Capítulo 114: Retorno ao Bungalow
'Come um pouquinho, não se torture assim…"
A voz de Leo era suave, mas pesada de emoção. Ele sentou-se na beira da cama, segurando uma pequena bandeja com mingau intocado e chá morno desde ontem. As mãos de Alina permaneceram imóveis, seu corpo frágil encostado fracamente na parede, seus olhos vazios olhando pela janela como se o mundo lá fora a tivesse esquecido há muito tempo.
Já fazia mais de uma semana desde aquela noite sombria. Desde o bebê que ela nunca chegou a segurar, beijar ou dar um nome, que escapou sem um som. Alina não chorava mais. Suas lágrimas já tinham secado. Mas o silêncio que o substituiu era muito mais aterrorizante.
Seu cabelo estava bagunçado, sua pele pálida e seu corpo lentamente definhando por falta de alimento. Era como se ela tivesse morrido… só seu coração ainda batia.
Leo gentilmente segurou sua mão fria. "Eu sei que é difícil. Mas você ainda está viva, Alina. Você precisa se levantar, seguir em frente. Você ainda é jovem… você pode ter outro bebê algum dia."
Mas ele sabia que nenhuma palavra poderia tocar a ferida esculpida na alma de Alina. Então Leo tomou uma decisão.
Em segredo, ele providenciou uma viagem de volta para Bungalow. Ele contatou alguém do seu passado – um diplomata que poderia contrabandeá-los sem deixar rastros. Passagens, documentos, até um lugar temporário para ficar no centro da cidade – tudo foi providenciado. Alina não sabia de nada.
Não para fazê-la sofrer. Não para forçá-la a encarar Raja novamente. Mas Leo sabia… a única maneira de Alina realmente se curar era enfrentar o que ela havia deixado para trás. Incluindo o homem que ainda vivia em seu coração.
Fora do quarto, Leo sussurrou ao telefone, "Duas passagens para Bungalow, na noite depois de amanhã. Sem nomes reais no manifesto. Certifique-se de que o lugar esteja seguro."
Ele olhou para a porta fechada do quarto… e para o coração que ele nunca poderia chamar de seu. "Sinto muito, Alina… Mas eu tenho que fazer isso. Por você. Pela sua vida."
Em Bungalow, o céu da noite queimava vermelho como sangue. Como se refletisse a turbulência dentro do coração de Raja. Um ano havia se passado desde que Aileen desapareceu. Desde a última noite em que ele a viu parada sob a luz da rua, olhando para ele como se fosse um adeus.
Desde aquele dia, nem um se passou sem a busca. Todos os cantos da cidade, todos os portos, até as fronteiras foram vasculhadas. Ele enviou seus melhores homens. Mas sempre o mesmo resultado. Nada. Aileen desapareceu como um fantasma – sem rastro, sem mensagem, sem despedida.
E Raja… mudou lentamente. Antes um homem cruel, mas controlado, ele havia se tornado frio. Intocável. Indiferente a tudo… exceto uma coisa – encontrar Aileen.
Mas a pressão de sua família aumentou. Seu pai, enfraquecendo, estava ficando sem paciência por um neto. Cada reunião familiar se tornou uma tortura mental.
"Raja, você deve pensar além do seu ego", disse seu pai, sua voz fraca, mas seu tom inflexível. "Este reino precisa de um herdeiro. Eu não vou viver para sempre."
E como o empurrão final, eles forçaram Raja a um noivado. Uma mulher de uma família nobre, de fala mansa, com todas as qualidades "perfeitas" que sua família desejava.
Mas para Raja, ela era apenas uma silhueta vazia. Seus olhos não tinham luz. Ele nem se lembrava do nome dela.
"Ela não é Aileen…" Raja disse friamente quando ela foi formalmente apresentada.
A partir daquele dia, ele nunca mais a olhou nos olhos. Sem toque, sem palavras. Ele trancou seu coração.
Em seu escritório particular, escondido entre arquivos de negócios e relatórios comerciais, havia uma foto desbotada. Aileen. Sorrindo timidamente, cabelo bagunçado pelo vento, olhos olhando para ele como se o mundo fosse só deles.
Raja apertou a foto com força.
"Onde você está, Aileen…? Por que você não volta para mim…?".
Ele não sabia que, em poucos dias, a mulher que assombrava cada um de seus pensamentos retornaria a Bungalow. Trazendo feridas mais profundas… e verdades que poderiam destruir ambos.
A poucos dias, Alina e Leo se estabeleceram em uma casa modesta em um canto tranquilo de Bungalow. Não no centro da cidade, nem perto das luxuosas propriedades de Raja. Mas longe o suficiente para permanecerem escondidos.
Alina mal falava desde que chegaram. Todas as manhãs, ela se sentava na varanda, olhando para o céu de uma cidade que um dia ela fugiu cheia de medo e dor. Bungalow não tinha mudado. O céu ainda era azul. O ar ainda carregava o cheiro de canela do antigo mercado ao longe. Mas para Alina, tudo parecia estranho. Porque ela não era mais a mesma mulher.
Leo sabia disso. Ele sabia que Alina havia perdido parte de sua alma com o bebê que não nasceu. Mas o que mais doía era o fato de que o nome de Raja ainda vivia em seu silêncio. Não o dele. Todas as noites, Leo queria perguntar por que você continua olhando pela janela como se estivesse esperando por alguém? Mas ele não teve coragem.
"Se você quiser ir para outro lugar, é só dizer…" Leo murmurou numa noite, sentado ao lado dela sem encontrar seus olhos.
Alina simplesmente balançou a cabeça. "Eu vou ficar aqui. Por enquanto."
Leo engoliu as palavras que não podia dizer. Ele sabia que o "por enquanto" de Alina não era sobre ficar mais tempo com ele. Mas porque ainda havia algo… ou alguém… por quem ela estava esperando. E, longe, no centro da cidade, ninguém sabia que Raja acabava de receber um relatório de seus homens.
"Senhor… há algo que você precisa ver."
Sem dizer nada, o homem entregou a ele um tablet. Na tela estava uma foto de uma mulher andando na calçada perto do distrito sul de Bungalow – não muito longe da zona de expatriados privados. Cabelos longos e bagunçados – um corpo mais magro do que quando Raja a viu pela última vez. Mas aqueles olhos, aquele rosto…
"Aileen."
Raja se levantou instantaneamente. "Onde é isso?"
"Zona Sul. Temos certeza de que é ela, senhor. Estamos rastreando-a há dias. Ela está morando com um homem… Leo."
O nome fez a mandíbula de Raja se contrair. Sem mais palavras, ele pegou as chaves do carro e saiu. Seus homens se apressaram para segui-lo. Em poucos minutos, o carro preto acelerou em direção ao Sul de Bungalow. Um lugar que Raja nunca tinha visitado desde que Alina partiu.
Dentro da pequena casa alugada, Alina sentou-se na sala de estar, as mãos envolvendo uma xícara fria de chá. Seus olhos olhavam fixamente para a parede. Leo sentou-se em frente a ela, tentando agir normalmente.
Mas Alina sabia. Alguém estava chegando. Não por causa de nenhum som, mas porque seu coração tinha começado a disparar. E naquele instante, pela janela aberta, ela viu o carro preto parar em frente à casa. A porta abriu. Um homem alto, de ombros largos, de terno preto simples, saiu.
"Raja?!"
O corpo de Alina congelou. Seus olhos se encontraram. Sem palavras, sem som. Mas naquele segundo, cada ferida, cada desejo, cada fúria enterrada… se abriu de novo.