Capítulo 35: Ódio Fabricado
Alina ficou parada que nem uma estátua, com o coração a mil. O Jovem estava estirado no chão, e o sangue fazia uma poça à volta do corpo dele. A bala que lhe tinha atravessado o peito tinha-lhe tirado a vida num instante.
"Assassina! Tu mataste o meu filho!"
O grito de angústia quebrou o silêncio da noite. A Mulher de meia-idade, com a cara lavada em lágrimas, correu para o corpo sem vida do Jovem. Ela chorava, abanando-o desesperadamente, como se tentasse acordá-lo.
Alina ficou em choque. "Senhora, não fui eu… Eu tentei ajudá-lo—"
*Tapa!*
Uma bofetada ardente aterrou na cara dela. Doía, mas a acusação da mulher doía ainda mais.
"Não mintas! Estavas aqui, e agora o meu filho está morto!" A mãe gritava histérica, fazendo com que os aldeões reunidos cochichassem entre si.
Alina negou com a cabeça freneticamente, a tentar explicar. "Ele veio ter comigo, a pedir ajuda. Alguém lhe atirou antes que ele pudesse dizer mais nada!"
Mas a dúvida já se tinha espalhado. Os aldeões trocaram olhares, alguns deles a olhar para a Alina com desconfiança.
Leo, que chegou a correr da floresta, apressou-se.
"O que se passou?"
Aline virou-se para ele, pálida. "Alguém lhe atirou. Ele ia dizer-me quem estava por trás do envenenamento do poço, mas—"
Os olhos do Leo estreitaram-se, os instintos dele a atacar. Os aldeões olharam para os dois de forma diferente. Não só com tristeza, mas com desconfiança.
"Não me digas que isto tem algo a ver com eles", murmurou ele, baixinho.
Alina mordeu o lábio.
"Marco."
O Leo estalou a língua em frustração. "Aquele *bastardo*."
Mas antes que pudessem discutir mais, o Chefe da aldeia adiantou-se. "Não devemos ser apressados a apontar o dedo", disse ele, com a voz firme apesar da tensão. "Mas um aldeão perdeu a vida, e não podemos deixar isto sem resposta."
Alina obrigou-se a manter a calma. Precisava de pensar com clareza.
"Quem quer que tenha feito isto, quer criar o caos", disse ela, firme. "Se começarmos a culpar uns aos outros, vamos estar a jogar diretamente no jogo deles."
O chefe assentiu com a cabeça, depois virou-se para alguns homens. "Levem o corpo dele para dentro. Vamos dar-lhe um enterro digno."
A Mãe enlutada ainda soluçava, mas algumas mulheres ajudaram-na a ir embora, a tentar consolá-la.
Alina respirou fundo, deixando o ar frio da noite queimar os pulmões. O peito dela parecia apertado, não só por causa do frio, mas pelo peso esmagador da realidade. Uma coisa era clara—alguém não queria que a verdade viesse à tona. E estavam dispostos a matar para a manter escondida.
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O funeral acabou, mas as acusações não. A Mãe enlutada ainda via a Alina como uma assassina. Mesmo com o corpo dela a enfraquecer com a doença, ela recusou o tratamento da Alina, como se a simples presença dela fosse uma maldição.
O Leo também sofreu. Ele não sabia de nada, mas os aldeões começaram a distanciar-se dele. Ninguém ousava falar com eles. Eles nem sequer olhavam para eles. O medo tinha consumido a aldeia. Eles acreditavam que qualquer pessoa que se aproximasse demasiado dos dois médicos encontraria um destino trágico.
A pressão continuava a aumentar. Os aldeões exigiram que o chefe os expulsasse. Desde que a Alina e o Leo chegaram, a aldeia que antes era pacífica tinha-se tornado um lugar de desastre. A confiança que tinham construído aos poucos estava agora em ruínas.
E pela primeira vez, a Alina sentiu-se verdadeiramente sozinha.
Mesmo com a hostilidade, uma coisa lhe deu uma ponta de esperança. O Chefe da aldeia ainda acreditava neles. Ele sabia que a Alina e o Leo não eram a causa desta desgraça.
Eles eram meras vítimas, presos num esquema maior, a tentar salvar a aldeia das sombras daqueles que queriam enterrar a verdade.
"O que fazemos agora?" a voz da Alina estava cheia de desespero.
O Leo expirou profundamente, a olhar para a noite escura como se estivesse a procurar respostas entre as estrelas. "Não os podemos forçar. Já ouviste falar da mídia?"
Aline negou com a cabeça, fracamente. "Não há notícias. Só espero que, quando voltarmos para a cidade, isto tenha terminado…"
O tempo deles na aldeia estava quase a acabar. Faltavam apenas alguns dias antes de voltarem às suas vidas normais. Mas ainda não houve nenhuma descoberta no caso que assombrava a aldeia. Cada pista levava-os mais fundo num labirinto sem saída.
E se partissem sem descobrir a verdade, quem salvaria a aldeia de uma catástrofe ainda maior?
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Dia após dia, o ódio dos aldeões intensificava-se. Já não eram apenas sussurros ou olhares frios. Agora, eles tinham começado a agir.
Os materiais médicos que antes salvavam vidas foram destruídos sem piedade. A clínica que deveria ter sido um lugar de cura era agora uma ruína, despedaçada como os restos de uma tempestade.
O Chefe da aldeia tentou detê-los, mas foi inútil. O medo e a raiva tinham cegado os aldeões. Eles não odiavam apenas a Alina e o Leo—estavam dispostos a lutar contra qualquer pessoa que ousasse defendê-los.
Aline cerrou as mãos trémulas. Não por causa do frio, mas da raiva que ela lutava para conter.
"Leo… temos de ir embora", sussurrou ela.
O Leo não respondeu imediatamente. O olhar dele dirigiu-se para a aldeia que agora parecia mais estranha do que nunca. Ele sabia que a Alina tinha razão. Mas se eles fossem embora agora, ainda havia esperança para a aldeia?
Sem esperar por uma resposta, Alina começou a fazer as malas. Ela não aguentava mais. Os olhares de ódio, os murmúrios de culpa, a destruição. Ela queria ir embora o mais rápido possível.
Mas o Leo permaneceu calmo, como se o peso de tudo não o afetasse. "Tens a certeza de que queres deixar a aldeia neste estado?" perguntou ele, silenciosamente mas firmemente. "Aquele velho vai-te mandar para um sítio ainda pior se voltares agora."
Aline congelou. A respiração dela interrompeu-se por um momento. O Leo tinha razão. Da última vez, o Diretor do hospital tinha-a mandado para ali como castigo depois de um incidente com um O paciente VIP. Ela também tinha ameaçado divulgar à mídia provas da corrupção do Diretor. Se voltasse antes de concluir a sua tarefa, ele não a deixaria escapar. Ele podia enviá-la para um lugar ainda mais isolado, ainda mais perigoso, por um tempo ainda maior.
Aline cerrou os punhos, engolindo a frustração. "Alina… só mais uns dias. Sê paciente", sussurrou para si mesma.
Ela respirou fundo, a tentar acalmar a mente. Se não podia ir embora, então a única opção era ficar. E isso significava encontrar uma maneira de chegar aos aldeões.
Uma oportunidade surgiu mais cedo do que ela esperava. Enquanto ia buscar água ao rio, ouviu uma conversa abafada entre algumas mulheres a lavar roupa. As vozes delas eram baixas, como se tivessem medo de ser ouvidas.
"Eu até tenho pena da Doutora Aileen…"
"Chega! Elas merecem. Queres arriscar a tua vida por defendê-las?"
"Mas elas ajudaram-nos quando estávamos doentes… Reconstruíram as nossas casas depois do desastre…"
"Isso não importa! É mais seguro ficar calado do que morrer por elas."
O coração da Alina bateu com força. As mãos dela apertaram-se à volta do balde que carregava, a resistir à vontade de interromper.
Portanto, nem todos os odiavam… mas algo os estava a manter com medo. Que tipo de medo podia fazer com que as pessoas esquecessem a sua gratidão?
Aline precisava descobrir. A mente dela correu, a tentar ligar os pontos. Não fazia sentido que este ódio aparecesse do nada. Alguém tinha espalhado o medo entre os aldeões. Ela cerrou as mãos, estabilizando os dedos trémulos.
"Do que é que eles têm medo? Deve haver alguém a puxar os cordelinhos por trás de tudo isto."
A voz dela quase tremeu, não de medo, mas da raiva que queimava dentro dela. Se ela conseguisse descobrir quem estava a controlar a situação, talvez—só talvez—ainda houvesse uma maneira de salvar esta aldeia antes que fosse tarde demais.
Mas a verdadeira questão era… como?