75. Novo Trabalho para a Escrava
Quando cheguei, a porta do quarto da Catherine estava um pouco aberta. Respirei fundo, soltei o ar rápido e bati na porta, bem baixinho. Dava pra ouvir vozes sussurrando lá dentro; pareciam nem notar minha presença. Bati de novo, dessa vez com mais força, e a porta abriu.
Meus olhos encontraram os da filha da Catherine, que piscou pra mim umas vezes sem falar nada.
"Quem é?" A voz da Catherine veio de dentro.
"A loba."
Por que as palavras dela cortaram tanto?
Talvez ela tivesse ouvido que eu estava fingindo ser a Luna do pai dela. Não foi surpresa nenhuma ela me odiar na hora, ainda mais considerando a história da mãe dela com o Elias.
"Deixe-a entrar", a Catherine mandou.
A filha da Catherine abriu a porta mais e foi até a mãe, que tava sentada na penteadeira enquanto alguém arrumava o cabelo dela.
"O que ela tá fazendo aqui, Mãe?" ela perguntou, me dando outro olhar afiado.
"Preciso conversar com ela sobre uma coisa, Wanda", a Catherine respondeu.
Então o Elias e a filha da Catherine se chamavam Wanda. Tentei lembrar: a última vez que a Catherine e o Elias ficaram foi quando eles tinham vinte e poucos anos. Isso faria a Wanda ter 18? Só um ano mais nova que eu?
O pensamento foi estranho. O Elias tinha uma filha quase da minha idade. Tipo, estar com ele era como ser uma criança com os pais dele? Sacudi a cabeça, tirando esse pensamento ridículo.
A Catherine levantou da cadeira e fez um sinal pra eu chegar mais perto. Ela foi pro sofá enquanto a Wanda ficou atrás dela, me fuzilando com desprezo. A cara da Catherine tava ilegível, fria e indiferente.
"Qual é o seu nome?" a Catherine perguntou.
Eu tinha certeza que ela sabia direitinho quem eu era. Se não soubesse, ela não ia vir pro palácio e atrapalhar minha coroação junto com a Tracy, o Benson e a Evelyn. Ao perguntar meu nome, ela deixou claro que eu não era nada pra ela – alguém insignificante e esquecível.
"Dalila", eu respondi.
"Você vai trabalhar na cozinha. A chefe da empregada vai te dar as tarefas diárias", a Catherine disse, seca. "Não quero saber de mais problemas que você causou. Se considere sortuda por ter escapado com vida."
Só consegui balançar a cabeça. "Sim, Luna Catherine."
Ela fez um gesto com a mão e me dispensou. Quando cheguei na porta, a Wanda começou a falar com a Catherine na hora.
"Ela ser a Luna? O que o rei tava pensando em escolher alguém da minha idade pra ser a Luna falsa? É tão constrangedor", a Wanda disse, amargurada.
"Não culpe o Elias. Tenho certeza que essa mulher o seduziu", a Catherine respondeu.
Apertei o peito e fui embora, rumo à cozinha. Enquanto passava pelas outras empregadas no corredor, os olhares cheios de desprezo delas me furavam. Ia ter que me acostumar com isso.
Só me restava esperar pra ver o que o Vincent e o Elias iam fazer pra me tirar dessa situação horrível.
*
Meu trabalho era descascar frutas e vegetais numa sala apertada que cheirava a lixo úmido. Ninguém entrava lá, a não ser pra pegar o que eu descascava, então eu ficava sozinha do começo da manhã até o meio-dia.
A porta do quarto sempre trancada por fora, então eu me sentia sufocada o tempo todo.
Perdi a noção do tempo até a porta abrir e a chefe da empregada mandar eu sair. A cara dela tava azeda enquanto me olhava, mas eu não me lembrava de ter encontrado com ela antes – ou talvez sim e eu só esqueci.
"Pegue seu almoço e coma fora da cozinha", ela disse, seca.
Balancei a cabeça obediente, peguei uma das sacolas de papel na ilha e corri pra fora pela porta dos fundos. A área tava silenciosa e vazia. Talvez as outras empregadas já tivessem terminado o almoço, me deixando pra comer tarde.
Mas tudo bem. Pelo menos eu tinha esse momento de paz pra mim.
Meu almoço era um sanduíche de pasta de amendoim com geleia de morango. O pão tava meio duro e seco de tanto tempo fora. Uma onda de tristeza me atingiu.
Morando com o Elias na mansão, eu tinha me acostumado com comida melhor, mesmo que ele me machucasse com frequência. Mas, de alguma forma, isso parecia pior – não só a comida, mas o jeito que todo mundo me tratava.
Assim que dei uma mordida no sanduíche, a porta dos fundos da cozinha se abriu. Assustada, vi o Benson e a Tracy saírem. Meu estômago embrulhou. Por que eles estavam ali, num lugar feito pra empregados e escravos?
O sorriso convencido do Benson me disse tudo que eu precisava saber. Levantei rápido e me preparei.
"Comeu a língua do gato, Deli? Não sabe me cumprimentar?" o Benson provocou.
Balancei a cabeça.
"Delta Benson", ele corrigiu, rindo sozinho. "Assim que a Luna Catherine for coroada, o Alpha Camden me prometeu o cargo de Beta, no lugar do Beta Vincent."
Beta Vincent? Sendo substituído? Meu desconforto aumentou. Se isso acontecesse, minha situação no palácio só ia piorar.
"Para de palhaçada, Benson", a Tracy interrompeu, virando o olhar afiado dela pra mim. "Limpe meu quarto e o do Benson. Sem uma pontinha de poeira, ou você vai se arrepender. Entendeu, Dalila?"
"Mas eu ainda tenho trabalho pra fazer. A chefe da empregada mandou eu ficar até as cinco", respondi.
"Como ousa me desafiar?" Os olhos da Tracy brilharam de raiva.
Ela avançou, puxando meu cabelo com tanta força que eu me dobrei. O Benson e a Tracy riram, curtindo minha incapacidade de resistir. Eles tinham me transformado na brincadeira deles, usando o poder que o Alpha Camden tinha dado pra eles.
"Minhas ordens são mais importantes que as da chefe da empregada", a Tracy sibilou no meu ouvido. "Lembre-se disso, sua Ômega estúpida!"
Ela jogou minha cabeça pra trás e soltou a pegada.
O Benson pegou meu sanduíche e jogou no chão, pisando nele com prazer.
"Se seu trabalho não estiver feito até a hora do jantar, você vai sentir minha fúria", a Tracy avisou, com a voz fria.
Eles foram embora, me deixando sozinha. Não tinha mais sentido em salvar o sanduíche – tava sujo e destruído.
"Que droga", eu murmurei, frustrada.
Com fome, mas resignada, fui pro quarto da Tracy.
Ela tinha saído com a Catherine, com destino desconhecido. Depois de andar um pouco, finalmente achei o quarto dela perto do da Catherine.
Quando abri a porta, congelei. O quarto tava uma bagunça, cheio de caixas fechadas e poeira.
Como eu ia terminar isso antes do jantar? Ia levar pelo menos dois ou três dias.
"Vadia", murmurei baixinho, deixando minha irritação escapar.
"Com quem você tá xingando dessa vez?"
Uma voz atrás de mim me assustou.