi frio, indiferente. Isso me deu ânsia.
“Isso é horrível”, eu insisti. “Como filho do Alfa Fullmoon, eu ordeno—”
O Lewis soltou uma risada irônica e condescendente. “Você abdicou de qualquer direito de dar ordens quando decidiu
espalhar e começar sua própria alcateia. Enquanto seu pai está fora, eu estou no comando. Vá em frente e faça
o que você quiser, mas os Fullmoons não vão te apoiar.”
Eu estava pasmo demais para falar. E antes que qualquer um de nós pudesse sequer juntar os pensamentos para responder,
o Lewis virou nos calcanhares e foi embora com os outros Fullmoons.