68. O Convite de Jeremy
Jeremy sorriu de leve em vez de me responder direto, o que me fez franzir a testa confusa. 'O que foi, Jeremy?'
'Quero te convidar pra sair. Tem uma feira aqui perto, e pensei que você podia querer ir.'
'Uma feira?' Eu repeti, meio surpresa.
Instintivamente, eu olhei pro Pai, sem saber como responder. Mas o Pai não deu nenhum sinal claro, em vez disso, pareceu contente com o convite do Jeremy.
'Sim, o que você acha? Se topar, fico pronta em trinta minutos,' Jeremy disse, com um tom doce e paciente, como se minhas palavras anteriores não o tivessem ofendido.
Se eu recusasse, eu sabia que só ia aprofundar a decepção dele. Eu balancei a cabeça. 'Ok, vou me arrumar.'
'Ótimo.' Jeremy sorriu de novo. 'Te encontro lá na frente.'
Depois que Jeremy e o Pai saíram do quarto, eu expirei fundo. Sinceramente, eu não tava a fim de ir a lugar nenhum, mas não tinha jeito. Além disso, por quanto tempo eu podia viver assim?
Essa seria a pergunta que todo mundo na alcateia faria, cedo ou tarde. Eu tinha que me adaptar e me acertar, mesmo que as lembranças do Elias continuassem a me assombrar.
Eu não sei por que, mas eu tava com tanta saudade do Elias.
...
Depois de me trocar e passar uma maquiagem leve, eu desci e fui pra varanda. Jeremy já estava lá, conversando com o Pai. A roupa casual dele me fez sentir velha, mesmo a gente não estando tão distante na idade.
Jeremy era jovem e fresco, e a energia dele irradiava como fogo ardente—tão diferente do Elias, cuja presença era como a superfície de um lago: calma, fria, mas mortal.
Por que eu tava comparando eles?
'Você tá linda,' Jeremy elogiou.
'Você que tá mais style,' eu respondi.
O Pai riu e deu um tapinha no ombro do Jeremy. 'Vai se divertir. Cuida da minha filha, Alpha Jeremy.'
'Claro que vou, Luke,' Jeremy concordou confiante.
Jeremy pegou na minha mão, e eu aceitei enquanto ele me guiava pra garagem. Pra minha surpresa, uma moto tava esperando, e ele subiu nela. Eu pisquei, incrédula.
'Nós vamos de moto?' eu perguntei.
'Por que não? Você não adorava andar de moto? A gente andou umas vezes uns anos atrás.'
Eu não consegui me segurar e comecei a rir, concordando com a cabeça rapidamente. 'Você lembra?'
'Lembro, claro, mas a gente teve que parar depois que eu derrubei a moto sem querer, e você se machucou.'
'Foi só um arranhão.' Eu ri baixinho.
Eu subi na moto atrás dele, e Jeremy imediatamente passou meus braços pela cintura dele. O gesto me deixou desconfortável; o homem que eu tava abraçando nos últimos meses não era o Jeremy. Será que eu conseguiria me acostumar a estar perto dele de novo?
'Deli, tá pronta?' A voz do Jeremy quebrou meus pensamentos passageiros.
'Bora!'
A moto rugiu pra fora do portão, recebendo acenos de respeito dos guardas, e acelerou pela estrada nem tão movimentada. A brisa fresca me refrescou, trazendo de volta memórias do passado que eu quase tinha esquecido.
Tinha tido tantos momentos bons com o Jeremy—momentos preciosos. Eu não devia duvidar mais da devoção dele, mas meu coração tinha se desviado dele. Será que eu podia voltar pra alcateia, esquecer o Elias, e deixar o Jeremy ser meu parceiro de novo?
'Deli, eu sei que você é uma pessoa boa. Você sempre cumpriu suas promessas,' Jeremy disse de repente, quebrando o silêncio.
Eu não respondi na hora; só fiquei ouvindo enquanto ele continuava.
'Sobre sua promessa pro Elias—de ser a Luna substituta dele—deve ter pesado muito em você,' ele acrescentou. 'Afinal, o Elias te salvou.'
'Acho que sim,' eu respondi hesitante.
'Eu acho que você já fez o suficiente pra retribuir ele, Deli. Você tá em casa agora. O Elias não tem o direito de te incomodar mais.'
'Mas, Jeremy...' Eu limpei a garganta baixinho. 'Você sabe que eu já sou parte da alcateia do Elias. Quanto mais eu me afasto dele, mais eu sinto essa dor no peito, como se eu tivesse perdido o caminho.'
Jeremy concordou, entendendo. 'Sim, isso é normal. Mas não se preocupe—eu posso te tirar dele. Tem um procedimento pra isso, e não é muito complicado. Os Anciãos vão ajudar a cortar a influência do Elias sobre você.'
'Tudo bem,' eu disse baixinho, resignada.
Mas eu não queria ser separada à força da alcateia do Elias. O tormento que eu sentia não era só da ligação com o Elias, mas da minha saudade dele. Como eu podia explicar isso pro Jeremy? Ele não ia aceitar.
A nossa conversa mudou quando as luzes brilhantes de uma roda gigante e as luzes vibrantes do carnaval apareceram. O som fraco da música de carnaval ficou mais alto quando a gente se aproximou do nosso destino.
A moto entrou no estacionamento, onde uma multidão tava se reunindo. Eu notei pequenos grupos espalhados por aí, com o cheiro de lobo inconfundível.
Sentindo minha cautela, Jeremy apertou minha mão e se aproximou de um dos grupos. Eles concordaram com a cabeça respeitosamente e o cumprimentaram.
'Alpha Jeremy,' eles disseram em uníssono.
'Nenhum sinal de intrusos?' Jeremy perguntou.
Um deles balançou a cabeça. 'Tudo limpo, Alpha. Aquele rei arrogante e sua família real não vão passar pelo nosso território de aliança sem brigar.'
'Obrigado pela cooperação e vigilância,' Jeremy respondeu.
'Divirta-se, Alpha Jeremy. Não se preocupe com nada.'
Jeremy me levou pra dentro da feira, sem soltar minha mão. Tinha tanta coisa pra ver, mas eu achei a conversa dele muito mais interessante.
'Sobre o que vocês estavam falando?' eu perguntei.
'Os outros alphas e eu estamos trabalhando juntos pra proteger e reforçar nossas fronteiras pra que nenhum da realeza ou Elias possa entrar,' Jeremy explicou casualmente.
'Mas por quê?'
Jeremy olhou pra mim brevemente. 'Se o Elias precisar da nossa ajuda, ele tem que aceitar os termos que a gente estabelece. Se não, somos inimigos dele. Eu já cansei de ser bonzinho com a realeza que causou tanto caos pra outras alcateias,' ele disse firmemente.
Eu engoli seco. Então, se o Elias tentasse vir pra Pinecrest, ele ia encontrar resistência feroz. O mesmo provavelmente era verdade pros outros territórios controlados pela aliança do Jeremy.
Elias tava cercado por todos os lados—como ele podia suportar o ataque daqueles que o desprezavam?
De repente, meus ouvidos captaram um som familiar, uma melodia mística de uma máquina de adivinhação próxima. Meu coração disparou quando eu congelei no lugar, reconhecendo instantaneamente. Era a mesma máquina que eu tinha encontrado com o Elias no parque de diversões.
'Não...' Eu sussurrei instintivamente, me afastando do Jeremy e recuando da máquina.
Jeremy olhou pra mim confuso. 'O que foi, Deli?'
Minhas mãos tremiam enquanto eu apontava pra máquina. 'Eu peguei uma carta da sorte naquela máquina uma vez, que foi aterrorizante.'
'Uma carta da sorte? O que dizia?'
'Dizia que minha vida tava em perigo. Que eu tinha a chave pra uma bênção ou uma maldição.'
Jeremy piscou, com uma expressão cética. 'Você acredita nisso?'