Capítulo 90: Uma Falha
EnzoNossa segunda partida de hóquei no torneio Meia-Lua chegou rápido demais. Senti que não tive tempo nenhum pra resolver a situação com Edward ou, mais importante, conversar com Nina sobre o que rolou com o irmão dela antes de ser forçado a treinar pro próximo jogo, que ia ser no fim da semana. Todo aquele treino intenso tava começando a me cansar e aos meus colegas de equipe também. Mesmo sendo um alívio contar pros meus colegas de equipe sobre minha verdadeira natureza e saber que eles me apoiavam, o treino rigoroso que meu pai nos forçava era quase insuportável. Ele começou a ir em todos os nossos treinos e, eventualmente, basicamente assumiu como capitão do time, me ofuscando completamente e minando minhas habilidades. Na sexta-feira, a noite da segunda partida, eu tava exausto. Pelo menos a gente ia competir no nosso próprio rinque, mas saber que o time que a gente ia jogar era muito bom só deixou a tensão ainda maior. Quando meu time e eu patinamos pro gelo, os gritos dos nossos colegas de classe na arquibancada me deram um pouco de energia. Não ajudou que Lisa tava de volta como capitã do time de líderes de torcida e ia estar lá o tempo todo, em toda a sua glória de lobisomem maligna, mas pelo menos os olhos castanhos suaves de Nina me olhando da lateral eram suficientes pra me fazer esquecer a presença da minha ex-namorada insana por enquanto. Só queria que fosse suficiente pra me fazer esquecer também o olhar gelado do meu pai do seu lugar nos assentos da caixa lá em cima. Começamos o jogo. O outro time era tão bom quanto me avisaram, muito, muito bom. Eles não representavam tanta ameaça quanto Ronan, mas jogar contra outros lobisomens era algo que eu nunca tinha experimentado antes; Jason não contava muito, na minha opinião, já que ele e o time dele jogavam tão mal, nem parecia dar a mínima pro Torneio Meia-Lua. No fim do primeiro tempo, o outro time tava na nossa frente por dois pontos. Eu patinei pro lado e tomei um gole de água, respirando fundo depois do tempo intenso, e olhei pra cima, pra os assentos VIP onde meu pai tava sentado pra vê-lo me encarando com extrema decepção na cara. Ele balançou a cabeça devagar; eu conseguia quase sentir a raiva emanando dele enquanto ele me olhava. "Ei", disse Nina, chegando perto de mim. "Não olha pra ele. Só joga."Consegui um sorriso fraco e balancei a cabeça, patinando de volta pro gelo pro segundo tempo. Beber um pouco de água e estar perto de Nina parecia me dar alguma força, me permitindo sentir conectado ao jogo. As palavras dela ecoaram na minha mente o tempo todo. Só joga. O segundo tempo acabou segundos depois que eu fiz um gol final que nos colocou na frente por um ponto, fazendo nosso lado da arquibancada explodir em comemorações enquanto as líderes de torcida faziam uma rotina de vitória. Só mais um tempo. Olhei pra cara de Nina enquanto juntava meus colegas de time pra um abraço. Ela me deu um sorriso gentil e um joinha, o que me deu a força pra simplesmente destruir o outro time no terceiro tempo. Terminamos o jogo com uma vitória esmagadora. Quando os animados estudantes da Universidade de Mountainview saíram do estádio lotado, deixando pra trás uma bagunça de pipoca derramada e latas de refrigerante vazias no rastro, eu tirei minhas patins exausto dos meus pés no banco e soltei um suspiro de alívio. "Ei, quem quer ir tomar uns drinks pra comemorar?" disse Matt, colocando o capacete embaixo do braço com um olhar triunfante no rosto. O resto do time concordou em uníssono, assim como eu."Não, vocês não vão", disse a voz grossa do meu pai severamente de trás de mim. Franzi os olhos e virei pra encarar ele lentamente. O resto do time ficou em silêncio. "Quê?" eu disse, em pé. "Você ouviu. Vocês todos têm treino de manhã. Não quero vocês de ressaca quando deveriam estar focados." "Então não podemos tomar uma bebida e relaxar?" eu rosnei. Meu pai riu. "Não depois dessa atuação, não." "Desculpa, Sr. Rivers, mas… Nós ganhamos", Matt interveio, mas recuou rapidamente quando viu o olhar gelado do meu pai deslizar pra ele. "Nós ganhamos", eu disse. "Por uma goleada, também." "Só no tempo final", meu pai respondeu. "O primeiro tempo foi deplorável. Teve sorte no segundo tempo. Você acha que esse tipo de desempenho vai te ajudar a ganhar o Torneio Meia-Lua?" Eu zombetei, sem saber como responder e não querendo que meus colegas de time fossem verbalmente abusados pelo meu pai. "Vocês podem ir se trocar", eu disse. Olhei por cima do meu ombro pra vê-los ainda parados lá, como se o tempo do meu pai tentando assumir o papel de capitão do hóquei já os tivesse ensinado a não me ouvir. "Vão!" eu gritei, fazendo todos eles pularem um pouco. "Eu já vou. E vamos comemorar nossa vitória!" Meu time recuou lenta e hesitantemente pros vestiários. Virei pra olhar pro meu pai, cujo rosto tava ficando vermelho beterraba de fúria. Senti a raiva borbulhar dentro de mim também e senti minhas mãos se fecharem em punhos ao meu lado. "Você não é nosso sargento de treinamento, sabe", eu rosnei. "Pela duração deste torneio, eu sou", respondeu meu pai. "E posso te substituir a qualquer momento por alguém que saiba receber ordens." Fiquei surpreso. "O que isso quer dizer?" Meu pai rangeu os dentes e deu um passo na minha direção. "Considere seu desempenho e sua indignação esta noite como uma advertência", ele disse calmamente. "Você tem três advertências, assim que passar desse ponto, acabou. Confie em mim, já tenho outra pessoa escalada pra sua vaga." Senti um nó subir na minha garganta. Minhas mãos coçaram pra dar um soco direto na mandíbula dura do meu pai, mas me controlei e saí sem dizer uma palavra. "Mais duas advertências!" ele gritou atrás de mim. "Mais duas, e você está fora daqui!" Quando entrei no vestiário, o murmúrio suave dos meus colegas de time parou abruptamente. Caminhei em silêncio por eles, em direção ao meu armário e abri, começando a tirar meu equipamento de hóquei. "Continuem", eu disse. "Continuem fofocando." Fui recebido apenas com mais silêncio. Como se o silêncio fosse a gota d'água, antes que eu pudesse me controlar, joguei meu capacete pelo vestiário, amassando um armário com ele e fazendo meu time pular de surpresa. "Enzo Rivers!" a voz de Nina chamou de repente da porta. Olhei pra cima da minha raiva pra vê-la correndo na minha direção, com a mão levantada. Ela ia me dar um tapa e eu acho que merecia por causa do meu comportamento, mas parou, abaixando a mão trêmula. "Só porque seu pai é um babaca não significa que você precisa ser", ela rosnou. Houve um silêncio longo e palpável, antes que ela se virasse, então, pra falar com o resto do time. "Vocês foram incríveis hoje. Se recomponham e vão pro bar. Nós vamos comemorar."