87. Uma Nota do Bispo Lennox
Depois daquele incidente, a vibe no palácio continuou tensa. Eu ainda sentia o baque, mesmo que ninguém mais me tratasse mal; em vez disso, me evitavam. Como se eu fosse um problema ou portadora de azar.
Bem, eles fingiam que eu não existia, o que talvez fosse melhor.
Além disso, eu não precisava lidar com muitos lobos na cozinha, só com a Rowena, a chefe das empregadas. A atitude dela tinha amolecido um pouco, embora eu não soubesse por quanto tempo. Talvez até o lance todo do celeiro finalmente sumisse do mapa.
"Acabou", eu suspirei, jogando a última batata na bacia.
Me levantei, limpei a faca e coloquei de volta no lugar. Aí eu carreguei a bacia pra cozinha, onde a Rowena veio direto falar comigo.
"Já terminou?" ela perguntou.
A Rowena tava me perguntando isso nos últimos dias. Era meio irritante, pra ser sincera, já que ela sempre fazia uma cara feia pra mim.
"Sim, senhora." Eu balancei a cabeça. "Precisa de mais alguma coisa?"
Como eu trabalhava rápido, me davam tarefas extras, tipo lavar a louça e limpar a cozinha. Mas como os cozinheiros ainda estavam preparando a comida, eu tinha que esperar eles terminarem antes de poder limpar.
"O Bispo Lennox pediu pra te ver, Dalila Ramones." A Rowena enfiou a mão no bolso do avental e me deu um pedacinho de papel. "Mostra essa carta pros guardas, e eles vão te deixar entrar no palácio interno."
Eu peguei a carta e dei uma olhada – tava escrita pelo Bispo, me dando permissão. Mas eu não conseguia parar de pensar – o que o Bispo queria falar dessa vez? Era o lance do celeiro? Será que pegaram o culpado?
"Obrigada, senhora. Já vou pra lá", eu falei.
"Ro-we-na. Me chama só de Rowena", a chefe das empregadas me corrigiu.
Eu dei um sorriso sem graça pra ela. "Tá bom, Rowena."
Eu fui andando pelo corredor numa boa, sem nenhuma tarefa urgente. Quando cheguei nos portões, os guardas abriram na hora que eu mostrei a carta do Bispo. Um deles me escoltou até o lugar do Bispo, provavelmente pra garantir que eu não ia tentar dar uma de esperta. Eu já tinha prometido pro Vincent que não ia fazer isso de novo.
Enquanto eu andava pelos corredores que levavam aos aposentos do Bispo, eu mentalmente anotei cada canto e corredor que eu passava. Só pra garantir, caso eu precisasse lembrar da planta do palácio interno.
Eu notei um jardim antes de chegar nos aposentos do Bispo. Esse palácio tinha vários jardins, e eu já tinha andado por todos eles antes. Mas o que ficava perto do lugar do Bispo tinha mais árvores grandes, o que fazia dele um lugar bom pra fugir do sol.
Eu vi duas figuras sentadas num banco embaixo de uma das árvores quando me aproximei. Meu coração afundou – era a Catherine e a Evelyn.
Não tinha como voltar ou pegar outro caminho. Se eu fizesse isso, só ia dar mais problema.
Droga.
A Catherine se levantou na hora, assim como a Evelyn. As duas bloquearam meu caminho – e o do guarda.
"Quem deixou ela entrar aqui?" a Evelyn perguntou, apontando pra mim. "Ficou bem claro que a Dalila Ramones não pode entrar no palácio interno!"
"Ela está aqui a pedido do Bispo Lennox, e apresentou a carta dele", o guarda respondeu.
A Evelyn cruzou os braços. Minha ex-madrasta era tão arrogante quanto sempre. Ela nem me olhou como alguém que ela já tinha criado. Então, todo esse tempo, ela nunca se importou de verdade comigo. Incrível, né? Que alguém consiga manter uma atuação por tanto tempo.
"Manda ela voltar", a Evelyn ordenou, com firmeza.
O guarda hesitou. "Mas o Bispo Lennox deu a ordem. Seria errado ignorá-la."
"Eu vou falar com o Bispo Lennox pessoalmente", a Catherine interveio. "Eu não vou deixar ela entrar nessa parte do palácio. Leva ela de volta pra cozinha."
Um pigarreio baixo veio de outra parte do jardim, e eu me virei pra ver o Elias chegando com o Vincent.
A Catherine e a Evelyn congelaram quando o viram.
Nós todos curvamos em respeito enquanto o Elias parava na nossa frente.
"Qual é o problema aqui?" o Elias perguntou.
A Catherine suspirou. "Eu mandei eles voltarem pra cozinha", ela disse, apontando pra mim de novo. "O Bispo Lennox a chamou sem um motivo claro. Eu vou falar com o Bispo – se ele tem assuntos com ela, ninguém de fora do palácio deveria ser autorizado a entrar."
"Então, o que você sugere?" o Elias perguntou, calmo.
Juro que pela Deusa da Lua, meu rei tava tão gato, especialmente com aquele olhar sereno. E ele tava direcionando aquele olhar pra Catherine.
Eu sabia que o Elias tava tentando me proteger, então ele continuou calmo. Mas eu ainda não gostava do jeito que ele olhava pra outra mulher.
"Talvez o Bispo Lennox devesse encontrá-la fora do palácio, em vez disso", a Catherine sugeriu, cruzando os braços.
"Isso seria desrespeitoso com o Bispo Lennox", o Elias falou. "Vocês são lobas reais com autoridade. Se querem falar com alguém inferior, vocês vão até elas?"
A Catherine hesitou.
"Ou", o Elias continuou, "quando vocês precisam de uma loba pra uma tarefa, vocês procuram ela pessoalmente, Catherine?"
"Meu rei, não foi isso que eu quis dizer. Eu só..."
O Elias a interrompeu. "Vocês devem mostrar respeito pelo Bispo Lennox. Ele é uma figura muito respeitada. E eu também o considero em alta estima."
A Evelyn baixou os olhos, com o rosto visivelmente corado. Por outro lado, a Catherine só fez que sim com a cabeça, com a expressão endurecendo.
Eu podia ver que ela tava fervendo por dentro com as palavras do Elias.
Então, o rei direcionou a atenção pra mim. "Vai ver o Bispo Lennox agora – ele está te esperando, Dalila Ramones."
Eu não consegui evitar sorrir, o que deve ter irritado as duas lobas antes de mim.
"Obrigada, Rei Elias", eu falei, balançando a cabeça pra ele. "É bom ver que você se recuperou."
O Elias retribuiu meu sorriso. "Agora, pode ir."
O guarda deu um balançar de cabeça respeitoso pro Elias antes de andar animado comigo em direção aos aposentos do Bispo Lennox.
Eu dei uma olhada pro Vincent e notei a risadinha que ele tava tentando esconder.
A Catherine, sem dúvida, ia me odiar ainda mais depois disso, não importa o quanto ela tentasse esconder isso do Elias.
Mas eu não ia desistir. Só ia sair quando o próprio Elias mandasse.
Quando eu cheguei no lugar do Bispo, eu o encontrei de novo esperando no escritório.
Andar pelos montes de livros era estranhamente satisfatório – o cheiro de papel velho era reconfortante.
"Boa tarde, Bispo Lennox", eu o cumprimentei.
Ele tava sentado de boas, lendo um livro, com uma xícara de chá na mesa.
Quando ele me viu, ele sorriu gentilmente e fechou o livro.
"Ah, você chegou", o Bispo falou sem mais delongas. "Eu gostaria de discutir algo com você – e acho que é uma ideia bem brilhante."