Capítulo 37: Retorno à Cidade
Alina respirou fundo antes de entrar no carro. A cabeça dela ainda tava cheia de nóias, mas ela escolheu ficar na dela.
Leo seguiu e sentou do lado dela. O barulho do motor ligando encheu o ar, mas o motorista não mexeu no carro na hora. Em vez disso, ele virou pra Alina, com os olhos cheios de consideração.
"Acabei de receber uma mensagem dos seus colegas médicos da base militar", ele falou baixinho. "A enfermeira que você salvou… ela acordou."
Alina, que tava olhando pro nada, tencionou na hora. Os olhos dela, que antes tavam meio apagados, se arregalaram de esperança.
"Lana?" a voz dela tremia.
O homem de meia-idade fez que sim com a cabeça. "Sim. Depois de três meses em coma, ela finalmente voltou a si. E hoje, elas voltaram pra cidade."
Por um momento, Alina ficou parada que nem uma estátua. Aí, sem perceber, as lágrimas começaram a brotar nos cantos dos olhos dela. As mãos dela se fecharam no colo, como se tivessem tentando segurar as emoções que tavam explodindo no peito.
"Lana…" ela sussurrou, quase como uma prece.
Leo e o motorista do SUV ficaram quietos, dando espaço pra ela processar a notícia. Eles sabiam o tanto de culpa que ela carregava esse tempo todo. E agora, pelo menos, tinha uma pontinha de esperança.
"Então… você também tem que voltar pra cidade hoje?" Leo perguntou com cuidado.
Alina fez que sim devagar. Mas em vez de alívio, um aperto tomou conta do peito dela. Se ela voltasse pra cidade hoje, esse ia ser o último dia dela com Leo.
Os dois ficaram em silêncio. Nenhuma palavra foi dita, mas a quietude deles carregava um significado complicado demais pra expressar.
O SUV começou a andar, deixando a vila pra trás. As estradas empoeiradas que antes pareciam estranhas agora guardavam tantas lembranças. Os dois ficaram olhando pela janela, com os pensamentos vagando longe.
Alina mordeu o lábio, tentando segurar a tempestade de emoções que tava dentro dela. Essa viagem tava pesada mais do que ela esperava.
O SUV seguiu andando, levando ela pro aeroporto. A viagem inteira foi só silêncio. Sem palavras, só o sussurro do vento de vez em quando entre eles.
Alina olhou pra fora da janela, mas a cabeça dela não tava ali. O coração dela tava pesado – mais pesado do que ela imaginava.
"Por que eu tô sentindo isso?" os pensamentos dela ecoaram. "Eu devia estar acostumada a dizer tchau. Mas por que esse tá doendo tanto?"
Ela apertou as mãos no colo, tentando segurar as emoções que tavam borbulhando dentro dela. Isso não era a cara dela. A Alina de antes não ia ficar tão fraca por causa de um simples tchau.
Mas… a Alina de antes não era médica. A Alina de antes era uma rainha da máfia. Uma mulher que tava no topo do poder, sem medo de perder. Mas agora? Agora, ela era só uma médica comum, trabalhando sob pressão de superiores, vivendo por regras que não eram as dela. Ela respirou fundo, tentando se acalmar.
Leo, sentado do lado dela, deu uma olhada pra ela por um instante. Como se quisesse falar alguma coisa. Mas igual antes, ele só respirou fundo e ficou quieto.
Uns minutos depois, o SUV parou no destino deles. O aeroporto. Alina olhou pra frente, com o coração disparado. Esse tchau tava parecendo de verdade agora.
Leo, que tinha ficado calado o tempo todo, finalmente falou. A voz dele tava hesitante, como se ele tivesse algo pra dizer mas não soubesse como.
"Se cuida… e se protege", ele falou baixinho.
Alina virou pra ele. Ela queria responder, queria falar alguma coisa – mas a garganta dela tava seca. Nenhuma palavra saiu. No final, ela só fez que sim com a cabeça. Aí, sem olhar pra trás, ela foi andando.
Leo ficou ali, olhando a figura dela sumir, até ela desaparecer na multidão do aeroporto. Dentro do avião, Alina tentou se distrair. Mas a imagem de Leo ficou na cabeça dela. O olhar dele, a voz dele, até o silêncio que eles tinham dividido – coisas que deviam ser normais – agora tavam parecendo tão importantes.
Enquanto isso, Leo voltou pra vida dele. Uma vida sem amarras, sem proibições. Ele era um médico mercenário – sem vínculo com nenhuma instituição, sem ligação com ninguém. E isso devia ser suficiente pra ele.
Mas, pela primeira vez, ele começou a duvidar de tudo.
No dia seguinte, Alina finalmente chegou no aeroporto da cidade. Os passos dela tavam pesados, a cabeça dela ainda cheia de lembranças da despedida com Leo. Mas ela sabia que a vida tinha que seguir em frente.
Sem perder tempo, ela foi direto pro hospital. Só tinha uma coisa na cabeça dela agora – Lana.
Quando ela chegou, foi recebida pelos colegas médicos e enfermeiras. Mas tinha algo estranho nas expressões deles. Eles não tavam só felizes de ver ela de volta; tavam parecendo… orgulhosos.
"Você é incrível, Doutora!" uma das enfermeiras falou toda animada.
Alina franziu a testa. "Como assim?"
"Você tá famosa agora!" a enfermeira riu.
A confusão de Alina aumentou. Mas antes que ela pudesse perguntar mais, uma voz conhecida gritou com entusiasmo.
"Doutora Aileen, como você ficou famosa assim, hein?" a voz alta do Dr. Raka ecoou nos ouvidos dela.
Alina deu uma olhada pra ele com raiva. "Do que você tá falando, Dr. Raka?" ela perguntou, irritada. "Acabei de chegar e já tá me irritando."
Em vez de responder, Raka deu uma risadinha e apontou pra televisão que tava pendurada na área de espera do hospital. Alina seguiu o gesto dele – e na hora congelou.
Na tela, as notícias sobre ela tavam dominando a transmissão. O nome e a cara dela apareceram, junto com imagens da vila remota que ela tinha acabado de sair. Os repórteres tavam falando como ela e Leo tinham lutado pra ajudar as pessoas de lá – pessoas que tinham sido deixadas de lado por tanto tempo.
Mais surpreendente ainda, o governo finalmente tinha respondido. Eles prometeram melhorar a vila, garantindo que os moradores recebessem mais atenção médica e educação. Alina ficou parada que nem uma estátua. Será que tudo isso tinha acontecido de um dia pro outro?
As emoções dela borbulharam. Ela nunca tinha procurado atenção, nunca tinha querido os holofotes. Mas se isso significasse que a vila ia finalmente ver a mudança… então talvez, tudo que ela tinha passado não foi em vão.
Ela respirou fundo, tentando processar tudo. Mas uma coisa era certa – a vida dela tinha acabado de mudar. De novo.
Mas nem todo mundo tava feliz com a notícia. Por trás da cobertura da mídia e dos elogios que ela recebeu, olhos que ninguém via tavam observando ela com desgosto.
Numa sala fechada dentro do hospital, vários médicos veteranos e até o diretor do hospital ficaram em silêncio. As expressões deles tavam tensas, cheias de desgosto.
"Ela tá ficando intocável agora", um dos médicos murmurou, com a voz cheia de ódio.
"A mídia tá transformando ela numa heroína", outro acrescentou com um sorriso de deboche. "Se a gente agir sem pensar, nós vamos ser os que vão ser investigados."
O diretor do hospital, um homem de cinquenta e poucos anos com uma expressão fria, se encostou na cadeira. Os dedos dele batiam na mesa num ritmo lento – sinal de que ele tava pensando muito.
"Mas", ele finalmente falou, com a voz baixa mas firme, "isso não significa que a gente não pode dificultar a vida dela, né?"
Por um momento, o silêncio tomou conta da sala. Aí, um por um, eles trocaram olhares cúmplices.
Eles não podiam derrubá-la diretamente. Mas podiam deixar o caminho dela mais difícil. E era exatamente isso que eles tavam planejando fazer.
"Reorganiza todas as agendas de cirurgia com o nome da Aileen e da equipe dela", o diretor ordenou sem hesitar. A voz dele tava calma, mas as intenções dele tavam claras.
Os outros médicos se olharam, como se estivessem pesando o plano. "Vamos ver quanto tempo ela aguenta", ele acrescentou com um sorriso de canto de boca.