Capítulo 113: Fuga para Velmora
Não. Eu não posso. Eu não posso ser pega.
Com o resto da sua coragem, Alina saltou para a multidão de turistas recém-chegados. Crianças corriam, malas tilintavam, vozes se misturavam em um barulho incoerente, um caos que a salvou.
Ela se esquivou, prendendo a respiração toda vez que alguém se aproximava. Ela escorregou uma vez, quase caiu, mas rapidamente se levantou, fundindo-se novamente com o mar de pessoas. Em um instante, ela desapareceu da vista dos homens de Raja.
Por um momento, ela estava segura. Alina se abrigou atrás da parede da livraria do aeroporto, segurando o estômago e tentando acalmar a respiração. Seus olhos se encheram de lágrimas.
"Eu tenho que ir. Por você", ela sussurrou para a pequena vida crescendo dentro dela.
Ela olhou a hora na tela do celular. O voo para Velmora sairia em quinze minutos. E ela tinha que estar naquele avião, antes que o mundo de Raja pudesse engoli-la de novo.
Mas antes que ela pudesse se recompor, passos pesados ecoaram por perto. Alguém estava se aproximando da livraria. Alina prendeu a respiração. Seu coração bateu mais rápido do que nunca.
"Ela pode estar aqui dentro", veio uma voz masculina baixa e imponente.
Velmora, duas semanas depois. A névoa salgada do mar pairava no ar enquanto Alina caminhava pelas ruas de paralelepípedos de Velmora, escondendo o rosto sob o capuz de um casaco gasto. Ela morava em um quarto minúsculo acima de uma antiga loja de ervas de propriedade de uma mulher muda que nunca fazia perguntas. O lugar era frio, apertado, mas seguro.
Todas as noites, ela sonhava com Raja. Do toque dele. Daquela noite. E agora, da criança crescendo dentro dela. Ela acariciou a barriga, que começava a mudar. Às vezes, ela falava suavemente, como se a vida dentro dela pudesse entender.
"Eu não sei se ele vai te procurar, pequeno... ou se ele vai tentar te apagar da vida dele."
Mas Raja estava procurando por ela. Ele nunca parou. E agora, parte de sua rede subterrânea havia entrado em Velmora. Ele sabia que Alina não poderia ter deixado Bungalow sem ajuda. Alguém estava escondendo ela. E isso significava que ela ainda estava em algum lugar deste continente.
À noite, Alina sentava perto da janela, olhando para o porto iluminado por tochas e navios estrangeiros que carregavam histórias sombrias de Ardhalein. Mas a paz não durou. Porque alguns dias depois, alguém do seu passado retornou.
\Naquela tarde, o céu de Velmora estava envolto em névoa. Alina tinha acabado de voltar do mercado do porto, carregando um pequeno saco de ervas para o mês. Seu corpo parecia mais pesado, sua barriga começando a formar uma curva que só ela entendia.
Mas ao virar a esquina, seus passos congelaram. Ao longe estava alguém. Uma figura alta com cabelos castanhos e olhos cheios de lembranças. Ele olhou para ela em silêncio, como se o tempo ficasse em pausa no meio da rua movimentada. Leo.
Alina congelou. Sua respiração falhou. O mundo pareceu girar para trás. Era realmente ele. O homem por quem ela uma vez esperou. O homem que ela pensou que nunca voltaria. E agora, ele estava ali a poucos passos de distância.
Sem uma palavra, Alina se virou para ir embora. Mas aquela voz... a voz que uma vez fez seu coração disparar, agora chamou seu nome suavemente.
"Alina..."
Ela parou de andar. Ela não podia correr para sempre. Eles foram parar em um velho café à beira da estrada, longe das multidões. Uma chuva leve começou a cair, pingando contra as janelas de vidro enquanto o silêncio se estendia entre eles. Leo olhou para ela, longo e profundamente, a dor tremeluzindo em seus olhos.
"Eu... eu te procurei. Eu pensei que você ainda estava me esperando." Sua voz estava rouca. "Mas agora eu vejo..."
Seu olhar caiu para a barriga de Alina, começando a aparecer sob seu casaco grosso. Alina olhou para baixo. Não havia mais nada para esconder.
"Essa... não é minha criança, é?"
Alina lentamente balançou a cabeça. Sem lágrimas. Apenas silêncio.
"Depois que você foi, meu mundo desmoronou, Leo. Então eu conheci alguém. Um homem que mudou tudo. Ele me fez cair... e desmoronar de uma vez só."
Leo cerrou os punhos. "Ele te deixou?"
"Pelo contrário", Alina sussurrou. "Eu deixei ele. Porque eu pensei... ele não queria essa criança."
Silêncio novamente encheu a sala.
Leo respirou fundo. "Então... deixe-me compensar o passado. Deixe-me cuidar de você, Alina. Pelo menos... até você estar pronta para enfrentá-lo de novo."
Alina olhou para ele, gentilmente, mas firmemente. "Obrigada, Leo. Mas meu coração... não te pertence mais. Talvez um dia, mas agora... é tudo sobre ele. Sobre Raja."
Os olhos de Leo se apagaram, mas ele sorriu fracamente. "Eu sei. E eu aceito isso."
Ele segurou a xícara de chá que havia esfriado. "Mas por favor, deixe-me ficar. Não como um amante... apenas como alguém que um dia te amou, e talvez... ainda ama."
Alina só conseguiu balançar a cabeça. Em seu coração, havia calor, não de uma velha chama, mas de alguém que finalmente escolheu não forçá-la, apenas protegê-la. Mas mesmo por trás dessa paz, uma sombra permaneceu. Porque mais cedo ou mais tarde, ele viria. E quando esse dia chegasse, Alina sabia que seu mundo nunca mais seria o mesmo.
Os dias se passaram, e como prometido, Leo ficou ao seu lado. Ele cozinhava refeições, acompanhava-a à clínica, até tocava em sua barriga todas as noites, sussurrando para a criança que ambos sabiam que não era dele. Mas nem uma vez seus olhos mostraram arrependimento. Apenas cuidado genuíno.
Para o pequeno mundo de Velmora, eles pareciam o casal perfeito. Mas só Alina sabia que, toda vez que olhava para Leo, ainda via a sombra de Raja.
O homem que a mudou. O homem que a marcou para sempre. E no silêncio da noite, ela ainda acordava sussurrando seu nome. Mas Leo nunca perguntou. Ele simplesmente ficou. Silencioso. Guardando.
Meses depois, a dor veio como uma tempestade. Contrações repentinas. Sangue. Gritos ecoando em sua pequena casa. Leo entrou em pânico, carregando Alina para a clínica mais próxima, nunca soltando sua mão, mesmo quando ela mordia o lábio com uma dor insuportável.
Mas era tarde demais. O bebê que eles esperavam com tanta esperança... nunca chorou quando nasceu.
"Sentimos muito, Senhorita Aileen... o batimento cardíaco parou alguns minutos antes do parto. Fizemos tudo o que podíamos..."
O mundo de Alina desmoronou. A voz do médico desapareceu. Ela não conseguia respirar. Seu corpo ficou frio. Sua alma, vazia.
Aquela criança, parte de Raja, a única ponte entre eles, se foi. Leo a segurou a noite toda. Mas nenhum abraço pôde curar aquela ferida. Os olhos de Alina estavam em branco. Ela olhou para a parede branca do hospital com um olhar vazio.
"Eu não deveria ter ido embora. Eu não deveria ter deixado ele...", ela sussurrou.
Leo apertou sua mão. "Não se culpe. Você fez o seu melhor pelo seu filho. Por você mesma."
Mas Alina não respondeu. Ela sabia que aquela perda não era apenas sobre o bebê que ela nunca chegou a segurar. Era sobre o futuro que deveria ter sido com Raja, com seu filho. E agora, tudo se foi.