51. Depois do Incidente
Meu corpo ainda doía quando acordei e vi que o quarto estava vazio. Elias tinha sumido, e eu não tinha ideia de onde ele poderia estar. A luz da manhã tava mais fraca que o normal, suavizada pelas nuvens cinzentas que pairavam no céu.
Tive que me forçar a sentar na beira da cama, fazendo uma careta quando a dor latejante voltou. Não tava tão forte quanto na noite passada, mas ainda tava ali. Devagar, levantei e fui até a porta, abrindo com cuidado.
Vazio.
O corredor tava estranhamente quieto, cada porta fechada. Era esquisito — será que todo mundo tinha ido embora depois do que rolou comigo? Estavam com medo do tiroteio?
'Onde estão todos?' sussurrei pra mim mesma.
Forcei meu corpo dolorido a se mexer e fui andando pelo corredor e pelas escadas. Logo, consegui ouvir as vozes das Lunas reais no andar de baixo. Não sabia o que estavam fazendo lá, mas não tinha a menor intenção de me juntar a elas.
Em vez disso, fiquei por perto, quieta, curiosa pra ouvir o que estavam discutindo. As vozes delas tinham um tom de angústia.
'Nunca pensei que ia acontecer de novo. Quase duas décadas depois,' Eloise disse, com a voz cheia de preocupação.
As outras murmuraram em concordância.
Me aproximei mais, me esforçando pra ouvir. Sobre o que estavam falando? Era sobre o tiroteio?
'Catherine quase morreu quando alguém atirou nela. Sorte que só pegou no ombro — e a bala era de prata, né? Mesmo assim, foi assustador,' Blanche acrescentou.
Da conversa delas, descobri que, dezoito anos antes, durante um evento de caça, alguém tinha mirado na Catherine e ferido o ombro dela.
Esse incidente causou um racha entre Elias e a família da Catherine e desgastou o relacionamento deles. Era como se Elias tivesse sido culpado por Catherine ter se tornado um alvo.
Depois disso, a família da Catherine a levou pra fora do país por segurança, e, a partir daí, a vida de Elias como rei pareceu entrar numa série de eventos trágicos e misteriosos.
Não consegui mais ficar bisbilhotando e decidi voltar pro meu quarto, com o coração pesado de desespero.
A preocupação de Elias comigo podia estar ligada às lembranças dele da Catherine?
Não podia apagar a Catherine do passado dele, mas eu não era ela. Mesmo assim, tudo que aconteceu comigo parecia trazer à tona essas lembranças dolorosas pra ele.
Doía muito.
'Dalila?' Uma voz na porta quebrou meus pensamentos.
Elias entrou no quarto, com uma expressão cheia de preocupação quando me viu sentada na beira da cama. Ele correu pro meu lado, pegando minhas mãos nas dele e procurando no meu rosto com olhos preocupados.
Ele tava preocupado comigo? Ou era que eu lembrava a Catherine?
'Nós vamos sair pra mansão em breve. As empregadas estão preparando o café da manhã pra você,' Elias disse gentilmente. 'Não vá a lugar nenhum. Eu vou te carregar pro carro quando for a hora.'
Era assim que ele carregava a Catherine naquela época?
'Dalila?' ele chamou de novo.
'Sim, meu rei.' Balancei a cabeça rapidamente.
'Tem alguma coisa errada?'
Balancei a cabeça. 'Não, meu rei. Só quero que a gente volte pra mansão.'
'Só mais um pouquinho, tá? Vamos sair assim que Vincent terminar aqui no castelo.'
A gentileza dele me pareceu vazia.
...
Na volta pra mansão, Elias não falou nada sobre o que tinha acontecido no castelo McKinney. Vincent também parecia estranhamente sombrio, com culpa escrita em todo o rosto.
A caçada tinha sido cancelada, e todos os lobos reais tinham voltado para seus respectivos bandos. Mas nem Elias nem Vincent compartilharam mais detalhes, como se estivessem deliberadamente me deixando no escuro.
E isso me deixou ainda mais perturbada.
Quando chegamos na mansão, Tia Disa estava nos esperando. O rosto dela estava marcado de preocupação enquanto ela se preocupava com a minha condição. Fui direto pro meu quarto descansar, enquanto Tia Disa foi pra fora, presumivelmente pra conversar com Elias.
Não sabia sobre o que estavam discutindo, mas estava me sentindo cada vez mais desesperada. Era demais entre a dor, a angústia e o ciúme.
Eu não devia estar me sentindo assim.
Fiquei me dizendo pra não me apaixonar pelo Elias. Mas meu coração não queria ouvir.
Tia Disa entrou no quarto e correu pro meu lado. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, e ela tava lutando pra controlar suas emoções.
'Por que isso tinha que acontecer com você, querida?' ela sussurrou, com a voz embargada. 'Seu destino parece ofuscado pelo que aconteceu com sua mãe.'
'Eu sobrevivi, Tia. Vou ficar bem.'
Tia Disa suspirou pesadamente. 'Devíamos contar pro Rei Elias sobre sua mãe biológica, Dalila?'
'Não.' Balancei a cabeça com firmeza. 'Não quero que ele saiba. Não até sabermos a ligação entre os lobos reais que caçaram minha mãe e o Elias.'
Tia Disa pareceu confusa. Eu tinha compartilhado minhas suspeitas sobre o bando da Lua Celestial, o que tinha deixado ela chocada. E se eu estivesse de alguma forma conectada a esse bando amaldiçoado através da linhagem da minha mãe?
Se fosse verdade, os lobos reais poderiam me ver como uma ameaça e tentar me eliminar.
Mesmo não estando confirmado que eu era descendente da Lua Celestial, a mera possibilidade me fez sentir como se estivesse sendo amaldiçoada de todos os lados.
'Acho que seria mais seguro você se mudar comigo. Só nós duas,' Tia Disa sugeriu. 'Mas o Rei Elias se recusou. Ele disse que sua coroação tá chegando e não quer você longe dos olhos dele.'
'Ele tem seus motivos pra dizer não, Tia.'
'Ele devia saber que você tá em perigo, Dalila,' Tia Disa disse. 'Ele não sente isso através da sua ligação?'
Congelei, sem conseguir responder. Não podia contar a verdade pra Tia Disa.
'Sim, Tia, mas existem motivos pelos quais ele não pôde estar ao meu lado imediatamente,' disse quieta. 'É por isso que ele não quer que eu fique longe dele agora.'
'Faz sentido,' ela admitiu, embora sua preocupação não tenha diminuído. 'Só tenho medo que algo pior possa acontecer com você, especialmente com essas histórias sobre a maldição da Luna.'
'Tia, isso é só um boato.'
'Ainda assim, parece ter te afetado. Olha o que tá acontecendo! Se o Rei Elias não pode te proteger, quem vai?'
Eu estava destinada a ser destruída pela Maldição da Luna? Ou pela maldição da Linhagem da Lua Celestial?
Não havia um destino melhor me esperando?