Capítulo 27: Incitamento na Ponta da Lança
O coração dele tava batendo rápido, mas a cara dele continuou tranquila. Ele não podia ser inconsequente. Se ele acusasse logo de cara o velho xamã de estar doente, os aldeões podiam achar que ele tava só inventando desculpas. Não, ele tinha que ser esperto.
Ele deu um passo à frente, com os olhos fixos no velho xamã, com uma cara de curioso. 'Velho xamã," a voz dele tava calma, mas alta o suficiente pra todo mundo ouvir, 'você é o mais esperto de todos. Mas… por que você tá com essa cara pálida?"
Os aldeões, que tavam com muita raiva, começaram a olhar pro xamã. Alguns fizeram cara feia, como se só agora tivessem percebido que algo tava errado.
'Você parece exausto," Leo continuou, observando cada reação com cuidado. 'Eu já tratei muita gente doente antes. Se você deixar, eu posso examinar você."
O velho xamã zombou, claramente incomodado com a atenção de repente. 'Não tente mudar de assunto, garoto!" A voz dele tava rouca, mas… fraca.
A dúvida começou a aparecer na cabeça dos aldeões. Um homem de meia-idade sussurrou pro amigo: 'É verdade, eu vi ele tossindo ontem."
'E ele quase não saiu de casa nos últimos dias," outro completou.
Leo sentiu a brecha. 'Eu não tô pedindo pra vocês acreditarem em mim de cara," ele falou, com a voz ficando mais forte. 'Mas se o xamã que vocês respeitam tá mal, ele não deveria receber tratamento primeiro antes de tomar qualquer decisão importante?"
Os olhares dos aldeões mudaram entre Leo e o velho xamã. As conversas sussurradas ficaram mais altas, e até o chefe da aldeia parecia estar pensando em alguma coisa. Mas o momento foi quebrado por um grito vindo da cabana.
'Leo! O paciente tá tendo convulsões e espumando pela boca!" Alina correu pra frente, com pânico estampado na cara. 'Eu não sei o que tá acontecendo com ele!"
Sem pensar duas vezes, Leo empurrou a multidão e entrou na cabana, com os aldeões seguindo com os olhos desconfiados.
Num catre todo fudido, um homem se contorcia de dor, com espuma branca saindo da boca dele. A respiração dele vinha em soluços irregulares.
Leo checou o pulso dele, e aí um cheiro fraco chegou no nariz dele. Um cheiro amargo e familiar.
'Ele foi envenenado," ele afirmou firmemente.
Os aldeões ficaram chocados.
'Envenenado?" um deles repetiu, com a voz tremendo.
Alina mordeu o lábio, com a cabeça a milhão pensando no que tinha acontecido antes. 'Ele… ele só tomou remédio de ervas de sambiloto preparado pelos aldeões. Será que essa é a causa?"
Leo fez uma cara feia, com o olhar pousando no líquido que sobrou num recipiente de bambu perto do paciente. Ele molhou a ponta do dedo ali e levou pro nariz dele. Tinha alguma coisa errada.
'O sambiloto em si não é perigoso," ele murmurou. 'Mas se misturar com certas plantas… pode virar um veneno mortal."
Murmúrios de confusão se espalharam entre os aldeões. Alguém no canto deu um sorrisinho. Aí, uma voz grave cortou a tensão, direcionando a suspeita pro Leo.
'Quem aqui sabe mais sobre venenos?"
A voz era de um homem corpulento — um dos seguidores leais do velho xamã. 'Não nós. Não o nosso xamã. Mas ele." Ele levantou um dedo, apontando direto pro Leo.
Os sussurros viraram murmúrios de suspeita.
Leo fechou os punhos. Aquilo era uma armadilha. O velho xamã, que parecia fraco há pouco tempo, de repente levantou a cabeça, com um olhar triunfante.
Um aldeão que apoiava o Leo falou. 'Então, vocês estão acusando o médico de envenenar esse homem?" A voz dele tava baixa, mas firme. 'Ou talvez… você é o responsável?"
Leo apertou mais os punhos, lutando pra segurar a fúria que tava subindo no peito dele. Ele sabia que aquilo não era só um mal-entendido — era uma armadilha cuidadosamente preparada.
Antes que ele pudesse responder, Alina deu um passo à frente. Os olhos dela brilharam com desafio, e a voz dela cortou os murmúrios.
'Um médico matando o próprio paciente? Escutem, se eu quisesse matar alguém, eu não ia usar um veneno barato como esse."
Alguns aldeões se assustaram. Alguns hesitaram, mas a maioria ficou com mais raiva ainda.
'Eu falei! A chegada deles trouxe azar!" alguém na multidão gritou.
'Nossos ancestrais nos avisaram sobre forasteiros! Mas vocês ainda deixaram eles ficarem!" outro completou, com a voz cheia de raiva.
O velho xamã deu um sorrisinho quando a maré virou a favor dele. A raiva dos aldeões aumentou, e as vozes deles se juntaram numa só cantoria.
'Botem eles pra fora!"
'Saiam da nossa aldeia!"
Leo sentiu a frieza da rejeição. Eles não o viam mais como um salvador — só como uma ameaça.
Mas Alina se recusou a desistir. Ela se virou pro chefe da aldeia, a única pessoa que ainda não tinha falado. 'Nós não estamos pedindo muito," a voz dela tava mais calma agora. 'Só nos dê uma chance de provar que somos inocentes."
O chefe da aldeia a observou por um longo momento, como se estivesse pesando as palavras dela. Mas antes que ele pudesse responder, o homem corpulento interrompeu de novo.
'Não escutem eles! Eles estão só tentando arranjar uma desculpa pra ficar!"
O velho xamã acrescentou: 'O tempo só vai trazer mais desgraça. Se vocês querem estar seguros, expulsem eles agora."
Os aldeões se aproximaram, com a hostilidade grossa no ar. Mas essa não foi a primeira vez que Alina enfrentou uma situação como essa. Na vida passada dela, como uma encarregada da máfia, ela aprendeu uma coisa: confiança era uma moeda frágil. Se ela quisesse vencer, ela precisava de algo mais forte que palavras — provas.
Ela respirou fundo e falou antes que o chefe da aldeia pudesse tomar a decisão final.
'Ok. Se vocês querem que a gente vá embora, a gente vai. Mas antes, deixa eu falar uma coisa."
Os aldeões pararam, com a curiosidade travando os movimentos deles.
'Se nós fôssemos realmente culpados, se nós fôssemos realmente os responsáveis por essa desgraça, então todo mundo que bebeu aquela poção de sambiloto também não deveria estar morto?"
Alguns aldeões trocaram olhares, franzindo a testa.
'Mas só uma pessoa teve convulsões e espumou pela boca. Por quê?" Alina continuou, com a voz firme e deliberada. 'Se a poção fosse realmente venenosa, não deveria ter mais vítimas?"
Os murmúrios ficaram mais altos. A dúvida apareceu nas expressões deles.
O velho xamã estreitou os olhos, percebendo que Alina tava mudando o foco. Mas antes que ele pudesse falar, Alina se virou e apontou pro homem corpulento que tinha sido o mais barulhento em acusá-los.
'E você," ela falou, com a voz fria como aço, 'você foi tão rápido em culpar a gente. Rápido demais. Quase como se você já soubesse que alguém ia morrer hoje."
O homem se enrijeceu, e aí mascarou rápido o nervosismo dele. 'O que você tá querendo dizer?!"
'Eu tô dizendo," Alina deu um sorrisinho, com a sombra do antigo eu da máfia aparecendo nos olhos dela, 'que só tem dois motivos pra alguém ser tão rápido em acusar. Um, eles são incrivelmente burros. Dois, eles estão envolvidos."
Os aldeões se viraram pro homem corpulento. Agora, ele era quem tava sendo analisado.
'Chega de besteira!" o velho xamã gritou. 'Você não tem nenhuma prova!"
Alina sorriu. 'Nenhuma prova? Ah, você me subestima, Velho Xamã."
Ela foi até o paciente, que ainda tava fraco no catre. Perto dele tava o recipiente de bambu que tinha a poção de sambiloto. Rapidamente, ela molhou os dedos no líquido que sobrou e levou pro nariz.
Ela fechou os olhos por um momento, e aí deu um sorrisinho. 'Leo, preciso de um pano limpo."
Sem hesitar, Leo rasgou um pedaço da camisa dele e entregou pra ela. Alina encharcou o pano no líquido, e aí pressionou contra a parte de dentro dos lábios espumando do paciente.
O chefe da aldeia levantou a mão, pronto pra dar uma ordem. Os aldeões ficaram tensos, alguns até agarrando as lanças deles.
Alina permaneceu calma. Aí, no instante seguinte, o pano ficou com uma cor azul-roxa escura.
'Tá aí a prova de vocês."
Silêncio. Até o velho xamã ficou sem palavras.
Leo soltou o ar com força. 'Beladona," ele falou, com a ficha caindo. 'Um veneno de plantas selvagens na floresta. Misturado com sambiloto, os efeitos são demorados, mas ainda letais."
Alina se virou pro velho xamã e pro homem corpulento, com satisfação brilhando nos olhos dela. 'E só algumas pessoas sabem como misturar isso sem deixar rastros. Leo, você sabe quem são?"
O olhar do Leo endureceu. 'Pessoas que trabalham com medicina de ervas há muito tempo."
Os olhos dos aldeões mudaram pro velho xamã e pro seguidor dele. Os murmúrios deles mudaram — de confusão pra realização.
Alina sorriu. 'Ainda querem nos expulsar?"