56. A Traição
Elias chegou na hora certa, e acho que ele não desconfiou de nada. Depois de uma conversinha com Eugenia e dizer tchau, voltamos pra mansão.
A viagem de volta foi silenciosa entre Elias e eu. Minha mente tava totalmente consumida pela história do passado, e foi chocante, real. Nunca imaginei que Elias era descendente de uma meio-Ômega.
Não é à toa que Elias sempre pegava no meu pé. Ele ficava me lembrando que eu não podia ser fraca. Finalmente entendi—Elias não queria que eu acabasse como ele ou a mãe dele, que foram maltratados.
'Ainda tá pensando no que eu falei?" Elias perguntou do nada.
Balancei a cabeça. 'Não.'
Ouvi Elias suspirar, mas nem me dei ao trabalho de olhar pra ele. Às vezes, a dor entrava sorrateiramente e me deixava mais triste ainda. Ficar aqui sozinha com ele tava me sufocando.
Por que Vincent não foi me pegar? Por que tinha que ser o Elias?
Odeio essa turbulência emocional constante. Num minuto, Elias é gentil; no seguinte, ele tá bravo, e o pior de tudo, ele me ignora como se eu fosse lixo.
'Vamos só focar nos nossos objetivos, Dalila,' ele disse, limpando a garganta.
'Concordo plenamente, meu rei.'
O que mais ele queria dizer? Eu sei a verdade, então ele não precisa me lembrar. Agora, me arrependo de ter confessado meus sentimentos a ele, mesmo que não tenha sido diretamente. Foi tão constrangedor.
Devia ter sabido. Só porque a gente compartilhou momentos íntimos não significa que Elias sente algo por mim. Não é comum as pessoas agirem por prazer e desejo sem amor envolvido?
Por que eu fui tão ingênua a ponto de achar que podia rolar amor entre a gente?
Você é muito burra, Dalila Ramones!
'Eu...'
As palavras de Elias ficaram no ar quando ele, de repente, focou nos pedais, o carro acelerando perigosamente rápido.
'Que porra...' O rosto de Elias ficou pálido.
'O que tá acontecendo?' perguntei, confusa.
O carro não tava diminuindo a velocidade; o volante tava começando a ficar incontrolável.
'Meu rei!!' gritei em pânico.
Estávamos chegando numa curva fechada quando Elias, de repente, destravou o carro e se inclinou pra abrir a porta do passageiro. Tudo aconteceu tão rápido que ele me empurrou pra fora do veículo.
Eu assisti horrorizada enquanto o carro corria em direção ao penhasco.
'Não!' eu engasguei.
Me levantei correndo e fui pra beira do penhasco, só pra ouvir o som ensurdecedor de uma explosão.
'Elias!!' gritei em pânico.
A escuridão lá embaixo tava me cegando enquanto eu procurava por qualquer sinal dele. Daí ouvi um rosnado, e Elias pulou pro lado da estrada.
Vendo que ele tava bem, impulsivamente joguei meus braços em volta dele.
'Pela deusa da lua! Achei que você não tinha conseguido,' solucei.
Elias me abraçou de volta, fazendo carinho no meu cabelo. 'Tá tudo bem. Estou seguro.'
'O que aconteceu?'
'Os freios acabaram. Não sei por quê,' Elias respondeu, se levantando com um olhar desconfiado. 'Vincent te trouxe aqui no meu carro?'
Balancei a cabeça. 'Não, meu rei. Ele usou outro carro.'
'Tudo bem. É melhor voltarmos pra mansão,' Elias suspirou. 'Parece que vamos ter que ir a pé.'
...
Chegamos na mansão quase uma hora depois, e a equipe de segurança ficou imediatamente alarmada quando nos viu. Correram pra abrir os portões, claramente procurando por algo—provavelmente o carro.
'Meu rei? Por que está a pé?' um dos guardas perguntou.
'Longa história,' Elias respondeu casualmente.
Quando chegamos na varanda da frente, a porta se abriu para revelar Vincent, que fez uma reverência em cumprimento. Sua expressão espelhava a dos guardas; confusão e preocupação.
'Onde está o carro, Rei Elias?' Vincent perguntou.
'Foi pro penhasco.'
A surpresa de Vincent foi palpável. 'Caiu? Mas como?'
Elias encarou Vincent intensamente como se estivesse tentando descobrir algo escondido.
'Bem, eu gostaria de perguntar a mesma coisa. Porque os freios do meu carro falharam de repente,' Elias disse. 'Você acha que isso é só uma coincidência, Vincent?'
'Meu rei, seu carro estava perfeitamente bom. Não tem como os freios terem falhado.'
'Você foi o último a dirigir, Vincent.'
Vincent pareceu confuso, seu rosto ficou pálido. 'Meu rei, você não acha que eu...'
'Não!' interrompi.
Os dois homens se viraram pra mim.
'Não foi o Vincent, meu rei,' eu disse firmemente. 'Ontem à noite, vi uma das empregadas na garagem. Não sei o que ela estava fazendo, mas ela estava embaixo do seu carro.'
O rosto de Elias mostrou descrença, até choque. 'Uma empregada? Quem?'
Antes que eu pudesse responder, fomos interrompidos por gritos e soluços do corredor.
Kat e Flo desabaram no chão quando nos viram.
'Meu rei! Minha rainha!' eles gritaram.
'Tris...' Flo começou a soluçar incontrolavelmente.
'Ela está no quarto dela...' Kat apontou com as mãos trêmulas.
Sem hesitar, corri para os aposentos das empregadas, seguida de perto pelos outros. Até Tia Disa desceu do segundo andar, claramente confusa com a comoção.
Quando entrei no quarto de Tris, a vi deitada na cama. Seu corpo estava azul, com espuma nos cantos da boca.
'Oh, não...' balancei a cabeça em descrença.
Tris estava morta, envenenada por acônito. Não consegui dizer se foi intencional, mas alguém estava tentando encobrir seus rastros.
Elias ordenou que os guardas cuidassem do corpo de Tris, e todos fomos convocados para a sala de estar. Uma forte sensação de culpa pesava sobre mim como se Tris tivesse morrido por minha causa.
Depois de esperar por mais de meia hora, Elias e Vincent finalmente entraram na sala de estar. Elias parecia devastado, embora tentasse esconder.
'O corpo de Tris será enterrado por perto,' Elias disse. 'E este incidente não deve chegar aos lobos reais.'
Todos nós assentimos em concordância.
'Kat, Flo, limpem o quarto de Tris,' Elias ordenou.
'Sim, meu rei,' responderam, chorosas antes de sair da sala com Tia Disa.
Continuei sentada, ainda me sentindo fraca com a morte de Tris. Não consegui parar de me perguntar — o que levou Tris a fazer isso?
'Elena pode estar envolvida?' Elias murmurou.
'Não, meu rei.' Balancei a cabeça firmemente. 'Elena chegou depois que Tris saiu para a garagem. Não foi ela.'
'Ela poderia ter vindo para garantir que Tris concluísse sua tarefa, não poderia?'
Não pude negar a possibilidade. Ainda assim, Elena não estava por perto há algum tempo, e as empregadas da mansão eram monitoradas de perto. Parecia improvável que Elena tivesse algo a ver com isso.
'Se for esse o caso, vou precisar de apoio de outros bandos Alfa.' Elias olhou para Vincent. 'A lealdade dos lobos reais agora está em questão. Preciso resolver isso rapidamente, Vincent.'
Apoio de outros bandos? Fora dos lobos reais? Por que Elias consideraria tal coisa?