Capítulo 131: A Fuga Que Incendiou o Mundo
A noite tinha ido embora, e no lugar dela tava aquela claridade tímida do amanhecer, espiando por entre as cortinas rasgadas. Uma luz dourada e quente roçou a pele nua da Alina, envolvendo ela como se fosse uma reza silenciosa.
Os olhos dela piscaram e abriram, com a respiração calma. O Raja tava dormindo em cima dela, com a cabeça encostada na curva do pescoço dela, quentinho, pesado, real. O braço forte dele ainda tava abraçando a cintura dela, como se até o ar entre eles fosse distância demais.
A Alina esticou a mão, tocando o rosto dele com carinho. Ela não sabia quando os sentimentos dela tinham começado a mudar. Talvez tenha sido a primeira vez que ele beijou ela com raiva… ou talvez tenha sido bem antes, quando ela viu a dor nos olhos dele, mais profunda do que qualquer ferida que ela já tinha visto.
O Raja se mexeu, soltando um gemido baixo. Os olhos dele se abriram, encontrando os dela em silêncio. Mas em vez de se afastar, ele apertou ela mais forte. E aí ele se moveu devagar, com vontade, se empurrando de volta pra dentro dela antes que ela tivesse se recuperado totalmente da noite anterior.
A Alina engasgou, surpresa… mas não resistiu. O Raja não falou nada, mas o fogo nos olhos dele dizia tudo. Obsessão. Posse. Uma fome que não tinha nada a ver com tesão e tudo a ver com perder o controle.
A mão dele achou o cabelo dela, puxando ela pra um beijo suave, mas mandão.
'Raja…' ela sussurrou, com a voz tremendo entre saudade e cansaço.
Ele não respondeu. Ele se moveu devagar, fundo, como se pudesse gravar a memória dela na alma dele a cada estocada. Não era mais sobre vingança. Era desespero. Tristeza. Uma necessidade de sentir alguma coisa além da dor que tinha esvaziado ele.
Eles viraram um de novo, dessa vez, em silêncio. Enrolados na mistura amarga de amor e ódio. Ele não parou. Várias e várias vezes, ele quebrou as defesas dela a cada movimento, a cada toque. Ele queria respostas. Ele precisava da verdade escondida por trás das mentiras doces dela e dos beijos manchados de lágrimas.
As paredes da Alina finalmente racharam. Por meio de respirações descontroladas e membros tremendo, por meio do calor das lágrimas que ela não conseguia mais segurar, ela quebrou.
'Para, Raja… eu vou te contar tudo…' a voz dela tava quebrada, quase inaudível.
O Raja parou. Ele se afastou devagar e sentou na beira da cama. O corpo dele ainda tava nu, mas a mente dele tava bem acordada agora. Ele olhou pra ela não com raiva, mas com aquele tipo de calma que vem logo antes de uma tempestade.
A Alina virou, se cobrindo com o lençol, os olhos dela fixando os dele.
'Eu era nova. Talvez com a mesma idade que você tinha… quando você perdeu a sua mãe. Mas o assassino… não fui eu.'
A mandíbula do Raja se fechou, mas ele não falou nada.
'Foi minha tia. Ela era a que veio antes de mim. A verdadeira ‘Viúva Negra.' Ela matou a sua mãe. E dias depois, ela tirou a própria vida. Mas antes de morrer, ela deixou tudo pra mim, o título dela, o poder dela, a maldição dela. Aquele nome… virou o meu.'
Ele não se mexeu, mas os punhos dele se fecharam mais forte.
'Eu nunca soube o que realmente aconteceu entre a Tia Terry, sua mãe… ou seu pai. Mas eu sei que eles estavam ligados. Seja por amor, traição, ou algo mais sombrio… eu era só uma menina. Eu não entendia a política nem os jogos.'
Ela respirou fundo. 'Eu não escolhi isso. O submundo me obrigou. Se eu recusasse o nome… eu ia acabar igual a ela.'
A cabeça do Raja abaixou. Quando ele olhou de volta pra ela, tinha uma coisa nova nos olhos dele: confusão. Dúvida. Talvez até compreensão.
'Então, todo esse tempo… eu odiei a pessoa errada?' A voz dele tava rouca, quase um sussurro.
A Alina não falou. Mas as lágrimas dela deram a resposta pra ele.
'Você pode perguntar pro Mahesa,' ela disse baixinho. 'Ele sabe a verdade.'
Os olhos do Raja se arregalaram. 'Meu pai?'
A Alina concordou com a cabeça. 'Sim. Mas a gente não pode ficar aqui. A gente não tem mais tempo.'
Eles se mexeram rápido. Ou pelo menos tentaram. Mas antes que pudessem chegar na porta da frente, um barulho baixo ecoou na distância. Sombras apareceram, armadas e silenciosas, cercando a casa como lobos. Aí veio a voz: fria, sem emoção e muito familiar.
'Aileen. Saia. Você vem comigo.'
A Alina congelou. O coração dela bateu forte contra as costelas. 'Damien?!'
Ela e o Raja trocaram um olhar: chocados, desconfiados.
O Raja xingou baixinho. 'Eles nos acharam muito rápido.'
A Alina mordeu o lábio, o rosto dela perdendo a cor. 'Eu e o Damien… a gente tem uma longa história. Ele provavelmente adivinhou a nossa casa segura mais próxima.'
O Raja checou a pistola, carregando um carregador novo com precisão treinada. 'Você tem outra saída?'
A Alina deu pra ele um sorriso tenso, quase provocando. 'Claro. Mas você vai ter que confiar em mim completamente, Raja.'
Ele ficou olhando pra ela, essa mulher que tinha virado de cabeça pra baixo tudo o que ele achava que sabia. Confiar nela? Ele não tinha certeza. Mas ele sabia de uma coisa: ele não podia deixar ela morrer.
'Mostra o caminho, Viúva Negra.'
Ela concordou com a cabeça e apertou um botão escondido atrás de um quadro empoeirado. A parede rangeu, aí se moveu, revelando um túnel escuro cavado embaixo da casa. Lá fora, a voz do Damien tocou de novo, mais perto agora.
'Aileen… não me faça destruir tudo. Eu sei que você ainda tem um coração. Aquele homem que tá com você? Ele é só a sua culpa em forma humana.'
A Alina pegou na mão do Raja. 'A gente precisa ir. Agora. Se a gente chegar no Mahesa… a gente pode sobreviver a isso.'
Eles saíram da floresta horas depois, machucados, sangrando, quase não aguentando ficar de pé. As roupas deles estavam rasgadas, os rostos manchados de suor e sangue seco. Mas eles continuaram indo.
Na beira de uma estrada de terra, uma caminhonete velha diminuiu a velocidade. O motorista, um estranho com olhos gentis, olhou pra eles e abriu a porta. Eles não fizeram perguntas. Eles não tinham tempo.
O veículo acelerou em direção ao aeroporto. A esperança piscou. Talvez, só talvez, eles estivessem finalmente saindo. Mas quando eles chegaram no portão de embarque, oficiais uniformizados foram pra frente, bloqueando o caminho deles.
'Me desculpem. Vocês não podem embarcar.'
O peito da Alina apertou. 'O quê? Por quê?!'
Um dos guardas levantou um tablet, mostrando um alerta com a tela vermelha.
'Vocês dois foram marcados. Acusados de traição. Vocês estão na lista de procurados do país.'
'Isso é mentira!'
O Raja foi pra frente dela, protegendo ela. Ele sussurrou, 'Isso fede a Damien.'
Eles foram detidos. Cercados. O tempo tava passando rápido. Mas mesmo agora, eles não pararam de lutar. De alguma forma, na confusão, eles se soltaram: uma chance desesperada em um mar de possibilidades. Eles sumiram no caos. O sonho de escapar quebrou, mas eles ainda estavam respirando.
Continuando a correr.
O Damien chegou minutos depois, com os olhos pegando fogo. As botas dele ecoaram a cada passo no chão de mármore do terminal. Nenhum sinal deles. Ele foi até um dos guardas, com a voz como uma faca.
'Onde eles estão?'
O homem endireitou as costas. 'Eles escaparam. Pouco antes do senhor chegar, senhor.'
Silêncio. Aí o punho do Damien bateu na parede. Rachaduras se espalharam pelo mármore.
'Idiotas!'
Ele pegou o telefone, apertou um botão vermelho e gritou no aparelho.
'Mobilizem todas as unidades. Trancam a cidade. Eu quero todas as saídas: terra, mar e céu fechadas. Chequem todas as rotas de contrabandistas, todas as portas dos fundos, todos os buracos de rato. Tragam ela pra mim viva ou morta.'
O terminal ficou quieto enquanto a voz dele ecoava. Aí, mais suave, calma mortal, 'Você não vai escapar dessa vez, Aileen.'