16. Um Jogo de Lobos
A Empregada parecia nervosa, sem saber o que fazer, e eu congelei, com medo de tocar na entrada na minha frente.
O que a Elena ia dizer? Será que ela ia contar pros lobos reais que tinha rolado um b.o. na mansão do Elias? Ninguém podia saber!
De repente, o Elias meteu a colher na minha tigela de sopa e provou. A atitude dele fez todo mundo ficar olhando, tipo, chocados.
O Elias fez um barulhinho suave, de aprovação, e me olhou. "Tá tudo bem, Dalila. Pode comer", ele falou.
A Elena suspirou, agarrando a colher com força. "Você foi descuidado, meu rei."
"Obrigado pela sua preocupação com a Dalila." O Elias concordou com a cabeça. "Mas não precisa se preocupar."
Eu olhei pro rei, chocada que ele fosse tão longe por mim. Se alguém tivesse envenenado a comida com acônito e me afetasse, minha morte não ia mudar muita coisa. Mas e se acontecesse alguma coisa com o Elias?
A Elena tava certa — ele tava sendo muito descuidado.
Por que eu tava de repente preocupada com o Elias? Ele não era ninguém especial pra mim. Na verdade, ele era meu mestre, e eu só era a escrava dele. Eu não devia era estar feliz se o Elias morresse, pra eu poder escapar do controle dele?
Mas meu coração tava amolecendo por ele. Que estranho!
"Você tá usando a colher errada", a Elena me falou friamente.
Meus olhos arregalaram, confusa. "Como é que é?"
"Essa não é a colher de sopa."
Agora, a atenção de todo mundo tava em mim, e alguns estavam segurando a risada. Eu não sabia qual colher usar — achei que todas eram iguais.
"Com menos de três meses pra coroação, vai ser um baita desafio. Você tem muita lição de casa pra ensinar pra ela como ser rainha", a Elena comentou, dando uma olhada pro Elias. "Meu rei."
O Elias se virou pra ela e respondeu: "Ela dá conta", depois voltou pra sopa dele.
No canto do meu olho, eu vi uns Alfas escondendo sorrisos; eles com certeza tavam rindo de mim.
O que eu ia fazer? Só sentar ali, que nem uma marionete feita só pra sorrir?
"Tem algum tipo de academia ou escola pra aprender etiqueta?" Eu perguntei, criando coragem.
Eu fiz a pergunta pra quem quisesse responder, mas os Alfas reais murmuraram e sussurraram entre si.
"A gente delega isso pros rangs Sigma e Phi da alcateia. Então a gente não saberia, minha rainha", um dos Alfas reais falou.
Sigma? Phi? Eu nunca tinha ouvido falar desses rangs da alcateia antes. Na minha alcateia antes, só tinha Alfa, Beta, Gama e Ômega. Essa hierarquia me deixou confusa.
"Existe uma Academia de Etiqueta, comandada pelos rangs Sigma e Phi. Mas é só pra filhotes", a Elena acrescentou. "Se você não se importar em aprender com crianças, pode ir amanhã."
Os Alfas reais de novo tentaram segurar a risada.
"É improvável que a rainha vá, Beta Elena. Ia fazer os pequenos se perguntarem por que a rainha tá aprendendo boas maneiras tão tarde", outro Alfa real falou.
Então o Orson acrescentou: "Eles iam perceber que a rainha não é de uma família real, o que ia causar problemas."
Meu rosto queimou de vergonha, como se eu tivesse levado um tapa. Eles tavam me zoando na frente do Elias. Mas o rei continuou indiferente, nem me defendendo. Até a expressão dele continuou calma.
Deusa da Lua, por que eu tô sendo oprimida?
"Não precisa exagerar. Vamos aproveitar a refeição. Tem outras maneiras da Rainha Dalila aprender sobre o reino", o Bispo concluiu.
Eu dei uma olhada pro Bispo, engolindo as lágrimas. O ancião sábio só sorriu pra mim e fez um gesto pra eu continuar comendo.
"Obrigada, Bispo", eu sussurrei.
*
Eu tava exausta quando saí do carro, arrastando os pés. Hoje me acabou. De repente, o Elias pegou no meu braço, quase me derrubando na porta da frente.
"Eu falei pra você ficar quieta!" O Elias berrou.
Eu tava cansada demais pra responder, então só abaixei a cabeça.
"É tão difícil pra você seguir minhas ordens, Dalila? Você é uma Ômega teimosa!"
Eu tirei meu braço da mão dele. "Para de me chamar assim! Meu pai devia ser Beta, e eu ia ser a Luna da minha alcateia!"
"Mas você não virou a Luna daquela alcateia! E seu pai pode nem ser Beta agora. Então qual é o seu status de verdade?"
Eu fiquei em silêncio.
"Responde, Dalila!" ele exigiu.
"Ômega..."
"E quem te fez Luna?"
"Você, meu rei."
"Então, pelo menos finja que faz bem o seu papel." O Elias zombou. "Imagina que vergonha você ia passar se fosse mesmo uma Luna. Desastrada, teimosa e lerda."
Eu segurei as lágrimas porque as palavras dele doíam muito. Eu não queria que ele continuasse me empurrando e me rotulando de Ômega fraca. Eu tava cansada demais pra aguentar as palavras dele duras.
"Você tá certo, meu rei. Eu não mereço ser Luna", eu falei baixinho. "Nenhuma Ômega merece ser Luna. Ia envergonhar toda a alcateia, né?"
O Elias ficou em silêncio por um momento, aparentemente surpreso que eu não reagi na defensiva. Então ele suspirou e concordou com a cabeça rapidamente: "É bom que você perceba isso."
O Vincent chegou, parecendo surpreso de me ver na porta com o Elias. O Elias se virou pra ele imediatamente.
"Preciso falar com você, Vincent. Mas primeiro, diga pra Empregada me trazer uma xícara de chá no meu escritório", o Elias ordenou. "Tô tenso."
O Vincent concordou. "Sim, meu rei."
Eu aproveitei a chance pra acabar com essa conversa dolorosa com o Elias.
"Com licença, meu rei", eu falei.
Eu corri pra seguir o Vincent, que diminuiu o passo pra andar do meu lado. Graças a Deus o Elias não me forçou mais, me dando uma escapada.
"Vou pedir pra Empregada levar chá pro seu quarto, minha rainha", o Vincent falou, quebrando o silêncio.
Eu olhei pro Vincent. "Não precisa."
"O Rei Elias tá sob muita pressão, e você também."
Eu forcei um sorriso. "É melhor você focar no Rei Elias, Vincent. Ele precisa mais do que eu."
"Minha rainha, o Rei Elias raramente pede chá quando tá estressado. Ele geralmente pede uma xícara de café forte, amargo." O Vincent riu baixinho. "Sabe o que eu quero dizer?"
Eu balancei a cabeça. "Não. Talvez ele só tava com vontade de chá hoje."
"O Rei Elias na verdade pediu chá pra você, não pra ele."
Dessa vez, eu olhei pro Vincent, chocada. Será que o Vincent tava dizendo que o Elias tava cuidando de mim, secretamente? Não é possível!