Capítulo 74: Um Ombro Amigo
A voz de Jio soou sincera, mas tinha um quê de animação que ele não conseguia esconder.
Alina deu um sorriso fraco, segurando a tempestade de emoções dentro dela. Uma parte dela queria revidar a dor que tinha aguentado. Mostrar que ela não era o tipo de mulher que podia ser deixada na mão. Mas outra parte... ainda estava destruída. Ainda era o Leo.
"Só estou a experimentar algo novo", Alina finalmente respondeu, com um tom casual, mas cheio de mágoa escondida.
Jio olhou para ela atentamente, a tentar decifrar o significado por trás das suas palavras. Mas antes que pudesse perguntar mais, um garçom aproximou-se da mesa de Leo e acidentalmente derramou um copo de água, ensopando parte do vestido da investidora.
Todos viraram-se para olhar, incluindo Alina e Jio. Instintivamente, Alina olhou para Leo. E quando os seus olhos se encontraram…
O tempo pareceu parar. Apenas uma fração de segundo, mas o suficiente para Leo dizer tudo através daquele olhar: raiva, ciúmes, arrependimento e amor que não tinha morrido.
Alina congelou. O seu coração bateu forte, como se as paredes que ela tinha construído estivessem a começar a rachar.
Jio seguiu o olhar de Alina, e então ele entendeu. Leo não era apenas o seu passado. Ele ainda tinha um lugar no seu coração.
"Alina…" A voz de Jio era mais suave agora, mais cautelosa. "Se não estás recuperada dele… eu posso ir embora."
Alina virou-se lentamente para olhar para ele, os seus olhos a brilhar.
"O que eu preciso agora… não é alguém que vem e vai", ela disse honestamente. "Mas alguém que fique, mesmo quando eu não sei onde é que está a minha casa."
Jio baixou a cabeça brevemente. Então ele assentiu.
"Eu posso ser essa pessoa, se me deixares."
E do outro lado da sala, Leo ainda estava a observar de trás do vidro. A sua mão fechada sob a mesa. O seu peito apertado, a segurar tudo o que queria dizer.
Porque agora ele percebeu que se continuasse a deixar Alina sofrer sozinha, mais cedo ou mais tarde outra pessoa a curaria. E quando isso acontecesse, ele poderia realmente perdê-la.
Então chegou o momento. Alina desculpou-se para ir à casa de banho com uma razão trivial. Mas o que ela realmente precisava era de uma pausa, uma pausa das emoções emaranhadas, do olhar de Leo, da esperança nos olhos de Jio. O que ela não esperava era que Leo a seguisse.
Eles encontraram-se do lado de fora da casa de banho feminina, mesmo quando Alina estava prestes a voltar para a mesa. A sua respiração falhou ao vê-lo encostado casualmente na parede, como se estivesse à espera.
"Passaste lá dentro um bom bocado", disse Leo secamente.
Alina cruzou os braços. "Surpreendente que ainda tenhas tempo para acompanhar quanto tempo eu faço xixi. Pensei que estavas ocupado com a Senhorita Sexy Grudenta a pendurar-se no teu braço."
Leo levantou uma sobrancelha. "Ah, então estavas a ver?"
"Por favor", Alina zombou. "Difícil não ver. Vocês estavam praticamente a comer a cara um do outro em público."
Leo aproximou-se. "E estavas praticamente sentada no colo de outro homem."
"Pelo menos eu não estava a fingir ser profissional enquanto flertava em horário de trabalho", ela retorquiu, com os olhos afiados.
Leo suspirou, frustração e irritação claramente escritas no seu rosto. "Mudaste, Alina. Sedutora agora, hein? A encostar-se a qualquer homem por aí?"
Alina soltou uma gargalhada seca. "Engraçado. Vindo do tipo a desfilar com uma mulher seminua em público."
Leo cerrou a mandíbula. "Ela é uma investidora. Sabes disso."
"E Jio é teu amigo", Alina respondeu friamente.
O silêncio caiu. As suas respirações misturaram-se, a tensão espessa no ar.
"Porque és assim, Alina?" Leo finalmente perguntou. "Não podemos apenas conversar como adultos em vez de nos atacarmos como crianças?"
Alina aproximou-se, olhando diretamente nos seus olhos. "Porque estou cansada, Leo. Cansada de fingir que não me importo, quando estás sempre na minha cabeça. Cansada de fingir ser profissional, quando nós nunca realmente superámos."
O olhar de Leo suavizou-se. Alina exalou profundamente e virou-se para sair. Mas antes que ela pudesse ir embora, Leo disse: "Se ainda te importas… porque tentas ter ciúmes?"
Alina parou. Os seus ombros enrijeceram.
"Porque nunca me deste uma razão para acreditar que eu era a única."
Ela tinha acabado de entrar de volta no café quando passos rápidos a alcançaram. Antes que pudesse virar-se, uma mão quente agarrou o seu braço.
"Leo, o que—"
A sua palavras foram cortadas quando Leo a beijou. Profundamente. Ferozmente. Com todas as emoções que ele já não conseguia conter. Alina tentou afastá-lo, mas o seu corpo congelou, o seu coração disparou, e antes que pudesse pensar claramente, ela cedeu.
O barulho do café desapareceu no nada. Mas quando o beijo terminou, a realidade atingiu-os com mais força do que qualquer um deles esperava.
Na entrada estava Dr. Hanif, o médico sênior, ladeado por dois investidores estrangeiros, e a mesma mulher glamorosa que tinha agarrado Leo. E à esquerda estava Jio. A sua cara congelada. Sem raiva. Sem perguntas. Apenas um olhar vazio, como alguém que tinha perdido algo que nunca sequer teve.
Leo exalou, tensão na sua postura. Alina, ainda congelada, olhou para os olhos agora fixos neles.
Sem demora, Dr. Hanif, conhecido por ser a figura mais conservadora do hospital, chamou com uma voz severa, "Dr. Leo. Dr. Alina. Sigam-me."
Os investidores sussurraram entre si e foram-se embora. Jio ficou parado por mais alguns segundos antes de se virar e ir embora. Nem uma palavra.
Alina olhou para baixo, com o coração a bater forte, não por causa do beijo, mas pelo que ela sabia que estava para vir. As suas carreiras e reputações estavam agora em jogo.
Eles seguiram Dr. Hanif até ao canto VIP do café, um lugar onde as conversas não podiam ser facilmente ouvidas.
"É assim que vocês mantêm o profissionalismo?" A voz de Dr. Hanif era fria e insistente.
Leo abriu a boca para falar, mas Alina ganhou-lhe, com a sua voz firme e calma.
"Sinto muito, Doutor. Aconteceu para além do nosso controlo. Mas os nossos sentimentos estão lá há muito tempo. Nós é que os negámos por muito tempo."
Leo olhou para ela, e depois acrescentou, "Eu assumo total responsabilidade. Se isto violar o código de ética, estou pronto para enfrentar as consequências do hospital."
Dr. Hanif suspirou profundamente. Olhou para eles em silêncio por um longo momento antes de finalmente falar.
"Vocês podem ter esquecido, mas não são apenas profissionais de saúde. São figuras públicas no mundo da medicina. O vosso comportamento reflete esta instituição."
Outro silêncio.
"Mas", continuou ele, a voz um pouco mais suave, "se são sérios, então provem-no. Não se tornem apenas mais um escândalo barato. Provem que isto não é fofoca, mas compromisso."
Alina ficou chocada. Leo parecia igualmente surpreso.
"Escolham o caminho certo, ou preparem-se para enfrentar as consequências", disse Dr. Hanif antes de se virar e ir embora.
Por um tempo, eles apenas ficaram ali. A processar tudo.
Leo finalmente quebrou o silêncio. "Ouviste isso?"
Alina virou-se para ele, cansada, mas não zangada. "Ouvi."
Leo pegou gentilmente na sua mão. "Se isto tiver que ser real, e tivermos que lutar por isso, ainda queres isto, Alina?"
Os seus olhos brilharam. Mas desta vez, não por desilusão.
Porque, pela primeira vez, Leo estava a escolher ficar com ela, não a esconder-se atrás de títulos ou reputação.
Ela assentiu lentamente. "Quero. Mas não te atrevas a deixar-me ir de novo."
Leo deu um pequeno sorriso, baixou a cabeça e pousou a testa na dela.
"Então, vamos começar por aqui."