Capítulo 203: Rede de Segurança
Eu, Nina, Matt, Lori e Jessica planejamos como íamos separar 'Eli' e 'Sadie' para tentar quebrar o feitiço no Enzo. Tivemos que ser cuidadosos, porque se essa fosse mesmo a Selena e o Enzo, então a Selena podia vazar com o Enzo de novo e a gente não ia ter como achar eles. Finalmente, depois de um tempão que a gente ficou pensando e não chegando a lugar nenhum em como fazer isso, o Matt finalmente falou com uma última ideia.
'Aê!' ele disse, sentando de repente na cadeira como se tivessem puxado uma cordinha no topo da cabeça. 'Lembrei que vai ter uma festa numa das casas de fraternidade amanhã à noite. Tenho certeza que os alunos novos — desculpa, o Enzo e a Selena — vão estar lá. Se a gente conseguir separar eles na festa, talvez a Nina tenha a chance de conversar com o Enzo em particular e tentar fazê-lo se lembrar.'
A ideia do Matt me fez sorrir um pouco. 'Uma festa pode ser uma boa distração,' eu falei. 'O povo vai estar bebendo e vai estar rolando um monte de coisa. Pode ser fácil separá-los no meio do caos.'
Claro, ainda ia ter a questão de como fazer isso; mas não tinha como planejar tudo antes, porque a gente não tinha como saber exatamente como ia ser a festa. Tudo o que a gente sabia agora era que ia ficar junto até que o Matt, a Lori e a Jessica conseguissem separar o Enzo e a Selena, e aí eu ia levar o Enzo pra um lugar privado e tentar conversar com ele.
Por enquanto, o plano parecia que ia dar certo. Só espero que funcione, porque se não der e a Selena descobrir o nosso plano… Aí ela provavelmente vai levar o Enzo embora de novo. E ela ia levar ele embora de vez dessa vez…
Nem tinha dado meio da tarde ainda e a decana já mandou uma mensagem geral no campus chamando todo mundo para o auditório pra fazer um anúncio.
Enquanto todo mundo ia pra lá, eu já sabia o que a decana ia dizer: que os Fullmoons tinham nos deixado aqui, sem nenhuma proteção de verdade, pra fugir e desaparecer quando o povo mais precisava deles. Com o Richard indo embora e o Enzo sem condições de assumir, o Lewis parecia ter deixado essa nova força subir à cabeça. Uma parte de mim até se perguntava se ele tava mesmo trabalhando com os Crescents, igual a Myra sugeriu.
Mas nada disso importava agora. Eu tava confiante que o nosso plano ia dar certo. E quando desse, com a ajuda do Enzo a gente ia conseguir distribuir o antídoto pras cidades vizinhas. Depois disso, eu tava confiante que a gente ia conseguir ir ao Rei Alfa juntos, como uma equipe, onde eu ia me apresentar pra ele como a filha desaparecida dele. Com o Rei Alfa do nosso lado, depois disso, a gente ia com certeza impedir os Crescents de fazer mais estrago. Mas, por enquanto, a gente só precisava focar em fazer o Enzo se lembrar de tudo.
A Lori, a Jessica e eu sentamos no fundo do auditório enquanto o resto dos alunos se acomodava. Finalmente, a decana veio pro palco e pediu a atenção de todos.
'Obrigada a todos por virem,' ela disse, olhando pros alunos com preocupação no rosto. 'Chamei vocês aqui hoje pra avisar que os Fullmoons não vão mais morar no nosso campus. Eles decidiram voltar pra casa.'
Os alunos começaram a murmurar preocupados ao nosso redor. Eu e minhas amigas só nos olhamos com cara de poucos amigos antes de olhar de volta pra decana.
'Eu sei que vocês estão todos com medo,' a decana disse, 'mas confiem em mim quando eu digo que a nossa casa está segura. Vocês não têm nada com o que se preocupar. Os Crescents estão diminuindo em número enquanto falamos, e parece que seus líderes decidiram se retirar por enquanto. Claro, ainda tem muitos bandidos vagando pelo interior, como tenho certeza de que todos vocês estão sabendo… Mas eu acredito que, com um toque de recolher rigoroso e a proibição de viagens para fora, podemos ficar seguros aqui e Mountainview pode voltar ao normal aos poucos.'
'Um toque de recolher?' eu sussurrei, olhando pra Lori e pra Jessica. A decana tava falando sério? Um toque de recolher era mesmo pra proteger a gente dos bandidos?
A Jessica só apertou minha perna. 'Não esquece do antídoto,' ela sussurrou. 'Acho que, como os Novos Pacificadores, vamos cuidar disso sozinhos.'
A Jessica tava certa. Pelo menos, o antídoto tava pronto; a gente só precisava testar e deixar tudo pronto antes que rolasse outro surto de bandidos. Não só isso, mas a gente precisava conseguir a ajuda do Rei Alfa também.
Quando a reunião acabou, eu e minhas amigas começamos a voltar pro nosso dormitório. Eu não vi o Enzo nem a Selena em lugar nenhum na reunião nem no caminho pra casa, o que foi um pouco preocupante e me fez pensar se eles tinham decidido voltar pro reino dos lobisomens afinal.
A minha ansiedade me deixou grudada na janela pelo resto da noite. Eu fiquei com os olhos grudados no estacionamento, com medo de que eles tivessem realmente ido embora… Mas, finalmente, muito depois do sol ter se posto, eu ouvi o barulho distante de uma moto pela minha janela aberta. Eu pulei da minha mesa e corri pra olhar, uma sensação de alívio me inundando quando eu vi os dois entrando em um lugar. A Selena desceu da moto e tirou o capacete. O Enzo desceu atrás dela e seguiu ela pro dormitório dele.
Mesmo ele não parecendo nada com ele mesmo, eu sabia que o Enzo tava ali. Eu conseguia ver no jeito que ele andava, no jeito que ele tirou o descanso da moto de forma fluida e guardou o capacete embaixo do braço. O Enzo tava ali; eu tinha certeza disso. Eu só precisava persuadi-lo a sair.
A Selena, felizmente, não me viu enquanto eu continuava olhando pela janela, incapaz de desviar os olhos do Enzo. Eu não queria desviar o olhar nem por um segundo, porque quanto mais tempo eu olhasse pra ele, mais eu conseguia ver a verdadeira aparência dele… E uma parte de mim queria gravar a imagem dele na minha mente com medo dos dois irem embora de manhã. Se eu nunca mais visse ele na carne, então eu queria pelo menos conseguir vê-lo quando eu fechasse meus olhos; era só isso que eu podia esperar nesse momento.
Eu observei, piscando pra conter as lágrimas, enquanto os dois iam pro prédio do dormitório do Enzo. A Selena abriu a porta e entrou, toda cheia de si; o Enzo foi atrás dela, mas, bem na hora de desaparecer lá dentro, ele parou na porta, com a mão na porta e congelou.
Eu senti meu coração errar na garganta quando ele olhou lentamente por cima do ombro… E os olhos dele se encontraram com os meus.
Mesmo de longe, eu sabia que ele me viu. E o olhar dele tava tão, tão triste.
O Enzo tava ali em algum lugar, implorando pra sair. Eu só precisava libertá-lo.