Capítulo 76: A Fratura Aberta
Naquela manhã, Alina encarou o reflexo dela no espelho da sala de atendimento nova. A mesma cara, mas sem aquela calma que ela costumava ter. Debaixo da camada de pó e batom fraco, uma inquietação silenciosa roía a determinação dela aos poucos.
Na mesa, a ficha do Jio tava aberta, página após página marcada com um marca-texto fininho. Cada anotação médica, cada rastro de transações financeiras, tudo apontava pra um nome: Leo.
Teve uma batida na porta. A assistente dela entrou. "Sua primeira paciente tá aqui, Dra. Aileen. Mas antes, tem alguém que quer falar com a senhora em particular. O nome dele é Jio."
Alina fechou a ficha com calma. "Deixa ele entrar."
Jio apareceu na porta, dessa vez de terno, com a postura calma dele intacta. Mas Alina tinha aprendido, calma nem sempre significava honestidade.
"O que você tá planejando?" ela perguntou. "Por que você me deu aquela prova?"
Jio deu um sorrisinho de leve. "Você precisava da verdade. Eu tinha metade dela."
O olhar da Alina ficou mais afiado. "E a outra metade?"
"É o que a gente vai descobrir junto."
Aí a Alina atravessou a sala. "Por que você tá fazendo isso? O Leo é seu amigo, né?"
Jio segurou o olhar dela por um momento antes de responder, "Porque você é esperta demais pra ser enganada, mas gentil demais pra ver isso sozinha."
Em outro lugar, o Leo tava sentado no carro preto dele, encarando o prédio onde a Alina trabalhava. A cara dele tava séria. No banco do carona, um cara de óculos entregou uma pasta, resultados de uma investigação interna.
"Ela tem acessado arquivos antigos do hospital. Até pediu cópias dos prontuários dos pacientes, aqueles que você atendeu pessoalmente. Especialmente os que pagaram em dinheiro."
O Leo fechou a mão. "Ela sabe de alguma coisa."
O cara abaixou o olhar. "E ela tá chegando perto do Jio."
Por um instante, o Leo fechou os olhos e respirou fundo.
"Prepara a sala de servidores de backup. Copia todos os dados pro sistema offline. A partir de hoje à noite, ninguém acessa a rede principal sem um código de verificação meu."
"E a Aileen?"
O Leo olhou fixo pra longe.
"Ela é minha amante. Mas se ela virar uma ameaça, a gente sabe o que fazer."
Enquanto isso, no mesmo lounge do hotel, a Indry tava parada de frente pra janela, com o celular na mão. Ela tinha acabado de receber uma mensagem do Jio: "A isca funcionou. Ela tá cavando."
Ela sorriu de leve, e abriu um arquivo novo no celular. Dentro, tinha fotos da Aileen e do Jio juntos em vários lugares: um café, o estacionamento do hospital, até entrando num hotel.
A Indry mandou a foto pra um contato. Sem texto. Sem explicação. Só uma imagem, o suficiente pra destruir a confiança. E em algum lugar da cidade.
Alguém que não devia ter visto, viu a foto. E começou a fazer as próprias jogadas. Em segundos, as imagens sensíveis da Alina e do Jio se espalharam feito fogo na internet.
O nome da Alina virou o centro da fofoca. Antes elogiada como uma médica jovem visionária e inovadora, agora ela era tachada como uma mulher escandalosa que brincava com os corações. Todas as conquistas dela pareciam ter sumido sob uma enxurrada de acusações morais.
O Leo começou a se afastar. O que antes era um relacionamento quente virou frio e desconfiado. A confiança que eles tinham antes rachou, pedacinho por pedacinho.
Enquanto isso, o Jio e a Indry estavam curtindo a tempestade que eles criaram.
"Engraçado, né?" a Indry sussurrou, de olho na tela do celular, um sorrisinho fraco nos lábios.
"Parece que a gente não é a única que quer ver eles caírem. Alguém mais também quer, e essa pessoa é ainda mais sem escrúpulos do que a gente."
A Alina tentou explicar, a voz tremendo, os olhos implorando por compreensão.
"Leo, só escuta. Não é o que você tá pensando."
Mas ele ficou em silêncio. O olhar dele tava frio, como se ele não reconhecesse mais a mulher que ele amava.
"Eu tô cansado, Alina."
Só duas palavras, mas o suficiente pra despedaçar a esperança da Alina. O Leo não estava mais do lado dela. Ele escolheu ir embora, não porque acreditava na verdade, mas porque o coração dele já estava afogando na decepção.
Não demorou muito pro Leo se aproximar da mulher que a família dele tinha arranjado pra ele, Stela. Uma atriz famosa, bonita, elegante, de uma família prestigiosa. Tão diferente da vida humilde da Alina. E o pior de tudo, as famílias deles se conheciam há anos.
Era como se tudo tivesse sido planejado desde o começo, e a Alina fosse só uma intrusa na história perfeita deles. Ela ficou sozinha, encarando um mundo que de repente virou frio.
Traída pelo amor, destruída pela calúnia, e agora deixada de lado pela realidade. Mas por trás das feridas profundas, uma faísca começou a acender dentro dela.
A Alina sabia que se ficasse quieta, tudo ia acabar ali. A reputação dela. A carreira dela. Até a vida dela.
Ela tava decidida a descobrir quem tava por trás de tudo isso. Mesmo que tivesse que fazer sozinha. O primeiro passo dela: Jio.
Ela começou a cavar. Abrindo arquivos antigos, checando registros de comunicação, rastreando as pegadas digitais do Jio em silêncio. Não foi fácil. O Jio era esperto, sempre cobrindo os rastros dele. Mas a Alina não era boba.
Eventualmente, um ponto de dados suspeito apareceu. Uma transferência de fundos de uma conta anônima pra conta pessoal do Jio, só um dia antes das fotos vazarem.
A Alina encarou a tela, sem fôlego. "Então isso não é só fofoca. É armação."
E isso significava que alguém maior, mais forte e muito mais malicioso estava por trás de tudo.
A Alina encarou a tela do laptop. As mãos dela tremiam, mas os olhos estavam afiados. Ela sabia que a estrada pela frente ia ser difícil. Mas ela não tinha escolha a não ser seguir em frente.
Usando todas as habilidades que ela tinha, ela tentou rastrear o dono da conta anônima. Ela acessou um servidor escondido, usando uma conexão privada do sistema do hospital que ela tinha copiado antes de ser removida da equipe.
Mas alguém tinha agido primeiro. A conta ainda tava lá, mas vazia. Todos os dados de propriedade apagados. Como se nunca tivesse existido.
A Alina apertou a mandíbula. Quem quer que estivesse por trás disso sabia exatamente o que tava fazendo.
Mas ela não desistiu. Ela abriu o disco rígido antigo dela. Tirou cabos pequenos, conectando o dispositivo desatualizado que ela costumava usar quando ajudava a divisão de forense digital.
Um truque antigo, usando setores de recuperação pra recuperar arquivos excluídos do servidor. Demorou. Paciência. Mas, finalmente, um fragmento de arquivo único ressuscitou.
Não um nome. Não uma foto. Mas coordenadas. A Alina franziu os olhos, estudando os números. E, pela primeira vez, ela sentiu que a porta pra verdade tava começando a se abrir, aos poucos.
"Eu vou descobrir quem você realmente é."