Capítulo 99: O Passado de Aileen
As palavras saíram tão fáceis, mas ela sabia que era uma promessa. Uma promessa não dita ao mundo, mas à alma que lhe deu a vida. E no final desta jornada, Alina ia descobrir algo mais do que apenas uma ligação de sangue. Talvez uma verdade que pudesse mudar tudo.
Quando Alina entrou no Hospital Psiquiátrico de Harrowville, o silêncio a recebeu. O cheiro forte de desinfetante e o eco dos passos no corredor vazio fizeram com que o ambiente parecesse opressivo.
Uma enfermeira, notando-a, parou bruscamente. Seus olhos arregalaram-se e sua mão cobriu instintivamente a boca.
"Você... Alina? A irmã da paciente 274?"
Alina congelou. Ela podia confirmar, mas a hesitação a impediu de falar.
"Eu... não tenho certeza", respondeu ela suavemente. "Como sei que ela é realmente da minha família?"
A enfermeira pareceu indecisa, então chamou alguém. Pouco depois, uma enfermeira sênior apareceu, uma mulher de meia-idade com olhos que pareciam carregar inúmeras histórias.
Com uma voz calma e um rosto melancólico, ela começou a falar. "Há dez anos, a menina foi trazida para cá pelo pai. Ela sofreu um trauma severo depois de testemunhar sua mãe ser assassinada bem na frente dela. Naquele momento, você tentou salvá-los e foi esfaqueada no estômago."
Alina prendeu a respiração.
"Sua irmã pensou que você morreu por causa dela. Aquela culpa quebrou a mente dela. Você estava em coma, ela foi internada aqui e você foi levada para outro hospital."
A enfermeira respirou fundo antes de continuar. "Infelizmente, seu pai morreu em um acidente logo depois. Vocês duas se tornaram órfãs."
Alina mal podia acreditar no que estava ouvindo. "Depois que você acordou do coma, você foi cuidada por um médico, o Doutor Ringgo. Ele te tratou como se fosse sua própria filha. Mas a vida foi cruel. Ele morreu logo depois de um ataque cardíaco. Sua esposa não podia aceitar sua presença. Ela acreditava que você era filha de um caso. Então você foi enviada para um orfanato."
Alina ficou parada, paralisada.
"Mesmo assim", a enfermeira continuou, "seu pai a matriculou em um programa de bolsas de estudos desde que você era criança. Foi isso que a salvou. Você trabalhou duro e se tornou médica, como agora."
Naquele momento, o mundo de Alina pareceu desmoronar. Os fragmentos que antes pareciam estranhos agora se juntaram em uma única imagem vívida. Ela não estava apenas vivendo no corpo de Aileen. Ela havia herdado suas feridas, suas lutas e um passado encharcado de sangue e lágrimas.
"Oh, meu Deus... você tem sofrido desde que era criança?"
A voz de Alina era quase um sussurro. Seus olhos olhavam fixamente, além das paredes brancas do hospital, como se estivesse olhando para um passado que não era seu, mas que agora parecia insuportavelmente próximo.
"Eu pensei que tinha a vida mais triste..." ela murmurou, um sorriso amargo curvando seus lábios, "Mas parece que a sua era muito pior."
Ninguém respondeu. Apenas o silêncio os envolveu. A enfermeira sênior olhou para ela com compreensão em seu olhar. Ela sabia que aquelas palavras eram mais do que simpatia. Elas eram o começo de algo maior, um reconhecimento e talvez a redenção.
"Você quer vê-la agora?" a enfermeira perguntou gentilmente.
Alina assentiu lentamente. Mas desta vez, foi com certeza. Elas caminharam pelo longo e frio corredor. As paredes estavam forradas com pinturas estranhas feitas por pacientes. Ao longo do caminho, elas passaram por várias salas com pequenas janelas. De dentro vinham risadas histéricas, soluços e gritos que faziam os pelos da nuca de Alina se arrepiarem.
Ela prendeu a respiração. Esse não era um mundo que ela conhecia. Mas ainda assim, ela continuou andando. Até que, finalmente, a enfermeira parou em frente a uma porta de ferro.
"Ela está aqui dentro", ela sussurrou, abrindo suavemente a porta.
E naquela sala, o passado de Aileen e talvez o futuro de Alina estavam esperando.
Alina entrou na pequena sala. O ar lá dentro estava mais frio, mais silencioso. No canto, estava uma menina com cabelo bagunçado e olhos inchados. Ela riu suavemente, então de repente caiu em lágrimas, repetindo um nome.
"Aileen... Aileen... não me deixe..."
Alina ficou parada, congelada. Seu coração disparou. Ela conhecia aquela menina, mesmo que nunca a tivesse encontrado antes. Mas pela forma como ela chamava aquele nome, pela dor em sua voz, pelo medo envolto em sua risada e choro, Alina sabia. Aquela era Rania. A irmã de Aileen.
A enfermeira deu um passo à frente, agachando-se e falando no tom mais gentil.
"Rania, olhe com atenção. Esta é sua visita. Esta é sua irmã, Alina. Você se lembra dela?"
Rania virou lentamente a cabeça, olhando para Alina com olhos confusos. Por um momento, não houve expressão. Então seu rosto mudou. Ela riu baixinho, então gritou enquanto coçava os braços.
"Aileen está morta! Eu matei ela! Aileen... não fique brava... eu sinto muito..." ela chorou.
Alina não conseguiu mais se conter. Ela correu para frente, ajoelhou-se diante de Rania e abraçou o corpo frágil com força.
"Rania... Eu sou Alina." Sua voz tremeu. "Eu estou viva. Eu estou aqui. Sua irmã voltou..."
Rania não respondeu imediatamente. Seu olhar estava vazio, seu choro parou, mas o riso não voltou. Ela apenas abraçou os joelhos, balançando-se suavemente enquanto murmurava.
"Aileen está viva ou Aileen é um fantasma? Aileen está viva ou Aileen é um fantasma..."
Alina respirou fundo. Ela continuou segurando a mão da irmã, mesmo quando Rania se afastou lentamente.
A enfermeira sussurrou no ouvido de Alina: "Sinto muito. A condição dela flutua. Alguns dias ela consegue falar normalmente, mas muitas vezes ela volta para suas ilusões."
Alina assentiu. Ela não estava desanimada. Se alguma coisa, ela se sentiu ainda mais determinada a ficar.
"Há quanto tempo ela está assim?"
"Desde que ela tinha nove anos", respondeu a enfermeira. "Desde o incidente, ela nunca mais voltou. Às vezes ela está consciente, às vezes ela está perdida. Mas hoje, ela não te atacou. Isso é progresso."
Alina olhou para Rania, que agora estava traçando algo no chão com o dedo, desenhando algo que só ela conseguia entender.
"Eu voltarei amanhã", Alina sussurrou. "Todos os dias, se for preciso."
A enfermeira sorriu. "Ela precisa de tempo. Mas talvez seja isso que ela está esperando."
Alina deu uma última olhada para sua irmã antes de sair. Seu coração estava cheio de emoções mistas: ternura, incerteza e um fardo que agora parecia seu.
Ao sair do hospital, Alina enxugou o rosto cansada. As emoções que ela tinha tentado tanto reprimir agora a atormentavam. Mas antes que ela pudesse ser levada por elas, seu telefone vibrou em sua mão. 20 chamadas perdidas. Leo.
Seus olhos arregalaram-se. "Oh, meu Deus..." ela murmurou, discando rapidamente.
Não demorou muito para a voz de Leo chegar. "Alina?! Onde você esteve?! Eu estava ficando maluco tentando te encontrar!"
A voz dele era uma mistura de pânico e raiva. Mas, acima de tudo, era cheia de preocupação genuína.
Alina prendeu a respiração. "Desculpe, eu não verifiquei meu telefone. Eu estava no Hospital Psiquiátrico de Harrowville."
Houve um silêncio por um momento. Então a voz de Leo caiu, ainda urgente. "Harrowville? Por quê? Quem é a garota sobre quem a mídia não para de falar? É verdade que ela é irmã de Aileen?"
Alina mordeu o lábio. "Eu não sei... talvez. Mas ela não me reconheceu. A condição dela é muito ruim, Leo. Ela está traumatizada desde criança. Eu só preciso entender mais antes de tirar conclusões."
Leo ficou em silêncio novamente. Mais tempo desta vez. "Alina... por que você não me contou desde o início? Eu poderia ter ajudado. Você não precisa carregar isso sozinha."
Alina fechou os olhos. Aquela voz - calma, sincera e calorosa. Ela sabia que Leo não era alguém para quem ela pudesse mentir ou afastar. Mas uma parte dela ainda não estava pronta para se abrir completamente.
"Porque... eu nem sei quem Aileen realmente é, Leo."
E desta vez, Leo não insistiu mais. Ele apenas suspirou suavemente e disse: "Tudo bem. Mas me prometa uma coisa: não desapareça assim de novo. Preciso saber que você está bem."
Alina assentiu, embora Leo não pudesse ver. "Eu prometo."