Capítulo 174 Passando o Bastão
Mais tarde naquela noite, o resto da galera foi pro nosso dormitório pra nossa reunião. Lori, Jessica e eu preparamos algo pra todo mundo comer, apesar de já estarmos ficando sem comida, né, com o mercado todo vazio e tal. Sorte que o Matt e os outros trouxeram o que conseguiram achar nos próprios apês, e o Enzo sumiu pro dele rapidinho e voltou com umas garrafas de vinho que ele tinha guardado. No fim das contas, a gente conseguiu juntar uma refeição que deu pra todo mundo. Enquanto a gente comia e batia um papo na mesa, tomando vinho, eu gostava de imaginar que a Tiffany tava olhando pra gente, sorrindo. Eu sabia que ela não ia querer que a gente ficasse de luto por ela, mas sim celebrar a vida dela e o antídoto incrível que ela fez, que salvou a nossa escola; e foi exatamente isso que a gente fez.
Ainda tinha, claro, aquela conversa tensa que ia rolar no fim da festa; não só sobre o que a gente ia fazer com as cidades vizinhas, mas também o fato de que o Enzo ia ter que ir embora de manhã. Ele decidiu antes da festa não falar sobre isso até o final, pra todo mundo curtir a companhia uns dos outros. Eu, no entanto, não conseguia parar de pensar nisso. Toda vez que eu olhava pra ele, a única coisa que eu conseguia imaginar era o rosto dele desaparecendo por um portal, pra nunca mais ser visto. Se a Selena conseguisse o que queria com ele, ele podia nunca mais voltar. Nenhum de nós aqui sabia como abrir um portal, e o Luke tava sumido desde que, aparentemente, protegeu o Enzo do Edward no reino dos lobisomens. Se acontecesse alguma coisa com o Enzo e ele não pudesse voltar, eu não ia ter como ir atrás dele.
A noite foi passando, e a Lori e a Jessica viram meu desconforto e, finalmente, parece que não aguentaram mais. Enquanto todo mundo tava rindo, ouvindo música e jogando baralho, eu senti uma batidinha no meu ombro e levantei do sofá pra ver a Lori e a Jessica paradas atrás de mim, com uma cara preocupada. As duas balançaram a cabeça em direção ao meu quarto, indicando que eu fosse com elas.
Sozinhas, elas finalmente perguntaram o que tava rolando.
"O que tá acontecendo com você?" a Lori perguntou, com a preocupação estampada na cara. "Tá escondendo alguma coisa?"
Eu balancei a cabeça, olhando pro chão; mas elas não se contentaram. "Fala a verdade", a Jessica insistiu, cruzando os braços. "Vai. Você prometeu que não ia ter mais segredos quando contou sobre os lobisomens pra gente."
Finalmente, eu suspirei, sabendo que elas não iam deixar isso pra lá… E, admito, eu precisava conversar com alguém.
"O Enzo vai voltar pro reino dos lobisomens", eu finalmente admiti. "Amanhã de manhã."
Os olhos da Jessica e da Lori arregalaram. "Quê?" a Lori sussurrou. "Por quê? Você não tá falando sério!"
Eu assenti. "Ele tem que voltar pra achar o pai dele. A princesa — minha irmã gêmea, aparentemente — pode ter feito alguma coisa com o pai dele, e ele precisa achar ele. E… eu tô preocupada que ele não volte."
Minhas amigas ficaram em silêncio por um momento, processando. Aí, sem falar nada, a Jessica foi pra perto de mim e me abraçou. Eu relaxei no abraço dela, confortada pelo toque da minha amiga. "Eu acredito que o Enzo te ama mais do que tudo", a Jessica disse baixinho, fazendo carinho no meu cabelo enquanto eu fungava e tentava segurar as lágrimas. "Eu sei que ele vai voltar. Você confia nele, né?"
Me afastei um pouco, concordando com a cabeça enquanto enxugava as lágrimas na manga da blusa. "Sim, confio. Mas…"
"Mas nada", a Lori falou, indo pra perto e apertando meu ombro. "Ele vai voltar. Você não precisa se preocupar."
Eu não sabia se minhas amigas estavam certas. Elas podiam estar completamente erradas; por tudo que eu sabia, o Enzo podia entrar naquele portal e morrer do outro lado, e eu nunca mais ia ver ele ou saber o que aconteceu com ele. E meu lobo ainda não existia, então eu nem podia seguir o cheiro dele ou descobrir como abrir um portal, por mais que eu tentasse. Eu tava impotente, igual no começo do semestre. Uma humana.
Mas, ao mesmo tempo, as palavras das minhas amigas foram reconfortantes e exatamente o que eu precisava ouvir. O apoio delas ia ser suficiente pra eu superar isso, e eu tinha certeza disso.
…No fim da festa, finalmente chegou a hora da nossa reunião oficial. Todo mundo tava meio tonto por causa do vinho, mas pra mim, parecia quase necessário, pra gente aguentar o que ia rolar, enquanto a gente se reunia na sala.
Assim que todo mundo ficou pronto, o Enzo se levantou e falou com todo mundo.
"Antes de começar, eu tenho um aviso", o Enzo falou, olhando pra todo mundo. Eu podia ver que o corpo dele tava tenso, se preparando pra anunciar sua partida potencialmente fatal. "Sinto muito em dizer isso", ele continuou, "mas eu vou embora amanhã. Eu preciso voltar pro reino dos lobisomens pra achar o meu pai."
Um silêncio palpável tomou conta da sala. O ar parecia pesado, e como se anunciar aquilo tivesse tirado o fôlego dele, o Enzo sentou de volta do meu lado. Eu estiquei a mão delicadamente e apertei a perna dele, mas quando ele olhou pra mim, só tinha dor nos meus olhos.
"Mas, enquanto eu estiver fora, Matt, eu quero que você tome conta", o Enzo finalmente falou.
"E-Eu?" o Matt perguntou, com os olhos arregalados.
O Enzo concordou. "Sua coragem e liderança foram fundamentais pra salvar não só a gente, mas o campus e a cidade. Acho que todos concordamos que você é mais do que capaz de agir no meu lugar enquanto eu estiver fora. Eu tô te nomeando meu Beta de agora em diante."
Os olhos do Matt arregalaram mais ainda. Ele olhou pra todo mundo, claramente chocado, enquanto a gente concordava com a cabeça. Se não fosse o Matt ajudando todo mundo a se unir e tomando a frente quando a gente precisava, e se não fosse o Matt liderando os Crescents pra longe e arriscando a vida dele, a gente não ia conseguir fazer o que ele fez.
"Hum… Obrigado", o Matt falou, em pé. "É uma honra."
"Obrigado, Matt", o Enzo respondeu. Eles apertaram as mãos, e sentaram de novo. "Agora… Sobre as cidades vizinhas…"
Aí, fui eu quem falou. "Eu vou fazer de tudo pra replicar a receita da Tiffany pro antídoto", eu falei. "A gente vai precisar de muito se for curar mais gente."
O Enzo concordou. "Isso parece um plano. Tomara que, quando estiver pronto, eu já tenha voltado. Mas, se não…" Ele fez uma pausa, lambendo os lábios e olhando pro chão. E, de repente, antes que ele pudesse dizer alguma coisa, a Jessica entrou no assunto.
"Você vai voltar", a Jessica disse, parecendo um pouco séria. "Então, quando você voltar, a gente vai discutir nossos próximos passos."
Foi uma coisa ousada pra Jessica dizer, mas de alguma forma, fez sentido no momento. A gente não ia conseguir nada se tivesse medo de que o Enzo voltasse; e se ele não voltasse, então a gente sabia que o Matt podia ajudar a gente, junto com a opinião de todo mundo.
O Enzo, pra minha surpresa, concordou. "Tudo bem", ele disse, com a voz solene, mas esperançosa. "Quando eu voltar, a gente vai fazer o que for necessário pra salvar as cidades vizinhas dos Crescents. Enquanto isso, a Nina vai fazer mais antídoto pra gente estar preparado."
Com isso, nossa reunião acabou. Nenhum de nós dormiu naquela noite, até que o vinho fez com que fosse muito difícil resistir, porque a gente queria aproveitar esse breve momento de paz antes do Enzo ir. E naquela noite, enquanto eu tava sentada do lado do Enzo, eu só podia rezar pra que ele voltasse em segurança pra mim.