26. A Rainha Renegada
A gente tinha acabado de ter um momento fofo e ia voltar pro quarto, quando o Elias entrou no armário, de repente. Sei lá, talvez ele ainda desconfiasse de mim, mas eu não tinha mais nada pra esconder.
O Elias não tinha falado que sentia tudo o que eu tava sentindo o tempo todo? Como é que eu ia negar alguma coisa se ele podia sentir meu corpo e minha alma?
Ajeitei a roupa e dei uma olhada pro Elias, que tava parado no armário, olhando pra um álbum de fotos velho na mão dele. De repente, ele olhou pra mim, com uma cara de surpreso.
"Você viu essas fotos?" ele perguntou.
"Não foi de propósito." Cheguei perto do Elias, sentindo uma culpa. "Me perdoa, meu rei."
"Por quê?"
Não sabia se ele tava perguntando pra mim ou pra ele mesmo. Em vez disso, ele virou os olhos de volta pras fotos velhas no álbum. Se era algum segredo sinistro, eu não ia olhar de novo.
Além disso, se ele não queria que ninguém soubesse do passado dele, por que guardar isso num armário? Ele não tinha um cofre pra esconder os segredos dele?
"Quantas você viu?" O Elias me mostrou o álbum.
Comecei a ficar desconfortável quando o tom de voz do Elias ficou interrogativo. "Só até a Princesa Imogen Shillingford," respondi.
"Quê? Até onde você cavou?"
Ok, isso não tá bom. Eu tava sentindo a tensão do Elias aumentar, e isso podia dar problema sério se ele não se acalmasse. Eu só tava procurando informação sobre a Victoria, mas acabei vendo outras coisas.
Mesmo assim, eu não sabia nada sobre as pessoas do álbum. Por que ia importar? Eram só estranhos pra mim.
"Eu te falei, não foi de propósito. Não vou olhar de novo," protestei.
Ele apertou os olhos. "Sério? Tem certeza que não tá curiosa? Quem é a Princesa Imogen Shillingford? Por que ela tem um título e o Elias não? Não me diz que isso nunca passou pela sua cabeça!"
Passou pela minha cabeça, sim, mas eu não tinha a intenção de cavar mais fundo. Um pensamento passageiro não é a mesma coisa que o meu foco de verdade. Eu não quero me meter no passado do Elias; já chega!
"Você tá calada, o que significa que você admite!" O Elias acusou.
Ele jogou o álbum no chão e passou por mim, com o ombro, enquanto pegava a camisa dele do chão. O que aconteceu entre a gente pra as coisas terminarem assim? Há cinco minutos, tava tudo bem.
"E se eu soubesse, Meu Rei?" Virei pro Elias, que tava de costas pra mim.
Ele não respondeu; tava ocupado abotoando a camisa.
"E se você não for o herdeiro do trono? Isso machuca seu orgulho? Você já é o rei," completei.
"Que droga!" O Elias xingou. Recuei e dei um passo pra trás, em direção à porta. Ele virou e apontou pra mim. "Sai da minha casa! Vai e nunca mais mostra a cara pra mim!"
A dor me pegou quando o Elias gritou e mandou eu ir embora. Mas eu não resisti. Abri a porta rapidinho e corri pelo corredor o mais rápido que pude. Minha mente tava em branco; eu não sabia pra onde ir. Eu tinha virado parte da matilha do Elias, e agora eu tava abandonada de novo, uma loba renegada pela segunda vez.
Os guardas me olharam com confusão quando eu cheguei no portão da frente. Era estranho me ver vagando por aí no meio da noite.
"Abram o portão, eu quero ir embora," ordenei.
Os quatro guardas trocaram olhares. Um deles falou comigo. "Onde a senhora vai, Rainha? Podemos acompanhá-la."
"Só abram o portão, por favor," implorei, segurando as lágrimas. "Eu preciso ir agora."
"Minha rainha!" uma voz chamou de trás de mim.
O Vincent veio correndo da entrada até o portão, com o rosto cheio de preocupação. Os guardas imediatamente se curvaram pra ele e deram um passo pra trás, sem ousar bisbilhotar.
"Rainha Dalila, por favor, não aja por impulso. Não vá; o que o Rei Elias fez com a senhora foi só uma reação num momento de mau juízo. Ele tem passado por muita pressão ultimamente," falou o Vincent.
Não importa quantos problemas o Elias tivesse, eu não era o escape dele. Só porque eu era uma serva? Meu orgulho inchou de raiva. Se essa é a única desculpa dele pra mim, eu não compro mais.
Balancei a cabeça. "Ele já me expulsou, Vincent. Por que eu ficaria?"
"Mas, Rainha Dalila..."
Meu olhar mudou pros guardas. "Abram o portão. Eu tô indo."
*
Não sei quanto tempo eu caminhei, mas finalmente me encontrei na frente da butique da Eugenia. O andar de baixo tava escuro, mas eu conseguia ver uma luz fraca vindo de uma janela no andar de cima. Criei coragem e subi. Se a Eugenia não estivesse aqui, eu podia até dormir na varanda da loja dela.
Pra onde mais eu ia? Minha mente tava em caos, e eu não tinha outro destino.
Talvez eu pense em alguma coisa amanhã.
Enquanto eu encostava na porta, ouvi a fechadura girar. Pulei pra trás, surpresa, e fiquei em pé. Quando a porta abriu, a Eugenia tava na porta, parecendo tão chocada quanto eu.
"Rainha Dalila?" ela engasgou. "O que diabos você tá fazendo aqui?"
Meu lábio tremeu, e, apesar dos meus melhores esforços pra segurar as lágrimas, eu desabei quando nos olhamos.
"Oh, minha rainha!"
A Eugenia imediatamente passou o braço pelos meus ombros e me puxou pra dentro. Me senti vulnerável pela primeira vez; toda a caminhada da mansão do Elias até a butique da Eugenia tinha sido longa, e eu tinha me forçado a não chorar o tempo todo.
Subimos, e eu sentei no sofá enquanto a Eugenia fazia uma bebida pra mim. Acontece que ela morava em cima da butique dela – eu não sabia.
"O que aconteceu, Rainha Dalila?" a Eugenia perguntou, me entregando uma xícara de chocolate quente.
Respirei fundo. "O Rei Elias me expulsou."
"De repente?" A Eugenia pareceu surpresa. "Ele não faria isso sem um motivo, faria?"
Eu não respondi de imediato. Parecia complicado; eu sabia que tinha cometido um erro. O Elias tinha me perdoado, só pra eu trazer à tona outra coisa que nunca deveria ter sido mencionada.
Eu sabia onde tinha errado e não faria de novo. Não é o suficiente pra ele?
"Minha rainha, sei que estou falando demais, mas a senhora é a luna do Rei Elias, e quando há um problema como esse, a senhora tem que tomar decisões sábias," a Eugenia falou. "Mesmo que ele ordene que a senhora vá embora, a senhora deve ficar ao lado dele. Vocês são um só – ele é você, e você é ele."
Olhei pra baixo. Como isso podia ser? A gente nem tava ligado.
"Seja o que for que o Rei Elias esteja planejando ou fazendo sem o seu conhecimento, provavelmente é para o seu próprio bem, minha rainha," a Eugenia continuou. "O Rei Elias nunca colocaria a vida da sua companheira em perigo conscientemente."
"Eu-eu..."
Tocou uma batida forte na porta da frente, lá embaixo. A Eugenia levantou a cabeça, depois soltou um suspiro.
"Acho que ele tá aqui por você," ela falou.
Eu olhei pra ela, assustada. "Quem? O Rei Elias?"