79. Pego em Flagrante
Corri pra descascar os legumes e terminei antes do almoço. O evento de apresentação da Wanda tava marcado pra mais tarde, então sentei e esperei, procurando o momento certo pra vazar. Mas o que eu devia fazer?
"Não seja imprudente", a Lona me avisou.
"Se minha teoria estiver certa, o Elias ou o Vincent devem saber sobre isso."
"Você não tem prova, Dalila. Não seja ridícula."
Parei de ouvir a Lona e me concentrei numa estratégia pra entrar nas câmaras internas do palácio. Se eu não agisse agora, ia ficar presa lá.
O amanhã só ia dificultar a procura pelo Elias ou Vincent.
Agora era a hora perfeita, com tanta gente chegando e a atenção de todo mundo focada nas festas.
A porta abriu, e a Chefe da Empregada imediatamente examinou a sala, com os olhos pousando na pilha de legumes que eu já tinha limpado. Não ousei olhar pra ela, mas podia sentir os olhos dela em mim.
"Você não tem mais nada pra fazer? Já descascou tudo?", ela perguntou, conferindo.
Balancei a cabeça.
"Não posso te colocar pra trabalhar no palácio, mesmo que estejamos com falta de empregadas pra levar comida pras câmaras internas", a Chefe da Empregada reclamou um pouco. "O que eu vou fazer..."
Ela pareceu murmurar pra si mesma, e eu fiquei quieta, esperando. Outra empregada se aproximou dela por trás, e elas sussurraram uma pra outra.
Peguei a palavra "revezamento". Será que iam organizar um revezamento de empregadas carregando comida?
"Ok, Dalila, você vai levar os carrinhos de comida pra entrada da câmara interna do palácio. A Vovó vai levá-los pra dentro de lá", a Chefe da Empregada instruiu. "Rápido!"
Vovó? Quem era essa?
Levantei, deixando o cheiro de legumes podres pra trás, e inalei o aroma delicioso que vinha da cozinha. Os carrinhos de comida já estavam sendo preparados, com várias empregadas empurrando-os pra frente. Vi a Vovó, a empregada que tinha me ajudado mais cedo, esperando com dois carrinhos na frente dela.
"Vamos lá, Deli", ela chamou alegremente.
Nós duas empurramos nossos carrinhos a um ritmo moderado - quase lento demais, como se ela estivesse fazendo de propósito.
"Por que você tá me ajudando?", perguntei sem rodeios.
A Vovó não respondeu de imediato. Seus olhos permaneceram fixos no longo corredor à nossa frente.
"É errado te ajudar?", ela perguntou de volta.
"Se o Benson ou a Tracy te mandaram como espiã, não se incomode em cavar por informações. Não tenho nada a esconder", respondi.
A Vovó parou de empurrar seu carrinho e me olhou com olhos tristes.
"Sinto muito por ter te machucado antes. Se isso te deixa desconfiada de mim, não posso te forçar a confiar em mim", ela disse baixinho.
"Mas eu não quero mais machucar ninguém. Somos todos lobos da mesma alcateia - por que deveríamos brigar e nos machucar?"
Eu não queria confiar nela tão fácil, então continuei empurrando meu carrinho sem prolongar a conversa. Pelo menos ela sabia que eu não era facilmente enganada.
Quando chegamos à entrada, várias empregadas me entregaram carrinhos vazios.
"Encham rápido e tragam de volta aqui! Temos muito pra preparar", uma delas latiu.
A Vovó e as outras empregadas entraram na entrada com os carrinhos cheios, me deixando sozinha com os vazios.
Empurrei os carrinhos de volta rapidamente e esperei na porta da cozinha enquanto eles eram reabastecidos. Perdi a conta de quantas vezes fiz, entregando e devolvendo carrinhos. No final, o suor estava encharcando meu uniforme.
Finalmente, levei os dois últimos carrinhos, mas mais alguns não tinham sido trazidos quando cheguei ao portão. Parecia que toda a comida já tinha sido montada, e esses eram apenas reservas, caso algo acabasse durante o evento.
Agora era minha chance de entrar sorrateiramente e procurar o Vincent ou o Elias.
De fato, com todos os convidados já dentro, ninguém ia me notar entrando nas câmaras internas do palácio.
Passei pelo portão, aliviada por não haver guardas estacionados lá.
"Volte pra cozinha e fique lá, Dalila. E eu falo sério!", a Lona avisou de novo.
"Não! Você não pode me impedir. Preciso falar com o Elias. Confio nos meus instintos!"
"Dalila, você vai ser pega!"
Ignorando a Lona, entrei sorrateiramente em outro corredor. Havia tantos caminhos se ramificando, cada um levando ao próximo. Eu não sabia a localização do Elias, mas confiava que o encontraria.
De longe, podia ouvir a música animada e a conversa vindo do corredor direito, onde ficava o grande salão.
Virei à esquerda em vez disso, entrando em outro corredor—
"Alguém vem!", a Lona gritou.
Recuei e procurei um lugar pra me esconder. Várias portas estavam por perto, mas todas estavam trancadas.
Ai não!
"Dalila?"
Me virei pra ver a Vovó parecendo chocada. Ela correu até mim.
"O que você tá fazendo aqui? Volte pra cozinha, ou você vai ter problemas", ela sussurrou freneticamente.
"Preciso encontrar o Rei Elias ou o Beta Vincent, Vovó."
"Eles não estão no salão. Não sei onde eles estão. Apenas volte, Deli", a Vovó implorou, com a voz tremendo.
De trás da Vovó, vi alguém andando do corredor esquerdo em direção ao salão. Meus olhos se arregalaram — era o Vincent!
"Beta Vincent!", gritei, minha voz alta e clara.
O Vincent parou no lugar e se virou pra me olhar com igual surpresa.
Enquanto eu corria em direção a ele, a Wanda, a Catherine e o Elias apareceram atrás do Vincent.
Congelei.
Droga! Isso não era pra acontecer! Fui pega em flagrante!
"Vou conversar com você depois do evento, Beatrice. Se houver algo que você queira discutir comigo", disse o Vincent friamente.
Antes que eu pudesse responder, a Wanda acenou com a mão, dispensando-me. "Não, ela pode falar na frente de todos nós. Você tem algum segredo a esconder?"
Meus olhos encontraram os do Vincent, e apesar de sua compostura, pude ver sua preocupação.
"Outra hora", o Elias interveio. "Os convidados estão esperando."
A Wanda cruzou os braços e me encarou zombeteiramente. "Bem, eu disse a ela" — ela apontou pra mim — "pra servir na minha festa de boas-vindas."
"Wanda, já chega", a Catherine rosnou, quase chiando.
"Por quê? Não posso fazer isso? Sou a princesa aqui — a única filha do Rei Elias", respondeu a Wanda, presunçosamente.
O Elias me olhou brevemente, e pude sentir sua tristeza. Por que tinha que ser assim? Eu não queria ser humilhada e causar ao Elias qualquer constrangimento.
"Se mexa, Ômega. Sirva os convidados e pare de ficar parada como uma idiota", ordenou a Wanda. "Não humilhe meu pai sendo uma escrava tão inútil!"
"Wanda!", o Elias latiu.
Então veio o som alto de um tapa.
Fechei os olhos com força.
Ai não!