104. A Ameaça
Voltar pros aposentos das empregadas e comemorar essa pequena vitória foi mó bom. Quando saí do salão, peguei a cara amarrada da Catherine, e foi tão bom ver ela toda derrotada.
"Você tá pedindo pra se meter em encrenca", a Vovó falou preocupada. "Rainha Catherine pode vir atrás de você, Dalila."
"Eu só fiz o que tinha que fazer", eu respondi.
"Você não devia ter defendido a Gema."
Claro, ouvindo as palavras da Vovó, Gema e Cassie ficaram quietas na hora. Principalmente a Gema, que ficou com o rosto vermelho de raiva contida.
"Você é que causou a confusão, então devia se responsabilizar por isso!" a Vovó acusou. "Rainha Catherine vai ficar de olho em todas nós agora, e é tudo por sua causa!"
"Eu já tinha aceitado meu destino quando Rainha Catherine me mandou mentir, Vovó!" Gema explodiu. "Mas Dalila me defendeu! Agora eu sei quem são meus amigos de verdade e quem não são!"
"Eu não sou contra você! Mas suas ações colocaram todas nós em perigo!"
A tensão entre elas subiu, e eu rapidamente entrei no meio pra acabar com a briga.
"Chega!" eu gritei. "Se alguém é pra ser culpada, sou eu!"
Gema e Vovó ficaram quietas, parecendo desconfortáveis.
"Não, Dalila. Eu fui descuidada. Esqueci de colocar o líquido em outra xícara, e você bebeu", Gema admitiu.
Sim, Gema não lembrava que eu troquei as xícaras. Ela achou que colocou o chá em três xícaras. Bom, se alguém fosse culpada, devia ser eu.
"Já chega. A gente não pode só se dar bem e trabalhar como sempre?" Cassie interrompeu. "A gente não prometeu cuidar uma da outra?"
A Vovó só zombou, ainda claramente chateada.
"Dalila fez algo corajoso — algo que nenhuma de nós teria coragem de fazer. Então, parem de brigar. Pelo menos ela tava tentando evitar que a gente se separasse, certo?" Cassie adicionou.
Gema deu uma leve concordada. "Sim, eu sei."
"A gente devia ir pro portão e esperar a Rainha Catherine. Ela vai estar aqui a qualquer minuto", Cassie sugeriu.
De repente, a porta do nosso quarto foi chutada, e todas nós gritamos em choque. Benson entrou correndo, me agarrou pelo cabelo e me arrastou pra fora.
As empregadas gritaram de horror, chamando meu nome.
Meu corpo foi jogado contra a parede, e a dor explodiu por mim. Eu tossi fraco e levantei a cabeça.
Benson, Tracy e Wanda já estavam no corredor.
"Sua vaca!" Benson cuspiu e marchou na minha direção.
Ele me chutou forte na barriga, e eu me esforcei pra aguentar a dor. Ele continuou me chutando repetidamente antes de me levantar e me arrastar pelo corredor.
"Acha que agora é heroína? Achou mesmo que ia escapar dessa?" Benson rosnou.
"Me solta!!" eu gritei.
"Eu te solto quando você estiver morta!"
Benson me jogou no quarto da Rainha Catherine, onde a falsa rainha estava sentada quietamente na sua cama. Seus olhos afiados se estreitaram quando ela me viu sendo espancada, mas ela não disse nada.
"Já chega", Catherine finalmente ordenou.
Eu me esforcei pra sentar, meu corpo inteiro doendo por causa da agressão do Benson.
"Você não devia pegar leve com ela, Mãe", Wanda zombou. "Eu te falei — banir ela do palácio é melhor. Deixa o Benson caçar ela e acabar com ela lá fora. Ela é tipo uma sanguessuga, grudada no Pai!"
Essas criaturas malditas... Então elas tinham planejado tudo isso.
"Eu tenho minhas próprias decisões", Catherine respondeu friamente. "Não questionem minhas decisões. Vocês não têm esse direito, Wanda."
Por que parecia ter tensão entre essa mãe e filha?
"Dalila, se eu te pegar causando problemas de novo, não vou ser tão tolerante", Catherine avisou.
Nossos olhos se encontraram, e eu cerrei os dentes, engolindo a dor e a raiva.
"Eu não vou te machucar nem me livrar de você", Catherine sorriu. "Mas você vai se arrepender de tudo que fez se alguma coisa acontecer com Elias, certo?"
Ela sabia!
Catherine sabia que eu queria proteger Elias. Ela sabia da minha fraqueza; era Elias.
"Então, se você se importa com seu rei, então obedeça. Você entendeu?" Catherine sibilou.
"O que você vai fazer com o Rei Elias?" eu perguntei, minha voz tremendo enquanto eu sentia a aura aterrorizante emanando da Catherine.
"Eu posso fazer o que eu quiser." Ela sorriu de novo. "Tira ela daqui. Garanta que ela faça o trabalho dela direito como minha empregada."
Benson me levantou e me arrastou pra fora do quarto, dando um último chute antes de voltar e bater a porta.
M enquanto eu cambaleava de volta pro nosso quarto, as empregadas correram e me ajudaram. Eu podia ouvir elas soluçando ao ver meu corpo machucado.
"Pra quem a gente pode recorrer? Isso é cruel demais pra Dalila", Cassie soluçou.
"Tudo bem, eu vou ficar bem", eu sussurrei.
"Se a gente contar pro Rei Elias, todas nós vamos estar mortas amanhã", a Vovó sussurrou. "Então, fiquem quietas!"
Em vez dos meus ferimentos, minha mente estava ocupada com algo muito mais aterrorizante, o que Catherine estava planejando fazer com Elias?
De volta ao quarto, eu caí na minha cama, a dor latejando ainda mais intensamente.
Em alguns dias, a dor e os hematomas iam sarar. Não importava.
Catherine estava me usando pra manter Elias sob controle, assim como ela estava usando Elias pra me manter sob controle. Essa loba era insana!
Devo falar com Vincent?
Mas Catherine deve ter espiões em todo lugar. Se eu falasse com Vincent, ela ia lançar seu ataque. O problema era que eu não tinha ideia de que tipo de poder Catherine tinha sobre Elias.
Ou Bispo?
Eu duvidava que o plano do Bispo de me fazer trabalhar sob ele fosse dar certo agora. Catherine estava determinada a me manter sob seu controle.
Seria difícil discutir isso com o Bispo. Se eu tentasse, ele ia ser vigiado.
A imagem do Michael passou pela minha mente.
Michael podia me ajudar?
*
No dia seguinte, ao amanhecer, eu carreguei uma cesta de roupa suja do quarto da Rainha pra parte externa do palácio.
Eu passei pelos portões que levavam para o quarto do Bispo e a residência de sua família e fui em direção ao jardim. Seu quarto ficava de frente para o jardim, e eu tentei me lembrar de qual janela pertencia ao quarto de Michael.
"Qual é o quarto dele?" eu murmurei, examinando a fileira de janelas.
"Tenta a que está aberta", Lona sugeriu. "Você podia entrar por ela."
"Boa ideia."
"No caso de você ser pega e decapitada, talvez eu devesse dizer adeus agora", ela adicionou sarcasticamente.
"Isso não vai acontecer."
Eu coloquei a cesta perto dos arbustos e subi na beira. Não foi muito difícil; eu consegui.
Depois de alguns minutos, eu cheguei na janela aberta e inalei um cheiro familiar. Michael!
Eu entrei e encontrei Michael dormindo profundamente na sua cama. Eu corri até ele.
"Michael", eu sussurrei, balançando o ombro dele.
Seus olhos se abriram, e nossos olhos se encontraram por um momento antes dele acordar assustado.
"Porra! O que você tá fazendo aqui?" ele sibilou.
Eu coloquei um dedo nos meus lábios, e ele se acalmou imediatamente. Ele sentou na cama e me olhou desconfiado.
"Você não bebeu aquela poção de novo, né?" ele perguntou.
Eu balancei a cabeça. "Não, por que você tá dizendo isso?"
"Então, por que você tá aqui?" Michael suspirou. "Você é louca, Deli!"
"Mas eu preciso da sua ajuda."
Michael pulou da cama e correu até mim. Sua mão tocou meu rosto gentilmente.
"Quem fez isso com você? Rainha Catherine te machucou?" ele perguntou.
"Benson."
"Aquele bastardo?"
"Chega disso. Tem outra coisa que eu preciso falar", eu desviei, mudando o assunto.
Michael pegou minha mão e me puxou pra beira da cama ao lado dele.
"Rainha Catherine disse abertamente que pode machucar o Rei Elias se eu desafiá-la de novo", eu revelei. "O que ela pode fazer, Michael? O que eu posso fazer?"
"Por que ela disse isso?"
"Porque minha fraqueza é meu companheiro."
Michael ficou em silêncio por um momento, então se virou pra mim com descrença. "Você? Você é a companheira do Rei Elias?"
"Aconteceu quando eu estava prestes a ser coroada."
"Ah, sim, eu lembro da história. Foi um caos total. Meu pai me contou sobre isso."
"Elias e eu não pudemos provar nosso vínculo de companheiros. Então ele não teve outra escolha a não ser fazer Catherine sua rainha."
"Porra, isso é doentio."
"Retorcido..."
Nós dois suspiramos em frustração e deixamos o silêncio se instalar entre nós por um tempo.
"Ela não vai poder fazer nada se você sair daqui, Deli. É só porque você tá aqui que ela tem o poder de te manipular", Michael disse.
"Então você tá dizendo que eu devia ir embora?"
"Sim, e encontrar proteção em outra alcateia", Michael confirmou. "Se você estiver segura lá fora, o Rei Elias vai estar livre pra acabar com a família do Alpha Camden."
Michael estava certo. Os movimentos de Elias eram restritos enquanto eu ficasse, porque ele temia que algo acontecesse comigo. Era isso?
"Mas, Michael, ainda tem um intruso por aqui. Você sabe disso, certo? Eles ainda não foram pegos!" eu argumentei. "E tem traidores perto do Rei Elias. Eu tô com medo que alguma coisa aconteça com ele."
"Então, o que você pode fazer? Você pode proteger o Rei Elias?" Michael perguntou.
"Eu..." Minha língua ficou pesada.
"Claro que não pode, pode? Se você quer proteger seu companheiro, faça do único jeito que você pode, Deli. Ou você sai daqui, ou obedece Rainha Catherine."
"Eu me recuso a ser a marionete da Rainha Catherine!"
"Então saia desse palácio."
Sair do Elias? Mas pra onde eu ia? Eu devia pedir ajuda pro Jeremy?
Se eu pudesse convencer o Jeremy a ajudar o Elias, finalmente podíamos expor os traidores entre os lobos reais. Não era esse o objetivo do Elias desde o começo? Descobrir a verdade por trás dos assassinatos da Luna? Eu tinha certeza que não era uma maldição.
"Eu posso te ajudar a escapar do palácio. Mas você não pode contar pro Beta Vincent, meu pai, ou pro Rei Elias", Michael disse.
Um lampejo de dúvida passou pela minha mente. Por que eu não podia contar pra eles? Michael tinha algum plano próprio? Por que eu tinha dito pra ele que Elias e eu éramos companheiros?
Eu tava começando a desconfiar de todo mundo nesse palácio.
"Exato. E então você pode me matar no momento em que eu sair", eu disse sem rodeios, levantando.
Michael zombou de frustração e se levantou também. Ele passou os dedos pela minha testa.
"Você vai estar mais segura se ninguém souber pra onde você vai, Deli!" Michael insistiu. "Tenho certeza de que o Rei Elias, o Beta Vincent e até mesmo meu pai estão sendo vigiados. Eu posso ser o único que pode escapar dos narizes dos traidores."
Eu permaneci em silêncio, incapaz de discutir.
"Você acha que eu não investiguei o que tá acontecendo aqui? Eu já suspeito de alguns nomes", Michael revelou.
"Quem são os traidores?"