90. Elias: Para Melhor
Ver a Dalila sorrir para aquele cara fez meu coração queimar de ciúmes na hora. Vincent pigarreou, me forçando a baixar a guarda, e nesse momento, a Dalila virou pra mim.
"Rei Elias."
Era o Michael, filho do Bispo, me prestando respeito.
Havia muito tempo que eu não o via. Agora, ele tinha virado um rapaz. De alguma forma, ele parecia uma ameaça – por estar muito perto da minha parceira. Dalila era minha!
"Se me dão licença, preciso trocar de roupa", disse o Michael apressado.
Eu assenti, e ele saiu rapidinho. Meu foco voltou pra Dalila – e pro dela também. Olhar nos olhos dela me fez derreter na hora. Eu queria pegar o rosto dela nas minhas mãos e provar aqueles lábios macios e doces.
Mas tudo que eu conseguia fazer era cerrar os punhos e manter a distância. Eu não podia deixar a Dalila se machucar de novo, e ficar ali só ia colocar ela em perigo.
"A gente pode conversar um minutinho?", perguntei.
A Dalila baixou os olhos um pouco. "Pode?"
"O Bispo Sênior tá por aqui?" Olhei pra porta do escritório do Ancião.
A Dalila balançou a cabeça. "Não, ele ainda não chegou. Mas as empregadas estão lá dentro, limpando uma bandeja que caiu."
"Nesse caso, vem comigo."
Saí do quarto do Bispo e fui em direção ao jardim ali perto. A Dalila hesitou, provavelmente porque a Catarina e a Evelyn estiveram lá da última vez que a gente se viu.
Mas a Catarina, a Wanda, e todo mundo estava ocupado demais se preparando pra coroação da Catarina, que ia ser em três dias. Eu não tava mais nem aí pro que elas queriam ou faziam.
Eu tinha que fazer o que a Catarina e o Camden queriam porque os lobos reais inevitavelmente iam questionar a legitimidade da Wanda. Então eu tinha que coroar a Catarina como Luna e declarar a Wanda minha filha.
Tudo por causa da bagunça que eu criei ao fazer da Dalila minha falsa Luna, agora eu tava pressionado e preso pelas exigências dos alfas reais. Eles podiam fazer o que quisessem, achando que tinham acobertado meu erro fatal.
Droga!
Eu parei embaixo de uma árvore, garantindo que ninguém pudesse nos ouvir – exceto o Vincent, que tava vigiando. A Dalila ficou parada a uma certa distância, com os olhos fixos em outro lugar, o que fez meu coração doer. A Dalila tinha sofrido demais por minha causa, a ponto de não querer mais olhar pra mim.
"Você já sabe qual é o evento que tá chegando", comecei.
A Dalila assentiu fracamente. "Sim, eu sei, meu rei."
"Você tem que entender que essa é a única solução temporária pra aliviar o caos do passado, Dalila", expliquei. "E eu decidi – eu vou te libertar no dia da coroação."
Nessa vez, eu tinha que deixar a Dalila ir. A única mulher que eu amei depois da Catarina, a Dalila, era minha parceira, e agora eu tinha que libertá-la também.
A Dalila me olhou por um momento, em silêncio, com os olhos cheios de lágrimas não derramadas.
Eu sentia falta dela. Eu queria abraçá-la e nunca mais soltá-la. Eu queria deitar do lado dela o dia todo, respirando o cheiro de lavanda que grudava na pele dela. Mesmo estando tão perto, eu tava quase bêbado com a minha necessidade dela.
A Dalila desviou o olhar. "Eu entendo, Rei Elias."
Mas o calor que eu sentia antes dela tinha sumido. Eu conseguia sentir a frieza dela, o jeito que ela evitava o meu olhar.
"Tem mais alguma coisa que você queira me dizer?", ela perguntou baixinho.
Eu balancei a cabeça. "É só isso que você precisa saber."
"Posso te perguntar uma coisa, meu rei?"
"O que é, Dalila?"
Ela hesitou por um momento como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado. Aí ela pigarreou, mas ainda não olhou nos meus olhos.
"Eu tô errada em querer ficar nesse palácio?", ela perguntou.
A pergunta dela me assustou. Por que a Dalila ia querer ficar? Ela só ia sofrer ali, e eu não tinha poder pra protegê-la completamente.
Sem uma nova aliança, ia ser impossível me livrar dos traidores e dos lobos reais que queriam me derrubar. Mas mesmo essa esperança sumiu, porque os alfas lá fora estavam ligados ao Jeremy.
"Eu não quero você aqui, Dalila. Tem muita coisa com que eu tenho que lidar, especialmente os traidores. Se eu deixar você ficar, tenho medo de não conseguir te proteger", eu disse sem rodeios. "Porque você é minha parceira. E a maldição da Luna ainda me persegue, Dalila."
"Mas eu não quero te deixar, Rei Elias. É errado eu querer ficar – por você?" Os olhos da Dalila piscaram com incerteza.
"Não, Deli. O Vincent vai encontrar uma alcateia disposta a te aceitar se o Jeremy recusar. Você vai viver uma vida mais tranquila fora do palácio", respondi. "Essa é uma decisão que eu tenho considerado há muito tempo."
Eu sabia que a Dalila tava de coração partido, mas ela tentou se manter calma. Será que ela não percebia que eu também tava sofrendo? Nós dois queríamos nos proteger como parceiros, mas o destino nos forçou a nos separar – para sempre.
"Nesse caso, se você me liberar da alcateia, eu peço que você me rejeite como sua parceira, meu rei", disse a Dalila.
Dentro de mim, o Tarron soltou um uivo triste. Ele não queria que eu fizesse isso. Nós tínhamos encontrado nossa parceira, a que eu amava mais do que qualquer loba antes – até mais do que a Catarina.
"Tudo bem, Dalila", respondi.
A Dalila curvou a cabeça em respeito, aí saiu correndo. Assim que ela foi embora, meu corpo ficou fraco. Eu sentei no banco do jardim e tentei acalmar a tempestade dentro de mim.
"Meu rei?" A voz preocupada do Vincent quebrou o silêncio quando ele me viu congelado.
"Você pode ir falar com o Jeremy Davenport, Vincent?", perguntei.
O Vincent hesitou. "Não tenho certeza se ele vai me deixar entrar no território dele, meu rei."
"Diga a ele que é sobre a Dalila", eu expirei com força. "Diga a ele que eu a deixei ir, e se ele quiser, ela pode voltar para a alcateia Davenport."
"Meu rei, você tem certeza disso?" O Vincent soou incerto. "Não deveríamos esperar até depois da coroação?"
"E onde a Dalila vai ficar depois que eu mandar ela sair, Vincent?"
Ela seria um alvo fácil pra quem quisesse eliminá-la. A Dalila tinha um poder incrível. Por isso ela precisava estar em um lugar seguro – longe do alcance dos lobos reais.
"Ela poderia ficar com a Eugenia por alguns dias, meu rei. Acho que não seria um problema."
Eugenia? Será que a Dalila ia estar segura lá por enquanto?