Capítulo 208: Plano B
Eu, Nina, não tinha certeza do que rolou naquela noite depois que Matt, Lori e Jessica vieram me resgatar. Eu tava muito bêbada e abalada com o rolo, deixando minha cabeça toda confusa e fora de órbita. Só lembrei de ir pra casa e cair na cama, e, ainda bem, não acordei na floresta de novo naquela noite. Mas acordei sem cerimônia com o barulho de alguém batendo na minha janela. Quando abri meus olhos cansados, a primeira coisa que me chamou a atenção foi uma baita dor de cabeça por causa do álcool. Depois disso, percebi o que — ou melhor, quem — tava batendo na minha janela. Luke. Geme quando o vi e sentei devagar. Claro que fiquei feliz em ver que meu amigo tinha voltado da missão pra testar o antídoto, mas tava tão de ressaca que cada movimento me fazia sentir que ia vomitar. Na real, quando abri a janela e deixei ele entrar, já tava sentindo o vômito subindo na garganta e quase cheguei no banheiro a tempo de não botar tudo pra fora. Quando terminei, gemi mais uma vez e dei descarga. Fiquei sentada onde tava no chão, vai que eu vomitasse de novo, o que era bem capaz, e encostei minha cabeça na parede atrás de mim. Uma camada fina de suor tinha se formado no meu rosto, fazendo minha franja grudar na testa, que nem tava legal. 'Nossa," disse Luke, chegando perto de mim com cuidado e com uma cara de nojo. 'Você tá péssima. O que aconteceu?" 'Ah, valeu," murmurei, fechando os olhos; até a luz fraca da minha luz noturna do banheiro tava forte demais pros meus olhos e piorava minha dor de cabeça. 'Bebi demais ontem à noite." Ouvi o Luke suspirar, e depois senti a mão dele batendo na minha cabeça algumas vezes. Quando abri meus olhos de novo, vi ele me encarando com aquela mesma cara de nojo. O braço dele tava esticado na minha frente enquanto ele tentava me consolar batendo na minha cabeça, como se não quisesse chegar perto. Eu também não gostava da visão e do cheiro de vômito, então entendi a cautela dele. Ser um esqueleto morto-vivo também significava que ele não tinha experimentado as funções normais do corpo em mais de cem anos. 'Então… Como foi?", perguntei, falando sobre o teste com o antídoto. Luke sorriu. 'Funcionou perfeitamente," ele disse. 'Consegui curar várias pessoas, na verdade. Tinha umas casas seguras com outros sobreviventes que foram montadas na cidade que eu fui, então as pessoas que curei foram pra lá por enquanto." Não consegui não sorrir no meio da dor. 'Boa," respondi. 'Acho que consigo fazer mais agora. Quantos sobreviventes tinham?" 'Uns bons, na real," respondeu Luke. 'Falando nisso, foi só uma cidade que eu visitei e tem outras cinco; também tem uns bandidos rodando pelo interior. No caminho de volta, vi umas duas alcateias deles rodando bem perto de Mountainview. É só uma questão de tempo até eles voltarem pra cá e morderem mais gente." Balancei a cabeça, engolindo com dificuldade apesar da dor de garganta. 'O time de hóquei tá patrulhando os arredores por enquanto," eu disse. 'Mas a gente vai precisar fazer mais do antídoto rápido, antes que saia do controle de novo." Olhei pro relógio digital na minha mesa de cabeceira e vi que eram só quatro da manhã, e com outro gemido, me levantei e fui mancando pro armário, passando pelo Luke. 'O que você tá fazendo?", ele perguntou quando comecei a revirar o armário atrás de um par de jeans e um suéter. 'Não vai agora, né?" 'Tenho que ir," respondi. 'Preciso deixar esse antídoto pronto. Se eu trabalhar rápido, consigo fazer um monte até o fim do dia." Luke franziu a testa e veio pra perto de mim. Pegou no meu pulso no momento em que eu tava pegando meu boné e me parou. 'Você precisa descansar," ele disse. 'Não pode misturar nada se tá doente desse jeito. Um dia não vai fazer diferença." Balancei a cabeça. 'Você não entende. Preciso fazer isso. É a única coisa que não posso falhar." Naquele momento, Luke inclinou a cabeça e franziu a testa. 'Como assim?", ele murmurou. Uma lágrima veio nos meus olhos, e pisquei rápido pra ela ir embora. Afastei meu pulso e sentei na beirada da minha cama, olhando pros meus pés enquanto tentava pensar em como começar a falar sobre o que rolou com Enzo na festa. 'Eu fiz merda ontem à noite," sussurrei, com um soluço subindo no meu peito e me fazendo perder o fôlego por um momento. 'Não consegui fazer o Enzo lembrar de mim. Tentei, mas… falhei. A Selena deve ter fortalecido o feitiço dela nele." 'Então tenta de novo," Luke insistiu. Agora, não consegui me segurar e comecei a chorar. No meio das lágrimas, dei um olhar irritado pro Luke, mas ele só me encarou sem piscar, com os braços cruzados no peito. 'A Selena provavelmente vai levar ele embora agora que eu tentei." Dei uma pausa, sentindo outro soluço prender na minha garganta, e fechei as mãos em punhos enquanto cravava as unhas nas minhas palmas. 'É tarde demais. Ele provavelmente já contou tudo pra ela e ela vai abrir um portal e levar ele embora." Luke zombou, incrédulo. 'Sério, Nina?", ele disse, parecendo irritado. 'Tá desistindo tão fácil? Onde foi parar a garota teimosa que eu conheço?" 'O quê?", sussurrei, limpando o nariz com as costas da mão. 'Você tá desistindo muito fácil," respondeu Luke com firmeza. 'Só tentou uma vez, e beleza, falhou. Mas pode tentar de novo." 'Mas e se ela for com ele antes que eu tenha chance?", perguntei. Luke balançou a cabeça e suspirou. 'Pra isso que servem os amigos, burra," ele respondeu. 'Enquanto eu tava fora, encontrei uma Bruxa. Ela era até bonitinha, na verdade… Mas isso não importa. O que eu tô querendo dizer é que falei dela e da Selena, e ela disse que ia nos ajudar." 'Ajudar como?", sussurrei. 'Bom, não só ela me ensinou um feitiço que posso jogar na Selena pra impedir ela de abrir portais, mas você mencionou que sua loba tava sumida, né?" Balancei a cabeça, pensando no que aconteceu no beco na noite anterior. Na real, até agora eu ainda conseguia sentir um pouco da presença da minha loba. Será que o Luke e a Bruxa conseguiram achar minha loba de alguma forma? 'Ela mencionou que pode ser uma maldição que tá fazendo sua loba ficar dormente. Agora, não tenho certeza se funcionou, mas ela fez uma espécie de ritual, e disse que ia ajudar um pouquinho. Pelo menos por enquanto. Eventualmente, você vai ter que achar a Bruxa que jogou a maldição em você pra começar se quiser quebrar ela, mas vai ajudar um pouco. Você notou alguma coisa diferente?" 'Ontem à noite, senti a presença da minha loba," respondi. 'Consegui pegar um pouco da força dela quando precisei. Meus olhos brilharam. E… consegui sentir o cheiro do Enzo, mesmo de longe." Luke sorriu de novo e abriu as mãos como se dissesse 'Viu?". 'Então… A Bruxa conseguiu aliviar um pouco da maldição?", murmurei. Luke concordou. 'Sim. Parece que sim. Por enquanto, pelo menos; como eu disse, você não pode levantar a maldição original sem encontrar a Bruxa que jogou a maldição, e provavelmente não vai conseguir restaurar sua loba por completo até lá, mas o que importa é que você conseguiu pegar energia suficiente da sua loba pra sentir o cheiro do Enzo. O que significa…" Meus olhos se arregalaram. 'O que significa que o Enzo consegue sentir meu cheiro," respondi, em pé. Luke só sorriu. Eu também não consegui não sorrir, e me vi jogando os braços em volta dele e abraçando-o forte. Talvez, se eu pudesse usar meu cheiro pra trazer o Enzo pra perto de mim, isso pudesse quebrar esse feitiço mais forte que a Selena jogou nele; e não só isso, mas se o Luke realmente pudesse jogar um feitiço na Selena pra impedir ela de abrir um portal, então isso me daria mais tempo. Agora, pela milionésima vez na minha vida, eu tava muito feliz por ter amigos tão incríveis. Era uma doideira pensar que eu tinha feito amizade com um esqueleto falante, mas isso me encheu de alegria. Só precisava esperar agora o Enzo sentir meu cheiro e vir até mim. Aí, eu tinha certeza que ele ia conseguir se lembrar de mim.