Capítulo 130: Quando o Coração Mente
Alina ajudou Raja a entrar numa casa isolada, escondida no fundo da floresta de pinheiros. O peso dele era pesado para ela, os passos dele desiguais por causa da perda de sangue. Ela o guiou gentilmente para um sofá de veludo, velho, mas ainda régio em sua elegância.
Os olhos afiados de Raja vasculharam a sala, cautelosos. 'Casa de quem é essa, Aileen?'
Alina deu um sorriso fraco. 'Bem-vindo à minha antiga casa. Eu vou explicar tudo… enquanto trato da sua ferida.'
A casa era perfeita demais. Sem poeira. Sem sinais do tempo passando. O ar parecia frio, como se segredos vivessem nas paredes. Alina se moveu para uma estante, puxou um livro de couro velho e uma leve clique mecânico ecoou. Uma porta escondida rangeu atrás da prateleira. Raja estreitou o olhar. Essa mulher... tinha muitas camadas.
'Você não é só cirurgiã, é, Aileen?'
Ela soltou uma risada baixa. 'Você está certo.'
Com as mãos experientes, ela pegou um kit médico de uma gaveta, rasgou o tecido rasgado por balas nas calças de Raja e começou a limpar a ferida.
'Um kit de emergência completo na sua casa particular?' Raja murmurou. 'Isso não é algo que um médico comum guarda por aí.'
Alina fez uma pausa. Então, sem olhar para cima, ela disse: 'Eu vou te contar a verdade. Mas você não vai acreditar.'
'Tente comigo.'
'Na noite do acidente… a verdadeira Aileen morreu. Eu não sei como, mas acordei no corpo dela. Eu sou Alina. Líder do sindicato da Viúva Negra.'
Raja congelou. O nome atingiu como um raio. Viúva Negra. Ele conhecia bem demais. Sua mãe foi assassinada por uma mulher com esse nome. Daquele dia em diante, ele jurou odiar toda mulher. E ainda assim… Aileen o fez duvidar.
'Você é a Viúva Negra?!' A voz de Raja trovejou pela sala.
Alina não se assustou. Seus olhos se fixaram nos dele, calmos diante da tempestade. Mas o olhar de Raja se transformou em gelo. Ele não era mais o homem ferido que ela carregava; ele era um predador sem nada a perder.
'Raja, você está ferido, por favor,'
'Não me toque!' Ele afastou a mão dela. 'Nunca mais me toque, assassina!'
Sua voz era gelada. Seu olhar queimava como ácido. Alina congelou. Sua verdade, destinada a salvá-los, havia se tornado a arma que cortava mais fundo. Raja cambaleou em direção à parede, com a respiração irregular.
'Você se lembra de uma mulher rica que você atirou no coração, bem na frente da criança dela?' ele perguntou, com a voz baixa e venenosa.
O coração de Alina parou.
'Ela era minha mãe.'
Silêncio.
'Eu não mato mulheres inocentes', ela disse calmamente. 'Essa não era eu…'
'Pare de mentir!' Raja rugiu. 'Você é a Viúva Negra! É tudo o que preciso saber.'
Ele bateu com a mão na parede ao lado da cabeça dela. Seu rosto estava perto. Perto demais. 'Você achou que eu poderia me apaixonar por você? Depois do que você fez?'
Alina olhou diretamente em seus olhos. 'Eu não sou ela. Este é o corpo de Aileen, sim… mas eu não sou a mulher que matou sua mãe.'
Ele agarrou sua mandíbula com força. 'Que pena que meu coração não consegue perceber a diferença. Mas minha alma? Minha alma quer te destruir.'
E então ele a beijou. Não com amor. Não com carinho. Com raiva. Com dor.
Foi um beijo que puniu. Que rasgou todas as feridas que ambos carregavam. Uma colisão de fúria e tristeza.
Alina não resistiu. Ela o deixou queimá-la. Seus lábios eram fogo. Suas mãos ásperas. Mas algo dentro dela, algo morto há muito tempo, se mexeu.
Ele se afastou, com a respiração irregular. 'Por que você não revidou?' ele exigiu, com a voz rouca.
'Porque eu sei', ela sussurrou, 'que essa dor significa mais para você do que me matar. E se é isso que você precisa… então pegue.'
Raja agarrou seus ombros. 'Não aja com nobreza. Mulheres como você não sentem culpa.'
'Eu não quero perdão', ela sussurrou. 'Só que você acredite, eu não sou a que matou sua mãe.'
Seu olhar vacilou, só por um segundo. Então ele se aguçou novamente. 'Se você ficar ao meu lado', ele disse friamente, 'você fará isso com seu corpo. Porque meu coração… morreu com ela.'
Ele rasgou o tecido em seu ombro, mas Alina pegou sua mão.
'Se você está fazendo isso por vingança, vá em frente', ela disse. 'Mas se você ainda me ama, mesmo que um pouco… então pare de fingir ser um monstro.'
Raja olhou em seus olhos. E em seu silêncio, uma tempestade surgiu. Então ele a beijou de novo. Desta vez mais lento. Mais profundo. Como um homem se afogando, e ela era a única respiração que ele tinha sobrado.
O beijo mudou. Não era só fúria, mais. Era algo mais escuro. Algo mais honesto. A dor deles colidiu, entrelaçando-se em uma valsa silenciosa e retorcida. Uma necessidade que ambos odiavam. Uma verdade da qual nenhum dos dois poderia fugir.
Ele a puxou para perto, como se seu corpo fosse a única coisa que o mantivesse são. Suas mãos percorreram sua pele marcada e quente. Seu coração disparou, não de medo, mas de rendição. Alina fechou os olhos e se deixou cair nele. Suas mãos deslizaram em volta de seu pescoço, puxando-o para perto.
Suas respirações se tornaram uma só. Eles sabiam que isso era errado. Mas eles já haviam cruzado a linha.
Raja a abaixou para o sofá, seu corpo seguindo. Seus dedos escorregaram por baixo dos botões da camisa dela, lentamente, com reverência. Como se estivesse descobrindo cada pedaço da verdade que ela tentava enterrar.
'Eu não deveria te querer', ele sussurrou em sua garganta. 'Mas meu corpo… nunca mentiu para o seu.'
Alina olhou para cima, com os olhos pesados com tudo o que não foi dito. 'Então não minta para si mesmo esta noite, Raja.'
Ele respirou fundo. E então ele cedeu. Naquela casa escura e assombrada, eles se desfizeram de tudo - orgulho, dor, contenção. Sem palavras de amor. Mas em cada toque, em cada suspiro, em cada lágrima que nunca caiu, havia uma confissão. Ambos estavam muito quebrados para serem salvos. E longe demais para parar.