Capítulo 70: Retornando como Médico
‘Voltamos pro hospital.’
No dia seguinte, a vibe no hospital tava diferente. Aquele prédio que parecia antiguado agora tava bombando, modernão, recém-reformado, tipo um espelho da transformação que rolou na vida da Alina também. Ela tava voltando pro mundo da medicina, que agora era a identidade dela.
Enquanto isso, o Leo tava no meio da correria como diretor do hospital. Tava todo mundo no mesmo lugar, mas parecia que viviam em mundos separados. Leo vivia trancado em reuniões, e a Alina tinha botado o jaleco de médica de novo, se jogando no centro cirúrgico. Até nas pausas, era raro bater o horário. Sem encontros por acaso, sem uns olhares rápidos. E naquela solidão toda, alguém apareceu do nada.
‘Alina.’
A voz veio no meio da barulheira do refeitório do hospital.
‘Jio? O que você tá fazendo aqui?’
Ele deu um sorrisinho, mas os olhos… sei lá, pareciam querer alguma coisa, saudade talvez, ou algo mais complexo.
‘Só queria te ver,’ respondeu o Jio de boa, olhando pros lados. ‘Seu trampo novo tá bem diferente do seu mundo antigo.’
‘Agora eu sou assim,’ disse a Alina, dando de ombros. ‘Novo cargo, tem que se adaptar.’
O Jio sorriu e concordou com a cabeça devagar. ‘Você parece diferente. Mas ainda é a mesma Alina que eu conhecia.’
A conversa fluiu de boa, com umas risadas soltas, como se o passado complicado deles nunca tivesse existido. Mas, numa janela de vidro no segundo andar, uns olhos tavam vendo tudo – os do Leo.
A cara dele não entregava nada, mas ele apertou o celular com força. Segundos depois, uma mensagem pipocou no celular da Alina.
Leo: ‘Alina, sei que você tá com o Jio. Sabe que não gosto de te ver com outros caras.’
Por um segundo, o sorriso da Alina sumiu. O olhar ficou distante, antes dela se levantar rapidinho.
‘Tenho que ir,’ ela disse, baixinho.
O Jio franziu a testa, sentindo a mudança. ‘Que foi? Aconteceu alguma emergência?’
A Alina abaixou os olhos, escondendo o nervosismo com uma expressão calma. ‘Preciso voltar pro trabalho.’
Saiu rápido demais, seco demais. O Jio olhou pra ela por um tempão, sentindo a mentira, mas não forçou. Ele sabia dos limites.
‘Beleza,’ ele falou, gentil. ‘Se precisar conversar, já sabe que eu tô aqui.’
A Alina não respondeu. Simplesmente saiu, deixando o Jio pra proteger os sentimentos do Leo, mesmo com os dela pesando. Ela sabia que tinha coisas que precisavam ser protegidas, mesmo que nem sempre fossem entendidas.
Quando chegou no escritório, o Leo já tava lá. Parado perto da janela, de braços cruzados, com um olhar afiado e impossível de ler. O silêncio tomou conta do lugar, frio e pesado, como uma tempestade prestes a começar.
‘Só um dia de volta…’ o Leo finalmente falou, a voz calma, mas pressionando, ‘…e o Jio já tá aqui.’
Ele virou devagar pra ela, o ciúme visível nos olhos. ‘Por que ele tá aqui?’
A Alina respirou fundo. Sabia que não era só sobre o Jio. Era sobre confiança. Sobre uma história antiga que ainda rondava o ar.
‘Ele veio como amigo, Leo,’ ela disse, de boa. ‘Só isso.’
‘Mas ele te olhou diferente,’ respondeu o Leo, rápido. ‘E eu sei que caras como ele não aparecem por nada.’
O silêncio entre eles tava sufocante. A Alina sabia que as palavras talvez não fossem suficientes.
‘Eu te escolhi, Leo. E já provei isso,’ ela disse, encarando ele. ‘Mas se meu passado for ficar o tempo todo testando sua confiança, a gente nunca vai pra frente.’
O Leo não disse nada. A barreira entre o amor e o orgulho tava ficando fina, ameaçando desmoronar.
Antes que pudessem continuar, o celular do Leo tocou. Uma mensagem da secretária. Uma reunião importante do conselho tava começando.
‘Vamos conversar sobre isso depois,’ o Leo disse, as emoções quase sem controle. ‘Tenho uma reunião.’
A Alina deu um sorrisinho fraco e concordou com a cabeça. Ela entendia que aquele era o mundo do Leo, cheio de responsabilidades que não podiam esperar. O que ela não sabia era que o Leo já tinha tomado outra decisão.
Mais tarde, o Leo tava sentado num lounge privativo num restaurante perto dali. Na frente dele, o Jio, antes amigo, agora rival não declarado pelo mesmo coração.
‘Somos amigos há anos,’ disse o Leo, de braços cruzados. ‘Não vamos estragar isso por causa de uma mulher.’
O Jio não respondeu. O olhar dele tava calmo, mas profundo, sabendo direitinho pra onde aquela conversa ia.
‘Não tô tentando te tirar a Alina, Leo. Só queria ver ela,’ ele disse, sincero. ‘Mas se você tem medo de perder ela, então agarra ela. Não deixa ela escapar porque você tá ocupado demais pra tocar o coração dela.’
As palavras doeram. O Leo fechou os punhos embaixo da mesa, não só de raiva, mas de medo.
‘Você sabe o quanto eu lutei pra conquistar ela,’ o Leo disparou. ‘Por que você não foi atrás dela naquela época?’
O Jio encarou ele. A voz, quando veio, tava pesada de arrependimento.
‘Essa foi a minha burrada. Eu tava muito focado na minha missão, num mundo que achava que importava… E agora, eu vejo que eu amo ela há muito tempo. Mas só agora eu a vejo de verdade.’
O silêncio engoliu a mesa. Dois amigos, sentados um de frente pro outro, um amor compartilhado entre eles. Nenhum sabia quem ia vencer no final.
Enquanto isso, no terceiro andar do hospital, a Alina tava focada em examinar um homem idoso. As mãos dela se moviam com cuidado, rápidas, mas gentis. Mas a tranquilidade foi quebrada por uma confusão no corredor.
Ela se virou e correu, por instinto, na direção do barulho. Na frente do escritório da administração, uma mulher de meia-idade tava chorando, agarrada desesperadamente no braço de uma enfermeira.
‘Por favor, a gente paga depois! Só ajude ele primeiro!’ a mulher soluçava, quase quebrando.
‘Desculpa, senhora, de acordo com o procedimento, a cirurgia não pode ser feita até que o pagamento seja liberado,’ respondeu a equipe, nervosa.
‘Por favor, somos uma família pobre. Não conseguimos arrumar essa grana tão rápido…’ a mulher chorava, tremendo de desespero.
Do lado dela, um jovem, provavelmente o filho, tava pálido e com dificuldade pra respirar numa maca. O tempo dele tava acabando.
Sem hesitar, a Alina deu um passo à frente. ‘Levem ele pra sala de cirurgia. Agora!’ a voz dela soou alta, firme e mandona.
‘Mas doutora, a administração—’
‘Eu falei agora!’ Os olhos dela furaram eles. ‘Se alguma coisa acontecer com o paciente por causa dessa demora, quem vai se responsabilizar?’
Todo mundo ficou em silêncio.
A Alina virou pra mulher e curvou a cabeça gentilmente. ‘Vou conversar com o diretor depois. Agora, a vida do seu filho é o que importa.’
A mulher só conseguiu chorar mais forte, sussurrando agradecimentos sem fim. O paciente foi levado correndo pro tratamento, as enfermeiras se movendo rápido sob as ordens da Alina.
‘Ela é ousada demais…’ murmurou o Leo baixinho, observando pela câmera do circuito interno no escritório dele. Ele viu tudo, como a Alina se adiantou sem pensar duas vezes, quebrando as regras pra salvar uma vida.