86. Inimigo ou Aliado?
Entrei na câmara do Elias e na hora senti o calor da presença dele. Ele tava sentado na cama, com uma cara pálida e fraco, mas de resto, tudo em ordem. Ainda bem.
Curandeiros estavam tipo, se movendo pela sala, cuidando do rei, enquanto o Bispo e, claro, a Catherine, ficaram do lado dele.
A she-wolf me olhou com desconfiança, com aquele olhar afiado e cheio de julgamento. Dava pra sentir o peso daquele olhar, mas eu não tava nem aí. Minha atenção tava toda no Rei—ele que me chamou. Que a Catherine me amaldiçoasse o quanto quisesse.
"Dalila, vem aqui", o Elias chamou.
Eu fiz uma reverência, por respeito, quando cheguei perto da cama dele, mas tudo que eu queria era abraçá-lo. As emoções fervendo dentro de mim eram demais; meu peito parecia que ia explodir.
"Fico aliviado que você esteja segura, Dalila", o Elias falou fraquinho. "Vou descobrir o que tá rolando nisso tudo."
Nossos olhos se encontraram e eu segurei as lágrimas enquanto concordava com a cabeça.
"Obrigada, Rei Elias. A única coisa que me importa é sua recuperação", respondi.
Uma tossida forçada quebrou o clima. Catherine. Esse era meu sinal pra sair. Rapidinho fiz outra reverência pro Elias antes de me desculpar e ir embora. Os guardas foram me escoltar pra fora, mas o Vincent veio pra frente e parou eles.
"Eu levo a Dalila", o Vincent falou.
Os guardas nem ousaram discutir; só concordaram com a cabeça. Eu fui andando em silêncio do lado do Vincent, dando uma olhada pra ele. A cara dele tava fechada, frustrada.
"Desculpa pelo problema, Beta Vincent. Tentei evitar, mas..."
"Não é sua culpa, Dalila", o Vincent me cortou.
Baixei a cabeça, ainda me sentindo culpada. As palavras dele diziam que não era minha culpa, mas a expressão dele mostrava outra coisa.
"Tem certeza que ninguém naquela fila te pareceu familiar?", o Vincent insistiu.
Balancei a cabeça. "Tenho certeza, Beta Vincent. Aquele cara não era nenhum dos funcionários. Talvez fosse um intruso?"
"Um intruso?", o Vincent zombou. "Um intruso entra sem ser notado. Esse cara agiu como se pertencesse. Alguém colocou ele dentro do palácio—o objetivo dele era te matar."
"É possível", admiti.
Quem armou isso foi cuidadoso, ou talvez tivessem testado diferentes métodos—tentando achar o jeito perfeito de me eliminar sem deixar rastro. Uma parada sinistra me bateu. Será que eu ia passar o resto da vida sendo caçada?
"Não se preocupe. Vou descobrir quem tá por trás disso", o Vincent me garantiu, repetindo as palavras do Elias.
"Beta Vincent, se me permite dar minha opinião."
"Manda ver, Dalila."
"Se essa parada continuar escalando, minha vida nunca vai ser tranquila. Vai ter mais tentativas contra minha vida—quem sabe o que vão tentar depois?" Hesitei antes de continuar, "Eu não quero ser o centro das atenções. Quanto mais me atacarem, pior vai ficar."
O Vincent ficou em silêncio, pensando nas minhas palavras.
"Mas pensa nisso, Dalila", ele finalmente falou. "Até o Rei Elias não tá seguro se alguém tem coragem de enfiar um estranho no palácio. Você entende o que isso significa?"
"Quer dizer, tipo, o que aconteceu na mansão? Quando o Tris..." Fui parando, sem conseguir dizer o nome.
A dor ainda tava fresca. Saber que alguém em quem o Elias tinha confiado por anos, finalmente o traiu, foi de partir o coração. E nesse palácio, lealdade era uma parada ainda mais incerta.
"Exato", o Vincent suspirou.
"Se tiver que investigar, não quero ser arrastada pra isso, Beta. Se ajudar, eu identifico esse lobo se a gente achar. Mas não quero ser chamada pra interrogatório de novo e de novo", falei firme.
A Catherine e a Wanda já achavam que eu queria roubar o Elias dela. Quanto mais eu me envolvia, mais o ressentimento delas crescia. Talvez eu devesse vazar e esperar o Elias me liberar.
Mas se eu corresse, a Tracy e o Benson iam me caçar e me matar num piscar de olhos. Eles teriam todas as desculpas—uma Omega fugindo do Rei era quase traição.
"Vou falar com o Rei Elias e com o Bispo", o Vincent concordou.
"Obrigada, e desculpa incomodar, Beta", falei de coração.
O Vincent me escoltou de volta pros portões, e bem antes de ir, ele colocou a mão no meu ombro. Ele não falou nada, mas entendi o que ele quis dizer—só precisava aguentar mais um pouco.
Mas eu ia conseguir?
Se eu ficasse com o Elias, e se ele fosse o que se machucasse?
Meus pensamentos rodopiavam. Meu corpo tava exausto. E se o Elias não sobrevivesse da próxima vez? Isso ia me quebrar completamente. E quem sabia quais horrores piores estavam por vir?
"Para de pensar em coisas que ainda não aconteceram, Deli", a voz da Lona ecoou na minha cabeça. "Seus pensamentos vão ficar sombrios, e você vai afogar no desespero."
Eu queria acreditar nela.
"Você é mais forte que isso", a Lona continuou. "Não se deixe afundar enquanto seu navio é forte o suficiente pra enfrentar a tempestade."
Eu queria chorar.
Pai, Tia Disa... Tô com saudade de vocês. Por favor, me digam o que fazer.
"Tô cansada, Lona", sussurrei.
"Eu sei..." A voz da Lona era suave como se ela estivesse me envolvendo num abraço reconfortante. "Eu sinto você. Vamos passar por isso juntas."
Fiz uma pausa na entrada da cozinha, onde a Chefe da Empregada correu em minha direção. Ela tava com uma cara de chocada—uma cena incomum. Fiquei ainda mais surpresa quando ela de repente agarrou meus ombros.
"O que eles falaram? O que falaram de mim?" ela sussurrou, urgente.
Balancei a cabeça. "Nada."
"Eu vou estar ferrada se acharem que eu acusei a Princesa Wanda. Mas eu ouvi a ordem claramente", a Chefe da Empregada murmurou. "E, no entanto... Não consigo lembrar quem disse. Minha memória tá confusa."
Ela me forçou a sentar na frente dela, com os olhos cheios de pânico. Ela tava aterrorizada.
"Desculpa por como te tratei antes", ela disparou. "Mas eu quero recomeçar, Dalila."
Inclinei a cabeça um pouco, estudando ela.
"Não vou falar nada de ruim sobre você", respondi. "Você fez seu trabalho bem, senhora."
Não queria prolongar a conversa. Eu sabia o que era isso; ela tava tentando se proteger e garantir que eu não jogasse ela debaixo do ônibus. Ela tava com medo de ser culpada, então agora tava fingindo ser legal.
Era quase risível.
"Vou voltar a trabalhar", falei, me levantando.
"Espera, Dalila. Eu falei sério—quero trabalhar com você", ela disse. Então ela pigarreou e acrescentou, "Certo."
Concordei com a cabeça. "Claro, senhora."
"Rowena", ela corrigiu. "Me chama de Rowena."
Fiz um sorriso pequeno e concordei de novo. Aí entrei na cozinha, onde o cheiro de legumes podres enchia o ar. Estranhamente, esse lugar tinha virado meu santuário—o único lugar onde ninguém me incomodava.
"Você tem que manter seus inimigos perto", a Lona murmurou. "Se eles tentarem te usar, use eles de volta."
A risada suave dela me deu um arrepio na espinha. Uma piada sombria, com certeza.
"É, sei...", murmurei baixinho.
"Bem, nunca se sabe", a Lona filosofou. "Talvez um dia a Rowena seja a que vai te salvar, Deli."