Capítulo 122 O Médico Mágico
A lanchonete tava com pouca luz e tava tranquila quando eu cheguei, mas também tava quentinha e aconchegante: a atmosfera perfeita
para trabalhar no meu trabalho. Peguei um café rapidinho pra espantar aquela sensação constante de cansaço por
não ter dormido direito antes de colocar minhas coisas numa mesa no canto e me acomodei. Abri meu laptop e meu caderno, depois
comecei a trabalhar.Só que, enquanto eu tava trabalhando, não consegui evitar de ficar olhando pra mesa onde eu e K sentamos naquele
dia em que a gente se conheceu. Tentei me concentrar no meu trabalho, mas toda vez que eu olhava pra aquela
mesa, me vinham flashbacks da noite em que ele tentou me arrastar por aquele portal rodopiante na
floresta. Mesmo agora, só de pensar nisso, eu conseguia sentir as mãos dele ainda agarradas com força nos meus
tornozelos enquanto eu arranhava desesperadamente o chão da floresta. Era como se as mãos dele tivessem queimado ali.Aquele evento também me fez pensar naquela mulher que eles chamavam de 'A Irmã'. Será que ela tava de alguma forma
ligada à minha herança? Tiffany tinha mencionado como minha Mãe desapareceu de repente, cortando todo
contato com os Pacificadores do nada. Quanto mais eu pensava nisso, mais eu começava a achar
que talvez fosse hora de ligar pra minha mãe ou até fazer uma visita pra aprender mais.De repente, meus pensamentos foram interrompidos pelo barulho da sineta na porta do café tocando quando alguém
entrou. Levantei a cabeça, tirando meus olhos da mesa vazia onde eu e K sentávamos, pra ver ninguém menos
do que James entrando.Ele tava até mais acabado agora do que antes. Fiquei observando enquanto ele pedia um expresso triplo, que
era uma baita quantidade de cafeína; será que ele tava dormindo? Quando ele se virou e seus olhos sombrios e sem alma encontraram os meus, essa suspeita foi confirmada.James de repente abaixou a cabeça e tentou passar correndo por mim como se nunca tivesse me visto, mas eu
não ia deixar ele ir embora. Pulei e fui atrás dele na calçada.'James!', gritei. Ele acelerou o passo, ainda com a cabeça baixa. Corri atrás dele e peguei
no cotovelo dele. 'James.'
'O que você quer?', ele rosnou, virando de repente pra me encarar. Agora que a gente tava mais perto e na
luz do dia, eu conseguia ver ainda mais claramente como as olheiras dele estavam escuras e como o rosto dele
tava magro.'O que tá acontecendo com você?', disparei. 'Você não tá nada bem.'Ele tirou o braço dele de mim, estreitando os olhos pra mim. 'Só tô estressado com a escola, só isso',
disse ele.Fiz uma careta. 'Você e eu sabemos que isso é papo furado. Você deixou cair sua carta do seu Pai outro dia.
Que história é essa de 'negócio de família'?'James ficou em silêncio. Os olhos dele arregalaram e o lábio dele começou a tremer.'James', falei, estendendo a mão pra tocar no ombro dele, 'alguém tá te ameaçando? Seja o que for que
estão mandando você fazer, você não precisa fazer. Esse não é você. Eu sei.'Antes que eu pudesse tocar no ombro dele, ele se encolheu e me lançou um olhar furioso. 'Você não sabe a
menor coisa sobre mim', ele rosnou. 'Não se mete nos meus assuntos.' Com isso, ele virou no calcanhar e
continuou marchando pela calçada.Tentei gritar pra ele, mas ele já tinha ido embora.Suspirando, voltei pro café. O que quer que estivesse acontecendo com meu amigo era completamente fora
característica dele… E eu tava preocupada com a segurança dele...Depois daquela interação estranha com James, não consegui mais me concentrar muito no meu trabalho, então terminei meu
café e voltei pro campus. Ia pra casa tentar dormir, mas quando passei pela arena de hóquei, notei que a porta
tava encostada e a luz tava saindo pela calçada. Preocupada que Enzo ainda estivesse treinando o time sem parar e que isso pudesse levar a uma lesão,
decidi espiar e verificar.Surpreendentemente, o time não tava lá. Rapidinho percebi que Enzo tava sozinho no gelo. Ele tava
treinando mais do que nunca, mas continuava falhando nos exercícios e xingando alto pra si mesmo. Fiquei observando
quietamente das laterais, chocada com o desempenho dele e com a atitude ruim que ele teve depois.Finalmente, ele fez um último exercício. Fiquei observando enquanto ele ziguezagueava entre os cones no gelo,
guardando o disco com o taco, depois tentou jogá-lo na rede no final.Errou.'Caramba!', gritou ele. Ele jogou o taco de hóquei dele com tanta força que ele quebrou no meio. Fiquei observando
enquanto as duas metades deslizavam em direções opostas no gelo antes de finalmente sair da porta e
falar.'Você tá bem?', perguntei.Enzo deve ter ficado tão concentrado nos exercícios que nem tinha me notado ali, e ele
pulou quando eu falei. 'Não chega nas pessoas assim', ele rosnou, patinando apressadamente pra pegar
seu taco de hóquei quebrado e os cones antes de patinar até a saída da pista e jogá-los no
chão.'Desculpa', falei, indo até ele e observando enquanto ele mancava até o banco e afundava com
desistência. 'Você treinou tanto assim o dia todo?'Ele deu de ombros. 'Tenho outra partida amanhã, e minhas habilidades estão caindo. Eu ainda estaria treinando se eu
não tivesse acabado de quebrar meu taco.'Fiquei em silêncio por um momento. Mordi o lábio, mexendo com a alça da minha bolsa, antes de falar de novo.'Por que você acha que suas habilidades estão caindo?'Enzo não respondeu de cara. Ele olhou pra mim com os olhos meio vermelhos brilhando, depois balançou a
cabeça. 'Não é nada. É só minhas costas.'Lembrei de como as costas dele estavam cheias de cicatrizes por causa das surras de Edward. Ele deve ter perdido a mobilidade por
isso; quando a gente tomou banho junto naquela noite, ele precisou de ajuda pra tirar a camisa e se lavar.'Você ainda não conseguiu curar?', perguntei.Ele balançou a cabeça. 'Um pouco aqui e ali, mas não muito. O que quer que o Edward tenha me dado pra enfraquecer meu
lobo foi forte.'Fiz uma careta por um momento, mas de repente tive uma ideia.'Tira a camisa', falei.Enzo fez uma careta pra mim. 'Quê?', ele perguntou, me olhando incrédulo.Joguei minha bolsa no chão. 'Como sua médica, tô mandando você tirar a camisa.'Enzo hesitou, mas finalmente obedeceu. Ele estendeu a mão pra tirar a camisa, mas pareceu estar com
problemas, como eu suspeitava. Sem pensar duas vezes, estendi a mão e o ajudei.Lágrimas vieram aos meus olhos quando olhei pras costas dele. Eu quase tinha esquecido como ele tava cheio de cicatrizes. Minhas feridas
estavam totalmente curadas com apenas três linhas finas e brancas onde Edward tinha cortado meu estômago com suas
garras, mas as costas de Enzo estavam cobertas de cicatrizes longas, rosadas e brancas que se erguiam do resto da pele dele
como um mapa topográfico.'Não gosto que você me veja assim', ele murmurou, abaixando a cabeça.Neguei com a cabeça e pisquei as lágrimas. 'Não é tão ruim.'Ele riu com sarcasmo. 'Você tá mentindo.'Houve um silêncio longo e palpável entre nós. Eu só queria estender a mão e abraçá-lo, mas sabia que isso só ia acabar em mais
coração partido… Então, fiz o que pude, e estendi a mão em vez disso pra colocar minhas mãos nas costas dele.'O que você tá fazendo?', ele perguntou, encolhendo um pouco sob meu toque e tensionando as costas.'Só relaxa', falei, fechando os olhos. 'Acho que posso te ajudar.'Enzo ficou em silêncio. Ele não se encolheu quando pressionei minhas palmas com mais força contra a pele dele. Comecei a respirar
profundamente, focando toda a minha energia no ponto onde minhas mãos e as costas dele se encontravam, e, enquanto fazia isso,
procurei a presença da minha loba e peguei um pouco do poder dela.Enquanto fazia isso, senti uma formigação que começou no meu peito e lentamente fluiu pelos meus braços e pras minhas
mãos. Eu não tinha certeza, mas quando senti as costas tensas de Enzo relaxarem, soube que tava funcionando. Finalmente, depois
de vários minutos disso, abri os olhos e me afastei.Eu quase gritei de alegria. As cicatrizes ainda estavam lá, mas agora eram muito menos proeminentes. Sem
dizer uma palavra, ri e corri pra despensa. Joguei as portas e peguei um taco de hóquei extra na prateleira,
depois corri de volta pra Enzo e enfiei na cara dele.'Vai lá', falei. 'Tenta de novo.'Enzo me olhou com os olhos arregalados, mas depois pegou o taco da minha mão, hesitante. Corri pra
barra da pista e agarrei com força enquanto ele patinava de volta pro centro, se alinhando do outro
lado da pista com o taco na mão e o disco na frente dele.'Vai lá! Pata!', gritei.Por um breve momento, um sorriso se espalhou no rosto de Enzo. Então, ele patinou.Fiquei admirada enquanto ele ziguezagueava sem falhas no gelo, virando pra lá e pra cá e dando meia-volta,
tudo enquanto mantinha o disco habilmente controlado com seu taco. Então, com um toque final, ele jogou
o disco na minha direção. Ele passou por mim com um som de zumbido antes de pousar perfeitamente na rede.Não consegui evitar de pular de alegria. Um grito selvagem escapou da minha garganta, e através das minhas lágrimas de felicidade, vi
a forma de Enzo patinando rapidamente em minha direção. Ele praticamente bateu na grade, depois se esticou e
me agarrou, puxando-me pra o lado dele e girando no gelo enquanto me segurava em seus braços.A gente riu junto e girou até ficar tonto.