Capítulo 153 Refúgio
Eu e o James fomos rapidinho e quietinhos por aquela cidadezinha abandonada. Enquanto a gente andava, colado nas sombras que estavam crescendo rápido, eu não conseguia não notar as manchas de sangue no chão ou uns pedaços de roupa rasgada. A coisa mais sinistra que eu vi foi um ursinho de pelúcia de criança jogado no chão, todo manchado de sangue; eu engoli seco quando vi, falando pra mim mesma que talvez a criança dona daquele urso só deixou cair e acabou manchando de sangue, mas rolava um aperto no fundo da minha cabeça que não ia dar bom.
Finalmente, chegamos no bairro residencial. James foi na frente, com a arma na mão, enquanto o céu começava a escurecer. Ele acabou levando a gente pra uma casinha, depois pra baixo das escadas, pra uma porão. Com um último olhar por cima do ombro, ele abriu a porta, fechou e trancou assim que a gente entrou.'Me ajuda a tirar essa barricada daqui', ele falou. Eu ajudei ele a empurrar as pilhas de móveis e outros objetos pesados que ele tinha usado pra fazer a barricada de volta pro lugar. No fim, a gente conseguiu relaxar um pouco, e o James me levou pra cima, onde todas as janelas estavam fechadas e as persianas e cortinas estavam abaixadas.'De quem é essa casa?' eu perguntei, olhando em volta confusa.
James só deu de ombros, largou a mochila na mesa da cozinha e começou a revirar, procurando latas de comida. 'Não sei. Eu só fui testando as portas, e a porta da porão dessa casa tava destrancada.'
Fiz uma cara feia, olhando em volta. Não tinha fotos nem nada fora do lugar. Os móveis eram poucos. Devia ser aluguel — ou talvez fosse só o que eu tava falando pra mim mesma, pra não me sentir tão mal por ter tomado a casa de alguém.
Quando o James abriu umas latas de sopa e esquentou no fogão, eu comecei a fazer umas perguntas.
'Onde você tava quando começou?' eu perguntei. 'E como você foi parar aqui?'
James soltou uma risada irônica. 'Eu tava na cidade, ainda bem. O ataque começou no campus, então demorou um pouco pra se espalhar. A galera começou a fazer as malas e vazar da cidade assim que o primeiro grupo de lobos apareceu, mas eu me escondi. Não ia ter pra onde eu ir, saca?'
'E seus pais?' eu perguntei. 'Não podia ter ido pra casa deles?'
De repente, James congelou quando eu falei dos pais dele. Não consegui entender direito se era só um assunto sensível pra ele, ou se ele não tava me contando tudo. Pensando na carta do pai dele sobre os 'negócios da família', me fez pensar se ele ficou aqui de propósito.
No fim, ele só balançou a cabeça. 'Achei que era melhor ficar por aqui', foi tudo que ele disse. Decidi não perguntar mais nada. Fiquei olhando enquanto ele colocava a sopa em duas tigelas, depois me entregou uma. Eu não tinha percebido antes, mas tava morrendo de fome.
Comemos em silêncio por um tempo, antes do James me levar pra cima, onde tinha dois quartos. Parecia que ele já tinha pegado um, então eu fiquei com o outro.
Ainda bem que não demorou tempo suficiente pra cidade ficar sem luz ou água encanada, então, apesar de termos que apagar as luzes pra não sermos vistos, eu ainda consegui tomar um banho… E depois de tudo que eu passei, a água quente caindo no meu corpo era muito necessária.
Quando terminei, saí e me sequei antes de voltar pra sala, onde ouvi o barulho do James batendo em alguma coisa de metal. Descendo as escadas, vi que ele tava sentado na sala.
E tava limpando a arma dele.
Ele não me viu no começo. Tava sendo tão meticuloso, quase robótico. Eu fiquei observando da escuridão enquanto ele limpava, devagar e metódico, cada parte, depois colocava tudo de volta.
Aí… Ele carregou. Eu vi de relance a caixa de balas; eram de prata.
Pra matar lobisomens.
'James', eu falei sem pensar, saindo das sombras, 'essas balas são de prata?' Minha voz tremia quando eu falei.
James só balançou a cabeça e continuou focado no que tava fazendo. 'Lógico', ele respondeu.
Eu senti um buraco começar a se formar no meu estômago. 'James… Esses são nossos colegas de sala.'
'Não mais.' Ele terminou de carregar a arma, depois, pra meu horror, engatilhou. Depois olhou pra mim com um sorrisinho meio sinistro no rosto. O buraco no meu estômago aumentou enquanto eu olhava pra ele. No escuro, com só a luz fraca de uma lâmpada, ele parecia quase demoníaco. Metade do rosto dele tava com um brilho âmbar, enquanto a outra metade tava tão escura que eu nem conseguia ver direito.
'Mas eles podem ser curados', eu continuei. 'A Tiffany fez um antídoto. Acho que funciona. Se a gente achar a maleta médica dela, eu sei que ela tinha um monte. E além disso, tem lobisomens que tão do nosso lado —'
James se levantou e foi andando devagar até mim. 'Nina', ele falou baixinho, esticando a mão e apertando meu ombro, me dando um arrepio na espinha, 'eles não vão melhorar. Não existe antídoto, não existe lobisomem do nosso lado. São todos monstros. Precisam ser purificados.'
'P-Purificados?' eu gaguejei. 'Ninguém pediu por isso. Você podia pelo menos tentar o antídoto e ver por si mesmo.'
James ficou em silêncio por um minuto. O ar entre a gente tava tão denso e pesado que eu senti que ia sufocar, enquanto ele continuava me encarando. Ele deu um passo pra frente, depois outro, me encostando na parede.
'Você sabe', ele disse com um sorriso seco, 'eu sei que você é uma deles. Tô te observando faz um tempo; sei que você tá mostrando uns sinais. A velocidade, as habilidades de cura… Eu te dei um desconto, né. Sabia que você era inocente, e que não pediu pra virar monstro. Você nunca mostrou nenhum sinal de transformação, então achei que se eu conseguisse te afastar do Enzo e fazer você ver como ele é mau, você ia entender. Eu gosto de você, Nina. A gente faz um bom time; pensa em quantos monstros a gente ia conseguir derrubar nós dois juntos.'
Fiz uma cara feia, balançando a cabeça enquanto meu coração acelerava mais ainda e uma onda de náusea me invadia.
'Não', eu sussurrei. 'Isso não é verdade. Esse não é você, James. Seja o que for que seu pai te falou—'
'Meu pai?' James perguntou com uma risada. 'Não tem nada a ver com ele. Eu não tô nem aí pro que ele quer. Mas minha mãe… Minha mãe não pediu pra ser assassinada por um lobisomem. E eu tô decidido a acabar com todos esses monstros um por um por ela. Se você só vai atrapalhar, então…'
Ele fez uma pausa, me encostando mais no canto, enquanto o rosto dele escurecia.
'…Vou ter que te matar também.